segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Statik Selektah: 100 Proof The Hangover

A maioria dos leitores já deve ter ouvido falar em Statik Selektah. O cara, que surgiu a princípio como um protegido do DJ Premier, saiu da sombra do seu mentor e tornou-se um dos produtores mais prolíficos da cena norte-americana. Statik trabalhou com um sem-número de emcees, tanto no underground quanto no mainstream, e já lançou dois álbuns, sempre convidando um time de peso para rimar sobre suas batidas igualmente pesadas. Nas duas oportunidades, foi mais uma coletânea de rappers sobre os beats de Statik do que propriamente um disco. Porém, na sua terceira obra, "100 Proof The Hangover", parece que o beatmaker nova-iorquino acertou a mão, e comprovou de vez sua evolução.

Finalmente, a sensação é de que estamos ouvindo algo direcionado, pensando, e não apenas faixas aleatórias. Statik emprega um clima sombrio que permeia todo o disco, apostando em batidas fortes e a meio tempo, com uma ou outra mudança de direção ao longo do álbum. Para esta missão de retratar as ruas de Nova Iorque, nada melhor do que um apanhado dos mais contundentes representantes do local, desde veteranos, como a dupla Smif-N-Wessun, Kool G Rap, Lil'Fame e Sean Price, até a nova escola - Saigon, Skyzoo e Termanology. Acrescente isto a veteranos e promessas de outros lados dos EUA - Bun B, Wale, Evidence e Fashawn, por exemplo - e você terá um elenco de primeira linha do rap estadunidense, e uma oportunidade de ouro para Statik permitir-se mover seu som para além das fronteiras nova-iorquinas.

De fato, todos os emcees convidados têm grande perfomance. Skyzoo simplesmente domina "Get Out" com um verso tão espetacular quanto a própria batida; Lil'Fame também é responsável por um dos melhores momentos do álbum em "Critically Acclaimed", com rimas espirituosas como: "Se eu te perguntar seu Top 10 de rappers, mortos ou vivos / e você não me mencionar, eu vou escurecer seus olhos" ou "Os caras não vão dar os meus créditos / então aqui vai um monte de palavrões para vocês editarem: vão chupar um pau, suas vadias de merda / vocês estão mexendo com os guerreiros de Brownsville". Mais hardcore do que isso, impossível. Entretanto, é Termanology quem rouba a cena; o jovem emcee é o que mais aparece ao longo do disco e mostra uma forma impecável - particularmente em "Come Around", num show de lirismo e técnica.

Consistência também é a chave para descrever o trabalho do anfitrião Statik Selektah. Embora ele ainda encontre tempo para pancadões ignorantes como a supracitada "Critically Acclaimed", com um loop viciante, ou "Do It 2 Death", "100 Proof The Hangover" é claramente um disco mais sutil do que poderíamos esperar do histórico do produtor. Faixas como "So Close, So Far" e "Come Around" mostram um pouco desta tendência. A primeira tem até refrão cantado, e conta com vocais acelerados e um saxofone aqui e ali para dar um tempero a mais, enquanto a segunda recorre também a samples vocais e saxofones, mas de uma forma muito mais presente no mix. "The Thrill Is Gone" é outro destaque, com seu clima jazz-rap e colagens de Biggie.

Depois de alguns anos ralando para valer, seja com mixtapes ou produzindo para diversos rappers, Statik finalmente parece alcançar sua maturidade artística. "100 Proof The Hangover" é exemplo disto, com um som mais refinado, um estilo melhor definido e algumas das melhores faixas já lançadas em 2010. Sua forma recente de contribuições já mostrava que estaríamos diante de um ótimo álbum, e isto se confirmou. A seguir neste ritmo, Statik vai rapidamente entrar naquela lista de produtores que nunca nos desapontam.

Statik Selektah - 100 Proof The Hangover
1. Inside A Change (Intro)
2. So Close, So Far f. Bun B, Wale & Colin Munroe
3. Critically Acclaimed f. Lil Fame, Saigon & Sean Price
4. Night People f. Freeway, Red Cafe & Masspike Miles
5. Follow We f. Smif-N-Wessun
6. Do It 2 Death f. Lil Fame, Havoc & Kool G Rap
7. Come Around f. Termanology & Royce Da 5′9″
8. Drunken Nights f. Reks, Joe Scudda & J.F.K.
9. Life Is Short f. Consequence
10. The Thrill Is Gone f. Styles P & Talib Kweli
11. Get Out f. Skyzoo, Rapper Pooh, Torae & Lee Wilson
12. Laughin f. Souls Of Mischief
13. The Coast f. Evidence, Fashawn & Kali
14. 100 Proof (Interlude) f. J.F.K.
15. Fake Love (Yes Men) f. Reks, Kali, Termanology & Good Brotha
16. Eighty-Two f. Termanology
17. Walking Away f. Kali & Novel

