sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Illa J: Yancey Boys

Geralmente, irmãos seguem duas linhas dicotômicas: ou são muito parecidos, ou não têm nada a ver um com o outro. Mais forte do que isso, porém, há uma ligação entre os dois quase mística, algo diferente de tudo. Irmãos são produtos, na maioria dos casos, do mesmo casal, vivem juntos durante quase 20 anos e são a família um do outro na fase adulta e na terceira idade. Irmãos brigam muito, é claro, mas não vivem sem o outro. No caso de Illa J e J Dilla, acredito que a dicotomia do início do parágrafo é clara: eles são muito parecidos, num ponto crucial: vivem para o rap. Dilla, inclusive, morreu pelo rap. Mas seu irmão mais novo está aí para carregar a tocha de seu legado. A primeira providência foi o lançamento de Yancey Boys, com todos os beats provenientes diretamente de algum arquivo de beats empoeirado de Dilla.

Illa J não é uma sumidade como emcee - seu irmão também não o era - mas acerta em cheio ao focar seu disco nos petardos produzidos por Dilla, adaptando-se a eles. Em sua maioria, os beats usados aqui são simples, minimalistas, com samples esparsos, dando um clima meio "aéreo" ao álbum. O primeiro acerto de Illa é manter uma coerência na escolha dos instrumentais, sem criar uma salada de estilos desnecessária, conseguindo assim coesão, além de dar o clima espiritual necessário para um encontro entre irmãos dessa natureza. Faixas como Everytime e Timeless são um bom exemplo desta espiritualidade nos beats: a primeira contém os tais samples espaçados, enquanto a segunda é guiada por um belo piano loopado.

Além de rimar, Illa J também mostra suas habilidades cantando. Na supracitada Timeless, ele mostra bem esse lado, e se sai bem. Nas rimas, ele também mostra ter talento, variando bastante de temas, sem deixar a saudade do irmão afetar o disco. Assim, ele consegue escapar da tendência natural de criar um tributo a Dilla, ou um álbum baseado apenas na figura dele. O que se vê é um emcee jovem, mesclando conceitos interessantes como os signos zodiacais nas caixas pesadas de Air Signs a temas mais tradicionais, como os relacionamentos na relax Sounds Like Love ou os percalços de um iniciante no rap em Strugglin. Outros destaques são o loop jazzy preguiçoso - num bom sentido - de All Good e a emocionante Alien Family, na qual Frank Nitty, conhecido da família Yancey, fala um pouco sobre os irmãos sobre mais um beat relax.

No fim, Yancey Boys tem grande êxito, porque consegue mostrar bem os dois irmãos. Os beats de J-Dilla neste trabalho mostram por que ele é um dos maiores beatmakers de todos os tempos, enquanto o caçula Illa J mostra grande potencial e uma sensibilidade incrível ao lidar com o material póstumo do irmão. Nada de grandes dramas ou músicas lamentando a morte de Dilla: a homenagem aqui é da forma que ele com certeza preferiria: rimas, beats e paixão, muita paixão pelo rap.

Illa J - Yancey Boys
01. Timeless
02. We Here
03. R U Listenin’? (feat. Guilty Simpson)
04. Alien Family (By Frank Nitty)
05. Strugglin’
06. Showtime
07. Swagger
08. Mr. Shakes (a.k.a. Affion Crockett) (Skit)
09. DFTF (feat. Affion Crockett)
10. All Good
11. Souds Like Love (feat. Debi Nova)
12. Everytime
13. Illasoul
14. Air Signs

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terça-feira, 28 de outubro de 2008

Single: Jedi Mind Tricks - Godflesh

Com data de lançamento marcada para 11 de novembro, o álbum History of Violence, do Jedi Mind Tricks, terá como segundo single Godflesh, uma faixa com participação de King Magnetic, além dos vocais de Vinnie Paz e Jus Allah.

Ao contrário do primeiro single, Monolith, esta nova faixa segue mais o estilo do grupo, se levarmos em consideração o tom agressivo do beat. Como era de se esperar, Stoupe faz outro belíssimo trabalho, com mais um instrumental cuidadosamente programado, com vários samples se intercalando e uma bateria redonda. Tem ainda aquele tom meio latino, meio música clássica, já presente nos outros trabalhos dele. No microfone, King Magnetic rouba o show com um verso de abertura estonteante. Vinnie Paz vem correto, mas Jus Allah meio que destoa, com um flow meio bagunçado, que não casou bem com a faixa. Outro destaque da faixa é o refrão - que eu ainda não descobri quem canta -, bastante simples, mas ainda assim marcante.