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Oddisee: Traveling Man

Eu não sou músico, mas, de longe, acho que uma das coisas mais gratificantes nesta vida é a possibilidade de viajar para um sem-número de lugares para fazer aquilo que mais gosta. Este contato com uma multiplicidade de culturas e estilos de vida é algo valiosíssimo para qualquer ser humano. Além disso, é uma ótima oportunidade para a pessoa crescer. Na música, então, é uma grande chance do cara agregar ainda mais valores à sua profissão e, assim, melhorar ainda mais. E o beatmaker Oddisee, um dos ótimos nomes da nova geração de beatmakers norte-americanos, resolveu levar toda esta ideia para o álbum instrumental "Traveling Man".

No disco, são 24 faixas, cada uma delas nomeadas a partir de uma cidade visitada por Oddisee nestes anos de estrada. São lugares chaves do Hip-Hop norte-americano, mas também megalópoles como Paris, Tóquio e Londres. Tem espaço até para São Paulo (!) e a nigeriana Lagos. Mais do que uma lição de geografia, porém, é o conceito por trás da feitura do álbum. Cada beat foi feito por Oddisee quando ele estava no local indicado. E, na maioria esmagadora das vezes, utilizando elementos daquela realidade para construir suas batidas. Uma tarefa que pode até parecer simples, mas fazer isso sem recorrer a clichês e manter o seu estilo próprio é algo bem complexo.

E, falando nisso, abro um parênteses para explicar um pouco das minhas expectativas quando soube deste projeto instrumental. Com o currículo de Oddisee apontando trabalhos como "In The Ruff", do Diamond District - um clássico boom bap em pleno século 21! - e produções para artistas como Talib Kweli, Little Brother, X.O. e yU (os dois últimos também integrantes do DD), o que eu esperava era uma já potencial marca registrada de beats agressivos, rasteiros, com ênfase na força de caixas e bumbos e samples apenas complementando o espectro. Ledo engano. "Traveling Man" é uma aula de versatilidade de Oddisee.

Para isso, basta irmos até faixas como "South Central" e "Atlanta". A primeira vai te levar novamente à época de ouro do G-Funk da Costa Oeste, com direito a vocais metalizados - os ancestrais do Autotune -, sintetizadores e caixas que, ao baterem nos ouvidos, parecem gigantescas. A segunda é a versão de Oddisee para o Dirty South que invadiu os EUA nos últimos anos, com direito aos loops de sintetizadores dominando o esteréo. Porém, a diferença que faz a faixa ser uma versão de Oddisee e não um simples dirty south é o tratamento na bateria, bem mais incisiva, com direito a viradas orgânicas. Se um dia o boom bap nova-iorquino cruzar com o estilo do sul, o resultado poderia ser parecido com o alcançado por nosso ilustre beatmaker.

Quanto às cidades estrangeiras, mais demonstrações de habilidade. "Tokyo" é tranquila, no melhor estilo mellow rap que tanto faz sucesso por aquelas bandas, e tem direito até a instrumentos orientais no mix. A brasileira "Sao Paulo" traz aquele funkão tupiniquim dos anos 70, com muito suíngue e um baixo nervosíssimo, acompanhado de naipe de metais e uma bateria toda quebrada. Mas, em todas estas viagens, parece que foi em "Stockholm", na Suécia, que Oddisee esteve mais inspirado. A batida, depois utilizada por X.O. e que esteve no último Boom Bap Jams, recorre a algumas notas de um piano meio triste e excertos de música clássica para criar um clima frio bastante condizente com o local. Ironia ou não, é uma faixa muito mais parecida com a estética nova-iorquina do que a própria "NYC".

Apesar de todas as viagens, o que fica claro é que Oddisee se sente em casa nos EUA. "Detroit" é outro grande destaque do álbum, com uma bateria seca e samples espetaculares intercalando à medida que os segundos passam. "Houston" traz novamente um clima mais intimista e "DC", a casa do beatmaker, recorre à música Go-Go para pintar um retrato fiel ao local.

No fim das contas - e dos check-ins -, "Traveling Man" é um álbum que, apesar de completamente instrumental, preenche qualquer necessidade do ouvinte. O conceito é simples, mas, ao mesmo tempo, exige conhecimento e bastante pesquisa musical para ser bem executado. Com este disco, Oddisee mostra que não é só um talentoso beatmaker com raízes na época dourada do rap norte-americano; ele prova sua versatilidade e capacidade para trabalhar com qualquer rapper, em qualquer lugar do mundo. Suas viagens não o deixam mentir.

Oddisee - Traveling Man
1. Goodbye DC
2. NYC
3. Paris
4. Miami
5. London
6. Khartoum
7. Sao Paulo
8. Tokyo
9. Brixton
10. Lagos
11. Long Beach
12. Melbourne
13. Boston
14. Atlanta
15. Philly
16. San Fran
17. Stockholm
18. Inglewood
19. South Central
20. Detroit
21. Chicago
22. Las Vegas
23. DC
24. Houston

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Arnaldo Tifu: A Rima Não Para

Ano: 2009
Gravadora: Pau-de-dá-em-doido
Produtores: DJ Nato_PK (todas as faixas, exceto as citadas), Sagat (faixa 1), , Silvera (4), Bruno Cabrero (14), Heron Beats (8).
Participações: Enézimo (faixas 2, 8 e 16), Silvera (4), Filiph Neo (4), Sorry Drummer (4), Bruno Cabrero (6), Sagat (6), Paola Evangelista (10), Max Musicamente (12), Preto R (12), Dantas (12), Carlus Avonts (13), Emicida (13), Márcio Sabiá (14), Stefanie (16), Nenê Candeeiro (17), Murilo Mendes (17), DJ Nato_PK (1, 3, 8, 9, 16 e 19), DJ RM (13), DJ Erick Jay (13), DJ Spaiq (18).

Confesso que pouco ou nada sabia sobre Arnaldo Tifu antes de ouvir o seu primeiro single, no fim do ano passado. Na época, o emcee paulista já anunciava um disco para o fim do ano e deixara muito boa impressão com seu "Pra Cascá". Fast-foward para o início de 2010 e, com uma cópia de "A Rima Não Para" nas mãos, deixei-me surpreender novamente por ele. Cria do selo Pau-de-dá-em-doido e com produção majoritária do DJ Nato_PK, Tifu é o responsável por mais um bom álbum de rap nacional, sem recorrer a fórmulas nem a tendências.

Tifu não é um gangsta, nem um backpacker sem objetividade. Na verdade, é através de uma pitada de cada coisa que ele cria seu estilo de rimar: versos sem muitos floreios, indo direto ao ponto da mensagem proposta, no caso, temas mais positivos. Claro, às vezes ele sucumbe a alguns clichês do rap nacional, como mais uma faixa inteiramente dedicada aos falsos, invejosos, bico sujo, zé povinho etc etc etc, temática obrigatória em nove entre dez discos nacionais. Com Tifu, o alvo é o "Fofoqueiro".

Entretanto, para cada "Fofoqueiro", Tifu brinda os ouvintes com rimas e conceitos originais, como "Trá-lá-lá", direcionada às crianças, citando brincadeiras e doces infantis capazes de fazer qualquer marmanjo barbado voltar 15 anos no tempo e desejar nunca sair daquela época, mas sem deixar de mostrar que são os pentelhos de hoje a força motora do país amanhã. Aliás, a criançada é um algo recorrente pelas faixas do álbum. Em sua proposta de positividade, Tifu sempre menciona as crianças como uma forma de melhorar as coisas. Em "Pra Cascá" e "Quero" podemos encontrar versos desta natureza.

"Quero", por sinal, é um dos destaques do álbum. Auxiliado por Silvera no refrão e no beat, Tifu fala sobre desejos, formas para alcançar aquilo que quer, com rimas capazes de pintar na mente as cenas que ele descreve. A batida é uma quebra no monopólio de batidões pesados no disco; ao contrário, recorre a um baixo suingado e poderoso, a um clima mais intimista e orgânico, que, junto ao backing vocal de Silvera e o refrão suave, transporte qualquer ouvinte para um salão esfumaçado, pequeno e não muito cheio, com nosso emcee dominando o palco e falando diretamente para seus espectadores.

Outro ponto forte que Tifu demonstra no disco é seu carisma. O cara não é uma virtuose em termos líricos - embora "Sei Quem Soul" seja espetacular e digna de transcrição no blog -, mas o flow poderia ser reconhecido nas primeiras palavras. E isso conta bastante para transformar faixas que seriam comuns em algo a mais. Quando utilizado no seu potencial total, esse carisma transforma boas faixas em hits, como é o caso de "Pra Cascá". Cá entre nós, além do batidão de DJ Nato, como resistir à empolgação e vibração de Tifu em cada palavra que ele pronuncia? Parte desta característica pode ser vista também em "Verdadeiro Malandro", um samba no meio de um álbum de rap que não parece nem um pouco deslocado - ao contrário, parece complementar o estilo do emcee-, graças a Tifu.

E, para complementar um cara cheio de energia, nada melhor que beats tão vibrantes quanto. A tarefa cabe, na esmagadora maioria das vezes, ao DJ Nato_Pk. O resultado são batidões permeando todo o álbum. Não é exagero: o vigor de caixas e bumbos não cai em momento algum, mesmo quando outros produtores aparecem. Por outro lado, os samples utilizados vão sendo trocados religiosamente. É como um mixer: de um lado a batida incessante, do outro o DJ só trocando os discos, cortando e colocando seus samples. Assim, encontramos metais funkeados, violão brasileiro, piano jazzy, strings diretamente do soul norte-americano, samples vocais acelerados. Tudo picotado nos mínimos detalhes para criar camadas ora tranquilas, ora agitadas. Além das faixas já citadas, destaque para a elegante "De Amor", o sample perfeitamente manipulado de "Flores" e "Sei Quem Soul", cortesia de Sagat, mas um beat ideal para abrir o disco, com samples esparsos, scratches e uma batida quebrada irresistível.