Enfim, outro single bastante consistente. History of Violence promete bastante.

PS: A imagem que eu postei é a capa inicial do disco. Depois eles mudaram para aquela que vocês podem ver no post do primeiro single. Eu achei as duas muito bonitas, não consigo escolher a melhor.

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Atualização: Saiu também a tracklist do álbum, que o Campagnoli, visitante do blog, fez o favor de passar. Aqui vai:

1. Intro
2. Deathbed Doctrine
3. Deadly Melody (Feat. Block McCloud and Demoz)
4. Monolith
5. Those With No Eyes (interlude)
6. Trail Of Lies
7. Heavy Artillery
8. Séance Of Shamans (Feat. Outerspace and Doap Nixon)
9. Geometry In Static (interlude)
10. Godflesh (Feat. King Magnetic and Block McCloud)
11. Terror (Feat. Demoz)
12. Butcher Knife Bloodbath
13. The Sixth Gate Shines No More (interlude)
14. Death Messiah

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Q-Tip: The Renaissance

Principal artista de um dos maiores grupos de rap da história. Responsável pela produção de uma faixa em Illmatic. Um dos pioneiros na mistura entre jazz e rap. Fundador do coletivo Soulquarians. Q-Tip realmente tem um currículo que o dá credibilidade suficiente para tentar promover o renascimento do rap. É isso que ele tenta em The Renaissance, seu novo disco solo, após anos sem lançar nada.

Mas não se empolgue: o renascimento afirmado por Tip não diz respeito a uma nova direção na música rap, e sim a um retorno às origens. O álbum é permeado por influências do funk e do R&B, mais até do que o típico jazz que marcou a época do A Tribe Called Quest. Gettin Up, o primeiro single e que surpreendentemente estourou inclusive no mainstream americano, é um bom exemplo: produzida pelo falecido J Dilla, a faixa é metade relax, metade dançante, graças ao flow perfeito de Tip e a um loop bastante consistente.

Outra aposta do The Abstract está nos refrões. Em quatro músicas, cantores talentosos marcam presença, acrescentando bastante. Em We Fight/Love, Raphael Saadiq traz de volta o clima dos anos 60, enquanto Tip conta a história de um casal separado pela guerra do Iraque. Já a revelação Amanda Diva aparece na epítome funky do disco, Manwomanboogie, uma faixa totalmente dominada pela poderosa linha de baixo. No fim do disco, Norah Jones aparece para dar o pequeno tempero jazzy em Life Is Better, uma ode a alguns dos nomes mais famosos do rap. Para completar, D'Angelo entrega um refrão viciante em Believe, sobre uma bateria forte e uma combinação letal entre guitarras incisivas e samples esparsos, enquanto Tip explora o tema sob várias perspectivas.

O resultado final de The Renaissance acaba alcançando as expectativas. Ao contrário do último disco solo lançado por Q-Tip - Amplified, mais dançante - , este novo trabalho é mais focado, mais emocionante, mostrando uma clara maturação, tanto nos beats quanto na própria voz do emcee. No final, Tip sai com uma voz menos enjoativa, um disco consistente e de grande valor, além de um hit. Nada mal.

Q-Tip - The Renaissance
01. Johnny is Dead
02. Won’t Trade
03. Gettin’ Up
04. Offishal
05. You
06. Fight/Love (featuring Raphael Saadiq)
07. ManWomanBoogie (featuring Amanda Diva)
08. Move
09. Dance on Glass
10. Life is Betta (featuring Norah Jones)
11. Believe (featuring D’Angelo)
12. Shaka

Vídeo da faixa Gettin' Up:


Vídeo da faixa Move:

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Black Milk: Tronic

Depois de lançar um álbum em parceria com o amigo Fat Ray no começo do ano e produzir um dos melhores discos do ano para Elzhi, finalmente chegou a hora de Black Milk brilhar sozinho. Tronic, seu segundo álbum solo, mostra a versatilidade do produtor de Detroit, que, além de, obviamente, produzir os instrumentais, ainda encontra tempo para cuspir algumas rimas. Segundo Milk, este disco mostra uma evolução no seu trabalho, com maior uso de instrumentos e busca por um som mais futurista.