Em meio a gangstas de banda larga e ditos undergrounds, é difícil achar caras novas que apareçam já com um trabalho consistente, sem perder tempo com Myspaces da vida e, o mais importante, com sinceridade e estilo próprio. Arnaldo Tifu é um destes caras. Suas rimas são simples, mas passam com clareza suas ideias e sua seleção de beats é acima da média. Talvez mais importante que isso tudo é seu carisma, que pode catapultá-lo a um outro nível. Precisamos de mais figuras interessantes na cena, não apenas de bons rappers e produtores.

Arnaldo Tifu - A Rima Não Para
01 - Sei quem soul
02 - Tô em casa
03 - Flores
04 - Quero
05 - O coração domina
06 - Celebração
07 - Pra cascá
08 - Filosofia Cartola (Zica memo)
09 - Salve
10 - De amor
11 - O poder
12 - Rima na cara
13 - Meu Rap é assim
14 - Leva
15 - Trá-lá-lá
16 - Fofoqueiro
17 - Verdadeiro malandro
18 - Arma de resistência
19 - Rap da mamãe

Performance ao vivo de "Pra Cascá":

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Leia, estude, construa seu poder interior

A frase que dá título a este post é uma das mais marcantes do Guru, na época em que ele ainda era relevante e fazia parte do Gangstarr, junto com DJ Premier, na faixa "JFK 2 LAX", do álbum "Moment of Truth". E, revirando meu arquivo mental de frases do rap, não encontrei nenhuma melhor para batizar o texto a seguir. Nem só de música a gente vive, certo? Que tal falarmos um pouco sobre livros? E, para não desviar da proposta do blog, que tal livros sobre Hip-Hop?

Infelizmente, conheço pouquíssimos trabalhos em português sobre a cultura. Seja por falta de busca mesmo, seja por procurar evitar aqueles que tratam o Hip-Hop sob um viés antropológico, como um pequeno monstrinho diferente a ser observado. Meu interesse sempre repousou na música e na poesia da cultura. Portanto, apresento aqui cinco livros que já li sobre este gênero que faz a gente balançar a cabeça no metrô como doidos: "The Wu-Tang Manual", escrito pelo RZA, "Can't Stop, Won't Stop", do Jeff Chang, "Book of Rhymes: The Poetics of Hip-Hop", do Adam Bradley, "Check The Technique: Liner Notes for Hip-Hop Junkies", do Brian Coleman, e "And It Don't Stop: The Best American Hip-Hop Journalism of the Last 25 Years", da Raquel Cepeda. Infelizmente, todos só estão disponíveis em inglês, embora haja uma possibilidade fortíssima do livro do Jeff Chang ter uma edição em português.

Pois bem, falemos de cada um. É bom frisar que cada um puxa para um prisma diferente do Hip-Hop. "The Wu-Tang Manual", por exemplo, é um verdadeiro mergulho profundo na história do maior grupo de rap de todos os tempos. Escrito pelo cara que planejou toda a história do Wu e controlou com mãos de ferro o destino de todo mundo nos primeiros cinco anos de existência do coletivo, o livro explica todas as influências da banca, traz uma biografia de cada um dos membros, interpretações de algumas das letras mais famosas e, por fim, mostra um pouco das técnicas de produção do RZA (!) e de rima dos outros caras. Ali estão tratados sobre os Five Percenters (incluindo o alfabeto dos caras), explicações sobre como temas aparentemente distantes do rap como o xadrez e as artes marciais praticamente moldaram a filosofia do grupo. Depois de ler este manual, já é possível se considerar um doutor em Wu-Tang Clan. Tem até um dicionário com as gírias dos caras.

Metonimicamente saindo da parte e indo para o todo, "Can't Stop, Won't Stop" é, simplesmente, a história do Hip-Hop, desde quando ele era apenas um fenômeno sem nome por dentro de gangues latinas e negras dos anos 70, à espera para ser libertado em todo o seu potencial, até a primeira década do novo milênio. É talvez o mais difícil de ler para quem não é tão familiarizado com o inglês, mas, por outro lado, é uma ótima motivação para aprendermos um pouco a língua. Eu tive de ler com um dicionário a postos, mas não me arrependi. A obra, aliás, não fala só sobre rap, pelo contrário; dá bastante ênfase ao grafitti e ao break, principalmente no início. A invasão dos grafiteiros em galerias de arte nos anos 80 e a visita de moleques abusados do Brooklyn à Europa para mostrar seus novos passos estão entre os destaques.

E, se o rap é ritmo e poesia, Adam Bradley exemplifica bem o segundo componente da fórmula em "Book of Rhymes: The Poetics of Hip-Hop". Aqui, ele mostra todo o potencial poético do rap, um representante urbano e moderno que pode ser considerado uma nova escola entre os diversos estilos de poesia que a gente estuda no colégio. O Bradley, aliás, leciona língua inglesa, e fala com bastante propriedade, principalmente quando compara os recursos linguísticos utilizados pelos emcees e que foram explorados há alguns séculos por grandes nomes da literatura norte-americana. É um livro até bastante técnico, mas, na minha opinião, essencial para qualquer aspirante a emcee. Mostra que rap não é só rimar "jão" com "não"; é algo que, se bem explorado, pode ter um potencial muito maior e bem mais potente. E não se concentra só na escrita; tem capítulos sobre flow e ritmo bastante úteis para novos Tupacs, Biggies, KRS-Ones e Manos Browns.

Falando em nomes clássicos do rap, "Check The Technique: Liner Notes for Hip-Hop Junkies" é um prato cheio. Aqui, o Brian Coleman conversa com os envolvidos na feitura de 36 dos mais importantes discos de rap da história, escrevendo, basicamente, um making of, faixa a faixa, de todos eles. Além disso, cada capítulo, ou cada álbum, é precedido por um rápido histórico do grupo em questão e da época que eles fizeram o trabalho. Sabia que Trugoy e Posdnuous não gostavam do sucesso "Me, Myself and I" e o primeiro verso do último foi escrito pelo primeiro? Está no livro. Q-Tip e Phife falando sobre "The Low End Theory"? Bem neste livro, amigos.

Por fim, e um pouco mais específico, uma joia que eu nem sabia que existia. A Raquel Cepeda compilou os melhores artigos dos últimos 25 anos da mídia norte-americana do Hip-Hop em "And It Don't Stop: The Best American Hip-Hop Journalism of the Last 25 Years". Vocês imaginam o quão importante isto é para alguém que, bem ou mal, tenta desenvolver um trabalho parecido no Brasil? Além disso, é uma aula de jornalismo. Divididos em três décadas, os artigos trazem uma mulher fã de rap tentando entender por que ela gosta tanto do machismo de um Ice Cube no auge, um perfil do Biggie de um jornalista que esteve com ele até um dia antes da morte do rapper, uma reportagem sobre as groupies do rap, uma tensa entrevista entre Chuck D e um jornalista que criticou seu trabalho etc etc etc.

E vocês, têm alguma sugestão de livros sobre Hip-Hop? Estou aberto a sugestões para aumentar esta biblioteca, principalmente de trabalhos nacionais.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Boom Bap Jams

O novo volume do Boom Bap Jams deveria ter saído no final do ano, mas com toda a correria da época passou batido. Porém, antes tarde do que nunca, né? Só um adendo: embora estejam entre as que mais tenho ouvido, não vou colocar nenhuma faixa do disco do yU, porque resenhei ele nesta semana e já falei sobre elas.

* Reflection Eternal - Just Begun feat. Jay Electronica, J. Cole & Mos Def
Retirada da mixtape "The RE:Union", um prelúdio para o novo álbum do Reflection Eternal, esta faixa traz dois dos caras mais falados atualmente - Jay Electronica e J. Cole - e um velho conhecido do Talib Kweli: Mos Def. Guiada por um saxofone viciante, que é o destaque da música, a posse-cut traz a antiga dupla BlackStar quebrando tudo e mostrando que ainda tem algo a ensinar para estes dois novatos. Jay Electronica parece estar rimando ainda na "Exhibit C", com o mesmo tipo de rimas e o mesmo flow - o que pode ser bom ou ruim, depende do ponto de vista -, enquanto J. Cole aproveita que a faixa não tem lá um assunto definido para ir para a sua zona de conforto - mulheres e armas - sem muita originalidade.

* X.O. - 1.1.10
X.O. foi o último membro do Diamond District a lançar seu trabalho solo. E ele o fez no primeiro dia do ano, com o apropriado título de "1.1.10". A faixa homônima abre o álbum, com produção de Oddisee, e é a primeira pancada de 2010. Com um piano tranquilo inversamente proporcional ao vigor da bateria, o beat tem a imaculada capacidade de fazer você balançar a cabeça durante quase quatro minutos, e nem lembrar de sequer uma palavra do que o X.O. disse.