Na verdade, o que podemos constatar em Tronic é um misto entre evolução e respeito ao próprio som. Sem dúvida, existem sons com toques mais futuristas, mas ainda estão lá as caixas fortes e bumbos marcantes que caracterizam os beats de Milk. Além disso, ele explora uma infinitude de samples, além da já citada instrumentação. Outro ponto favorável é a consistência do álbum: tente achar uma única batida ruim e você não conseguirá. Enfim, a idéia de trazer um elemento futurista conseguiu somar ainda mais ao catálogo de Milk, que pôde criar sons mais experimentais com isso. A viajante Hell Yeah, cheia de barulhos eletrônicos e com uma bateria quebrada, é um dos melhores resultados desta experimentação, além das guitarras progressivas de Overdose, a suingada Hold It Down e, por fim, The Matrix, que poderia até tocar em alguma rádio se o refrão de scratches de Premier fosse substituído por algum vocal meloso, graças ao loop futurista contagiante.

Na parte lírica do álbum, Milk prova ser tão talentoso quanto no beatmaking. Ele foca principalmente em battle raps e temas mais cotidianos, embora sua força esteja mesmo no flow tranqüilo e sem esforço. Para ajudá-lo nas rimas, ele tem ainda a ajuda de caras como Sean Price, Pharoahe Monch e Royce Da 5'9. Este último, por sinal, prova estar em grande fase, ao roubar o show - assim como fez com Elzhi - em Losing Out, um beat mais tradicional, com um sample vocal muito bem sacado que se integra às rimas. Outros destaques do álbum são a ode aos bateristas, em Give The Drummer Sum, que, não por acaso, tem uma sessão de bateria espetacular, além da faixa de abertura, Long Story Short, com strings meio futuristas e, novamente, uma bateria impecável, pulsante, acelerada, uma espécie de upgrade do clássico break Synthetic Substitution. Nesta faixa, Milk dá o segredo dos seus beats: "Ouvindo Pete Rock, Premo e Dilla direto / tentando deixar meu som tão bom quanto o deles".

A influência das três lendas acaba tornando-se evidente no disco. De Pete Rock, a atenção especial às caixas, além do expediente de usar pequenas batidas para introduzir/concluir alguma faixa; de Dilla, a elegância nos beats e, de Premier, além da experimentação, a presença do próprio fazendo scratches em The Matrix. É assim, combinando velha escola com nova escola, experimentando, buscando novos sons, que o moleque lança mais um trabalho de grande qualidade e consolida-se definitivamente no rol dos grandes beatmakers da cena atual.

Black Milk - Tronic
1. Long Story Short2. Bounce
3. Give the Drummer Sum
4. Without U ft. Colin Munroe
5. Hold it Down
6. Losing Out ft. Royce 5'9
7. Hell Yeah
8. Overdose
9. Reppin for U ft. AB
10. The Matrix ft. Pharoahe Monch, Sean Price, Dj Premier
11. Try
12. Tronic Summer
13. Bond 4 Life (Music) ft. Melanie Rutherford
14. Elec (Outro)

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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Now On: Tomorrow Already

Parem de ficar olhando para a capa do álbum e prestem atenção no texto! Now On é um grupo de Detroit, membro da crew Athletic Mic League e formado pelos emcees IX Lives e Jackson Perry, além do DJ Haircut, também membro do coletivo de produtores Lab Techs, responsáveis não só pela produção deste álbum dos caras, o Tomorrow Already, como também dos dois discos do Buff1 já postados aqui. Ou seja, se vocês gostaram dos álbuns do Buff1, provavelmente vão apreciar este trabalho do Now On.

Como o time de produtores é o mesmo, a sonoridade é bem parecida, mas o Now On tem algumas particularidades, como o gosto por refrões cantados e temas mais futuristas. Assim como o parceiro Buff1, os caras conseguiram criar um som suingado, eletrônico, mas sem apelar para clichês comerciais, além de prezarem pelo conteúdo nas letras. Por outro lado, ao mesmo tempo em que criam um som dançante, os Lab Techs sabem dar um quê de downtempo e boom-bap nos beats, o que os torna equilibrados e coesos. Em suma, o álbum conta com instrumentais com alto potencial radiofônico, mas ainda assim sem perder a essência - um disco ideal para o mainstream, mas sendo lançado no underground.