* Apollo Brown - Intro (Work)
Eu li sobre este produtor em algum site gringo e o cara era super elogiado. Baixei o disco de instrumentais dele, e não me arrependi logo na primeira faixa. Misturando excertos de rádio, uma espécie de música folk e um violino que logo domina todo o beat, Apollo inicia sua viagem por batidas e samples da melhor forma possível. Ele ainda brinca com samples vocais no meio da faixa, mas o melhor de tudo é, sem dúvida, a bateria tão frenética quanto pesada.

* Arnaldo Tifu - Sei Quem Soul
Na moral, este Boom Bap Jams meio que inconsciente tem em sua maioria faixas de abertura dos discos que estou ouvindo. O "A rima não para", do emcee paulista Arnaldo Tifu, tá em rotação aqui em casa desde que chegou, há uns três dias. E a primeira faixa, "Sei quem soul" é uma das mais fortes de todo o trabalho. As rimas do Tifu são impactantes e, ao mesmo tempo, pintam quase que um retrato do rapper, uma espécie de carta de intenções, preparando os ouvintes para o que vai vir. E garanto que a voz ao fundo falando "Tifu" vai ficar na sua cabeça.

* Funkero - O Capital
Soube desta faixa do Funkero ao fazer a entrevista com ele, e logo gostei do conceito. Aqui, o emcee carioca personifica o dinheiro e faz com que o dono do mundo fale diretamente com o ouvinte. O efeito é devastador, até porque ele não só se explica, mas até tira uma onda com nós, pobres mortais otários. A letra inteira é espetacular, mas, musicalmente, o ponto alto é o refrão cheio de energia. "O mundo entrou em colapso enquanto me adoraram".

* Tres Leches (Triboro Trilogy) - Big Pun feat. Prodigy & Inspectah Deck
Sabiam que no clássico "Capital Punishment", do Big Pun, o cabeça do Wu-Tang RZA produziu uma faixa? E o que esperar do Abbott por trás dos beats na melhor época da carreira dele? Pancada, é claro. E "Tres Leches" é exatamente assim. Inspectah Deck, como sempre, rouba a cena com um verso surreal - ele também estava na melhor fase da carreira, mas Big Pun estava simplesmente imparável e não perderia o reinado no seu próprio disco. No mais, um show de lirismo e uma aula de emceein'. Destaque também para as apresentações com colagens de cada emcee antes dele rimar.

* Arnaldo Tifu - Rima na cara feat. Max Musicamente, Preto R e Dantas
Tifu de novo. Se "Tres Leches" foi uma aula norte-americana de lirismo, a posse-cut "Rima na cara" é uma mostra de que o rap brasileiro pode, sim, aliar mensagem a uma escrita imponente. O curioso é que o próprio Tifu fica meio ofuscado perante os trava-línguas de Max Musicamente e a levada velocíssima de Preto R. Mas é Dantas, sem tantos malabarismos líricos e com um flow mais tradicional, que responde pelas melhores linhas da faixa: "Fazendo barulho com meu mano Tifu / o resto que se dane, vão tudo sifu".

* Diamond District - Streets Won't Let Me Chill
O pessoal do Diamond District tem marcado presença no meu MP3 nos últimos dias, sem dúvida. "Streets Won't Let Me Chill" é, para mim, a melhor faixa do disco do grupo, o "In The Ruff". Tudo casa perfeitamente: o sample vocal gritando o título da faixa, a batida imunda, o loop simples e muito efetivo. Engraçado que muita gente acha que para um beat ser bom ele precisa ser cheio de detalhes, o que é um engano. Alguns dos maiores clássicos do rap foram feitos a partir de um loop. Como se quisesse emular a época de ouro até neste modus operandi, Oddisee acertou mais uma vez com esta faixa, que é quase cinematográfica e cairia muito bem num clipe. As rimas dos três emcees conjuram a tentativa deles sobreviverem nas ruas, mas é quando yU fala da família que o potencial da música chega às alturas. "Tudo o que eu tenho é minha filha e uma missão, entende?".


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

yU: Before Taxes

Ano: 2009
Gravadora: independente
Produtores: yU (faixas 2, 4, 6, 8, 9, 11, 12, 14 e 15), Slimkat78 (1, 7, 8, 11, 13 e 16), Kev Brown (3), Bilal Salaam (5) e Oddisee (10).
Participações: Bilal Salaam (faixa 5), EyeQ (6 e 14), Isabella Banneker (8), ERK (12), Omun (14), Grap Luva (16), Finale (16) e OP Swamp 81 (16).

No último ano, um grupo vindo da capital norte-americana Washington foi responsável por um dos melhores lançamentos da época. O Diamond District lançou "In The Ruff" com a proposta de fazer do disco um documento de uma golden age que não existiu na cena da cidade no mesmo momento que nas mecas do Hip-Hop dos EUA. Em suas fileiras, além do produtor/emcee Oddisee, o grupo contava com dois veteranos desta cena pouco conhecida: XO e yU. Parecem dois cromossomos, mas a verdade é que o segundo lançou um disco solo tão bom quanto o trabalho do DD aproveitando o buzz do trio.

O estratagema para lançar "Before Taxes" foi o mesmo de "In The Ruff" e é uma potencial ameaça para as grandes gravadoras ávidas por ganhar dinheiro às custas dos artistas. yU lançou o álbum de graça na Internet e teve bastante sucesso. Graças a este êxito, o disco chega às lojas no começo de 2010. E, se o plano de marketing foi parecido, o estilo do trabalho segue o mesmo apresentado pelo já clássico do Hip-Hop de Washington.

Portanto, espere batidas pesadas e simples, sem grandes firulas. A proposta aqui é yU rimando como se não houvesse amanhã em beats produzidos por ele mesmo ou pelo parceiro Slimkat78. A sonoridade, como era de se esperar, remete bastante ao rap nova-iorquino dos primeiros anos da década de 1990: caixas graves, baterias retas e samples esparsos, mas cativantes. Some a isso alguns momentos mais experimentais e você terá em mãos um álbum que consegue balancear bem em sua fórmula o desejo de se manter fiel às raízes sem ser completamente pragmático.

Algo curioso em "Before Taxes" é que poucos álbuns recentemente contaram com uma sequência inicial de faixas tão boas. Logo depois da introdução, de alto nível, "Beats & Rhymes from March 25th" surge com a tal bateria simples e os samples se revezando ao fundo, enquanto yU rima sem refrões e outras distrações. Logo em seguida, duas faixas altamente cativantes. "Almost Time" segue a fórmula de batida reta e saca da manga um naipe de metais que acompanha um refrão que não sairá da sua cabeça tão cedo. O mesmo efeito pode ser percebido na suingada "Thought About It": a guitarra sampleada vai te guiar do começo ao fim, entre caixas pesadas e as rimas de yU, que ainda arranja tempo para uma cantoria à la Ol'Dirty Bastard muito bem-vinda.

O ritmo diminui com "BreakDown", com participação de Bilal no refrão, numa faixa mais sossegada e soul do que a última integrante deste combo de grande música: "Corners". O nome já sugere um pedaço de Hip-Hop hardcore, com sabor de 1996 e pronto para fazer todo mundo nas esquinas balançar a cabeça. E a proposta não fica só no nome; a batida parece saída do catálogo de um Pete Rock da vida, com os samples jazzys dominando o espectro musical e só saindo de cena para os metais do refrão.

Depois desta sequência, o álbum cai num ritmo menos surreal, mas ainda é possível extrair boas canções, como "Fine", cuja palavra que dá nome à faixa é repetida à exaustão num exercício muito parecido com a bem-humorada "Buy Me Lunchin", da dupla C.R.A.C. Knuckles. "Lunchin"
segue a fórmula de batida pesada, algo que só é quebrado na última faixa, "Brainwash". Numa sonoridade mais fácil de ser encontrada em trabalhos dos LabTechs de Detroit, a música é uma posse-cut, com nomes como Finale - coincidência ou não, de Detroit - e Grap Luva.

E, se nas produções yU mostra grande talento, no microfone ele também não faz feio. Como vocês vão poder notar nos vídeos abaixo, o cara nem parece um rapper, considerando o estereótipo do gênero. De óculos, blusão e mais parecido com você do que com um super bandido comedor de vadias, o cara traz este estilo também para sua escrita. Embora em "In The Ruff", ele tenha abusado de versos politizados, aqui ele também dá vazão a uma simples volta às origens em "Corners", ou a faixas mais calcadas em conceitos ou storytelling. Ou os dois juntos, como em "Thought About It", na qual ele conta casos de alguns conhecidos - e dele mesmo - que "pensaram" naquilo que estavam fazendo, desde o amigo que fazia de tudo para ter sucesso na música até uma felizmente curta incursão do próprio yU no mundo do crime. E olha que eu nem mencionei uma técnica apurada nas rimas e um flow intricadíssimo.

Pois bem, depois de quase um ano injustamente esquecido por aqui, "Before Taxes" tem seu espaço. Para aqueles que adoraram "In The Ruff", este disco pode ser tão bom ou até melhor. De fato, é até mais consistente, embora menos variado, do que o trabalho do Diamond District. Em comum, além da sonoridade, o próprio yU, um dos caras que eu sugiro não perder os olhos de vista em 2010. Há notícias de que um novo álbum do trio está no forno, e nunca será demais ouvir o que yU e seus amigos têm a dizer.

yU - Before Taxes
1. Before Taxes Intro
2. Beats&Rhymes From March 25 (Kick Styles)
3. Almost Time
4. Thought About It
5. BreakDown
6. Corners
7. The Up & Up
8. Close
9. Fine
10. Lunchin’
11. Native
12. Memory
13. The Rock
14. InTheReign
15. MmHmm (instrumental)
16. Brainwash

Download

Performance ao vivo de "Corners":


Entrevista com yU e Oddisee:

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Funkero: Poesia Marginal

Este blogueiro tem uma teoria pessoal de que o rap norte-americano tem como equivalente brasileiro o funk carioca. Os preconceitos das pessoas "de fora" são os mesmos: "é música de pobre, não tem conteúdo, só fala de sexo e violência". O efeito, entretanto, para os tais "pobres" também é iguais, e positivo: uma representatividade sem paralelos nas camadas mais baixas. Se um moleque do Brooklyn sonha em ser DJ ou um emcee, muitas crianças dos morros cariocas crescem tendo no funk uma manifestação artística viável para ele melhorar de vida. Um destes veio de São Gonçalo, cidade próxima do Rio, mas não se limitou ao funk: misturou rap, ragga e rock no seu caldeirão de influências. Mas manteve a essência no nome: Funkero.

No seu primeiro trabalho, a mixtape "Poesia Marginal", a cria do Jardim Catarina, escoltada pela produção de Iky Castilho, juntou músicas antigas e novas para servir como introdução ao público de um artista com propostas diferentes dentro do rap. Os mais puristas hip-hoppers provavelmente vão torcer o rosto para os batidões funks que entremeam o trabalho, mas ainda assim serão conquistados pelas faixas mais tradicionais do rapper que é fã de funk.

A entrevista publicada ontem no blog pode dar uma boa ideia do Funkero enquanto artista: viciado em livros, com técnica apurada e uma tendência a não enfeitar muito nos versos, apesar de ter condições de pinçar rimas mais rebuscadas. Entretanto, o objetivo aqui é outro: ir direto ao ponto, de forma crua e impactante. A comparação com um MV Bill no início da carreira seria coerente se o emcee de São Gonçalo se restringisse apenas ao rap e às temáticas do gênero.

Não é o caso, entretanto. E este talvez seja um dos pontos cruciais na proposta de misturar funk ao rap. Mas isso não acontece sempre. Em algumas faixas, temáticas funk são mantidas em batidas funk, como é o caso de "Piloto de Fuga" ou "Som do Tambozão", e teriam sido uma ótima chance de se testar o crossover proposto. Por outro lado, "Relíquia" usa samples clássicos do gênero carioca para resgatar fãs dos primórdios funkeiros, numa letra falando sobre esta época, com citações a MC's como Cidinho e Doca e Mr. Catra, linhas de frente do tamborzão, mas com igual capacidade de trazer mensagens fortes e reflexivas para as massas - exatamente como "Relíquia" faz, indiretamente. Aliás, este é o grande ponto do funk na mix: permite a Funkero pintar um retrato extremamente fiel do lado sombrio do Rio de Janeiro, sem se ater apenas aos temas engessados do rap.

Se existe a possibilidade de alguém não gostar dos funks - o que não é o caso deste que vos escreve, como alguém nascido e criado na Baixada Fluminense -, os raps são impecáveis e implacáveis. E os temas são diversos. Desde o hino cafajeste de "O que que essa moça tem?" até o storytelling bandido de "Geração $", na qual Iky, Max B.O. e Funkero narram um assalto a pessoas de classe média, o emcee ainda tem tempo para rimas mais políticas como "Tempo de Guerrilha" e uma crônica de um lado da Cidade Maravilhosa não tão exaltado pelo governo em "Selva Urbana", com uma ótima aparição de Pai Lua e presença garantida em qualquer lista de dez melhores faixas do rap nacional em 2009.

No fim das contas, "Poesia Marginal" é simplesmente o retrato de um cara com propostas artísticas ambiciosas, e que tem na mixtape o início deste caminho árduo para alcançar a maturidade deste som proposto. Com rimas verdadeiras e cruas e uma produção diversificada, o registro é apenas o ponto de partida para Funkero. Os próximos capítulos desta luta louvável para unir funk e rap num gênero com verdadeiro apelo para o público-alvo que tanto interessa aos dois vão mostrar se o sonho é possível.

Funkero - Poesia Marginal
01. Intro Poesia Marginal
02. Clima Quente, Sangue Frio
03. Vários Role
04. Relíquia
05. Ao Som Do Tamborzão
06. Interlude Da Gostosa Que Passa (part. Iky & Aori)
07. O Q Q Essa Moça Tem
08. Piloto De Fuga
09. Interlude Poesia Marginal
10. Nada Bem (part. Gutierrez)
11. Selva Urbana (part. Pai Lua)
12. Geração $ (part. Max B.O., Iky & V100T)
13. Aos Que Se Foram
14. Levando A Vida No Talento
15. Em Toda Comunidade
16. Interlude Lampião
17. Banditismo
18. Sangue Guerreiro
19. Fora Da Lei
20. Tempo De Guerrilha
21. Fim

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Vídeo de "Selva Urbana":