Outro ponto a ser ressaltado é o entrosamento dos dois emcees, que mostram bom entendimento durante o disco inteiro. Suas vozes casam perfeitamente com o clima dos beats, e eles parecem bastante confortáveis trocando versos. A única "reclamação" é o excesso de vocais cantados durante o projeto, alguns refrões com scratches ou explorando o entrosamento de IX Lives e Perry seriam bem-vindos. No fim das contas, os destaques ficam para The Answer, guiada por um naipe de metais e um dos melhores refrões do disco; This Way, que tem um loop de teclado ininterrupto, além de um quê eletrônico; The A, com participação espetacular de Buff1 e um bumbo certeiro; e Touch, com Aloe Blacc, num clima mais nostálgico, meio futurista, um beat bem complexo.

Se seguir lançando álbuns dessa qualidade, é bem provável que a Athletic Mic League torne-se ainda mais proeminente no cenário underground. Apostando num som diferente de todos os outros encontrados nos confins do rap, caras como Now On, Buff1 e os Lab Techs mostram que é possível criar um som grooveado, sem se render às fórmulas do mainstream. Para quem busca um rap mais palatável, mais suingado, Tomorrow Already é a pedida ideal. Mas tudo bem, eu sei que vocês não leram nada do que escrevi. Ainda estão olhando a capa do disco...

Now On - Tomorrow Already
1.Here
2.The Answer
3.All You Ever Knew
4.This Way
5.Unwind
6.The A (feat. Buff1)
7.The Willows
8.Tomorrow Already
9.Marbles
10.Catapults
11.Touch (feat. Aloe Blacc)
12.Reprise
13.The Return

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Vídeo da faixa The Willows:


PS: Querem ver as outras duas capas do disco? Então cliquem aqui e aqui

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Especial 1 ano de Boom Bap: The Notorious B.I.G.

Há exato um ano atrás, eu começava este humilde blog com um post de apresentação e prometendo a resenha do Illmatic. O começo foi meio complicado, poucas visitas, muitas parcerias, milhares de spams no Orkut para divulgar o blog, etc. A proposta do blog, a princípio, era dar vazão a uma vontade minha de resenhar álbuns que eu gostasse - mania de estudante de Jornalismo -, acompanhar os lançamentos, enfim, passar informações para o público do rap. Aos poucos, fui achando o estilo certo para escrever no blog, mas acho que há muito mais para crescer, como, por exempo, dar mais espaço para artistas nacionais. De qualquer forma, queria agradecer a todos que visitam o blog diariamente, que indicam para amigos, que comentam, que procuram ajudar o blog, além dos outros blogueiros que deram bastante força durante esse um ano, principalmente os caras do Soumzaun - Casé e Alemão - que me ajudaram muito no começo. Tem vários outros caras que ajudaram, mas por questão de medo de esquecer alguém, não citarei nomes.

Agora, passado o momento retrospectiva, vamos ao que interessa. No melhor estilo Casas Bahia "eu faço aniversário e quem ganha presente é o cliente", o Boom Bap preparou um especial sobre um dos maiores emcees a pegar num microfone: The Notorious B.I.G. Para isso, temos um arquivo com todas as letras traduzidas do álbum Ready to Die, uma resenha do mesmo, além de dois downloads obrigatórios: a versão com as músicas em seu formato O.G., além de remixes, e a versão com TODOS os samples usados para criar este álbum clássico. Por fim, estreando uma seção que espero fazer mais vezes, temos a desconstrução do single Juicy, que consiste basicamente em tentar dissecar a letra, todos os seus significados implícitos, procurar entender a técnica do emcee ao escrever as rimas, etc.

Enfim, aproveitem o especial. Espero que gostem. E comentem, né? O Boom Bap merece...

Download - Ready To Die (Letras traduzidas)
Senha: www.boombap-rap.blogspot.com

Resenha: Notorious BIG - Ready To Die


1994 foi um bom ano para o rap. Álbuns que mais tarde se tornariam clássicos indiscutíveis foram lançados aos baldes. Entre eles, um disco cuja capa mostrando uma criança negra e a frase "Pronto para morrer" foi o que teve mais êxito, tanto entre os críticos quanto entre o público. Christopher Wallace, The Notorious B.I.G., Biggie Smalls, Frank White, whatever, foi o cara responsável por essa obra-prima.

Vindo diretamente das ruas do Brooklyn e assessorado por um jovem Puff Daddy, o então moleque obeso iniciou a gravação do disco tentando trazer os holofotes do rap de volta para Nova Iorque, uma vez que o gangsta rap de Los Angeles dominava a cena na época. Não por acaso, as primeiras faixas gravadas são todas um retrato do jovem Biggie: cruas, urgentes, agressivas. Imagine a cena: um cara que veio do nada tendo sua grande chance de melhorar de vida e não precisar voltar para as ruas - daí podemos entender a ferocidade com que Biggie escrevia suas rimas. Infelizmente, graças a problemas com a gravadora, Puff Daddy foi demitido, o projeto do álbum foi engavetado e Big voltou para as ruas. Um tempo depois, Puff fundou sua própria gravadora e retomou o disco de um BIG agora mais concentrado e focado em não só fazer música de qualidade, mas também ganhar dinheiro com ela. Era o início da influência do pop no rap.

Entretanto, até para fazer hits para boates Biggie tinha um estilo. Big Poppa e One More Chance foram eternizadas graças a loops cativantes e um emcee extremamente eficiente, com flow perfeito e controle de respiração impecável. Tudo isso sem perder a técnica, as complexas estruturas de rima e as metáforas. Sua outra qualidade, a versatilidade, ficaria mais evidente no restante do disco. Biggie teve uma visão certeira em direcionar música para os vários públicos do rap. Criou um buzz com os gangstas em faixas como a funky Warning, um diálogo com um amigo que o previne que invejosos querem roubá-lo, e Things Done Changed, um relato vivo sobre as ruas.

Os puristas ligado aos raps de batalha e às rimas sem compromisso também foram satisfeitos: The What é um dueto com Method Man, onde os dois trocam as mais carismáticas rimas de auto-exaltação da história; Ready To Die tem um Biggie agressivo, o máximo de estilo foda-se que uma faixa com tal título pode alcançar; a picotada-pelo-Premier Unbelievable também segue o mesmo estilo. Entretanto, são algumas faixas chaves que acabam por dar a consistência necessária para que o álbum seja coerente com seu título.

Antes de tudo, Ready to Die é quase uma obra autobiográfica sobre um jovem do gueto pronto para subir na vida de qualquer maneira, nem que para isso precise morrer cedo. É um retrato da desesperança presente na juventude negra, uma forma de retratar estes jovens perspectiva de futuro. Juicy, outro single do disco, é a faixa que dá o exemplo de que ainda há saída, quando Biggie conta sua própria história de vida e mostra como conseguiu sair do "negativo para o positivo". Everyday Struggle, por sua vez, mostra o outro lado: os vários problemas enfrentados no dia-a-dia, desde a morte de amigos a problemas financeiros - é, talvez, a faixa mais subestimada do disco, um beat sensacional, com um loop jazzy no fundo, metais pontuais e uma bateria quebrada sensacional.

Respect segue a linha autobiográfica, com Biggie rimando algumas de suas frases mais memoráveis sobre um instrumental com fortes influências do reggae, inclusive no refrão meio rasta. Por último, duas das faixas mais criativas do rap: Gimme the Loot, um retrato perfeito da mentalidade de alguns jovens, no qual Biggie interpreta dois bandidos que estão à procura de potenciais vítimas, sobre beat minimalista, mas bastante efetivo; e Suicidal Thoughts, que fecha o disco com chave de ouro, e tem Biggie ligando para um amigo, lamentando sua vida e, por fim, se matando. O que mais chama a atenção são os versos extremamente sinceros e duros de Biggie, que vai desde "minha mãe desejava ter tido um aborto" até "minha mina me beijou, mas está feliz que eu morri / ela sabia que eu tinha um caso com a irmã dela".

Enfim, Ready to Die conseguiu uma proeza até hoje pouco alcançada no rap: aliou sucesso de vendas, de crítica e de público, graças a uma bem pensada e bem executada organização das faixas, que contemplou desde hits para rádio até músicas polêmicas que falavam sobre roubar grávidas. Todas impecavelmente produzidas, repletas de samples pesados e sujos, além de rimas extremamente bem escritas, tanto na parte de conceitos quanto na técnica. Junte tudo isso a um emcee carismático e pronto para tomar a cena de assalto, e temos um dos melhores discos da história do rap.

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Vídeo da faixa Big Poppa:


Vídeo da faixa Juicy:


Vídeo da faixa One More Chance remix:


Vídeo da faixa Warning: