quarta-feira, 29 de julho de 2009

J-Live: The Best Part

Ano: 2001
Gravadora: Triple Threat Productions
Produtores: Emmai Alaquiva (faixas 2,6 e 15), 88 Keys (3,4,12 e 17), David Kennedy (4,15,17 e 18), Grap Luva (5 e 7), Elliott Thomas (7), Pete Rock (8), Prince Paul (9), Chris Catalyst (10 e 11), Probe.dms (10 e 11), DJ Spinna (13 e 14), DJ Premier (16).
Participações: Ike and Swave of CVEES (faixa 4), Probe.dms (8), Asheru (8), Understanding Allah (13), Takhim Allah (13).

Aproveitando a passagem de J-Live pelo Brasil - amanhã ele estará na festa Blends, aqui no Rio -, o Boom Bap apresenta o álbum de estreia do emcee/produtor/deejay nova-iorquino. "The Best Part" tem, particularmente, uma história curiosa. Começou a ser produzido em 1995, seria lançado em 1999, mas, graças a problemas com a gravadora, só viu a luz do dia em 2001, não sem antes uma versão "pirata" atingir as ruas. Àquela altura, a expectativa pelo disco já era grande, devido aos singles de qualidade - "Braggin' Writes" e "Longevity" que Live tinha lançado.

E a espera valeu a pena. "The Best Part" é aquele típico álbum de estreia que toma tudo de assalto e define um padrão de qualidade dificílimo de ser alcançado pelo emcee nos trabalhos posteriores. Seja pela produção - que recruta nomes como Pete Rock, DJ Premier, Prince Paul e DJ Spinna - ou pela escrita impecável, o disco é um dos bons trabalhos do começo do milênio, uma mistura azeitada entre a velha e a nova escola que começava a despontar na época.

Para conseguir equilibrar bem tantos conceitos, nada melhor do que uma mente bastante criativa. Um dos grandes méritos de J-Live é trazer algo surpreendente mesmo na faixa mais tradicional. Uma infinidade de conceitos emerge durante o disco, graças à capacidade de Justice Allah de brincar com as palavras e o flow. São vários os exemplos: a brasileira "Don't Play" - que sampleia "Canto de Ossanha" e traz um refrão cantado que o ouvinte mais desligado vai pensar ser em português - traz Live usando um mesmo conjunto de rimas para finalizar suas linhas, mudando apenas a ordem delas. Já no single "Them That's Not", Live ajusta flow e métrica de acordo com a velocidade da batida, que começa aceleradíssima e vai decaindo até alcançar a entonação tradicional do emcee.

Mesmo as faixas menos inventivas são executadas com maestria. "Kick It To The Beat" é uma cortesia de Pete Rock, que mantém os samples elegantes, mas abdica das caixas pesadas para dar o espaço necessário para Live e seus parceiros Asheru e Probe.dms destilar destreza lírica. "Yes!" vai até as raízes do boom bap nova-iorquino, com scratches, bateria suja, sample discreto para permitir que Live exiba rimas multissilábicas de batalha à vontade, não sem antes cutucar o rap em geral:

"O que você quer, algo na moda ou algo bom?
Do que você precisa, liberdade ou justiça?
Do que você gosta, pele branca ou negra?
(...)
Respeito nas ruas ou venda de discos?"

Ainda tem storytelling criminal na ótima "Wax Paper", a mistura de filosofia e autobiografia na jazzy "Timeless", relacionamentos em "Get The Third" e a exibição de habilidade incomum em "Braggin' Writes Revisited", na qual ele rima e manipula o vinil ao mesmo tempo e ainda arruma espaço para lançar uma frase clássica - "Tá todo mundo rimando, mas poucos têm flow". Mas é a faixa título, abençoada por um beat de DJ Premier, que fecha o disco com chave de ouro, numa letra que mistura referências à crença Five Percenter, experiências pessoais na indústria musical e conselhos para o rap:

"De uma forma de arte até se espalhar da costa leste para a oeste
para a costa, o hemisfério, veja como o hip hop cresceu
mas ainda é o proverbial bobo da corte da música
explorado por muitos, entendido por poucos
(...)
porque a força de uma nação sempre foi suas crianças
deixe-as aprenderem com os anciões que foram fortes e espertos
então o hip hop será a música que não irá embora
quando a próxima leva de MC's provar ser assim"

Assim, depois de uma hora e 16 minutos de bom rap nos ouvidos, "The Best Part" se consolida como um trabalho essencial para todo fã de rap, especialmente aqueles procurando por criatividade e um quê de Nova Iorque nos beats. Para quem ainda não conhece J-Live, o disco é a porta de entrada para a obra de um cara multifuncional, que ainda se mantém firme e forte na penosa arte de fazer música por amor.

J-Live - The Best Part
1 Outside Looking
2 Intro
3 Got What It Takes
4 Don't Play
5 Vampire Hunter J
6 YES!
7 Them That's Not
8 Kick It to the Beat
9 Wax Paper
10 Timeless
11 Get the Third
12 School's In (Remix)
13 R.A.G.E.
14 True School Anthem
15 Inside Looking Outro
16 The Best Part
17 Play
18 Braggin' Writes Revisited
19 Epilogue

Mais informações sobre a passagem de J-Live no Brasil

Resenha de "Then What Happened" no Boom Bap

J-Live cantando ao vivo a faixa "Braggin' Writes":

sexta-feira, 24 de julho de 2009

La Coka Nostra: A Brand You Can Trust

Gravadora: Suburban Noize
Ano: 2009
Produtores: DJ Lethal (faixas 1,2,3,5,6,7,8,10,11,14 e 15), Everlast (4), Sicknature (5), Ill Bill (8), Alchemist (9), Cynic (12), Q-Unique(13).
Participações: Sen Dog (faixa 1), Big Left (1), Snoop Dogg (3), B-Real (5 e 15), Sick Jacken (6,11 15), Bun B (9), Q-Unique (13), Immortal Technique (13).

La Coka Nostra é um supergrupo formado pelos membros originais do House of Pain (DJ Lethal, Everlast e Danny Boy), além do ex-Non Phixion Ill Bill e o membro do Special Teamz, Slaine. Com uma escalação dessa e dado o histórico dos caras e o nome do grupo, já dá para imaginar a proposta que eles trazem para a mesa, certo? Pois bem, quem gosta de rap pesado, com flows agressivos, letras fortes e emcees trocando rimas como se tivessem se conhececido na maternidade pode alimentar expectativas com "A Brand You Can Trust", porque não será decepcionado.

Na verdade, há muito mais neste álbum do que simples agressividade. Para entender melhor o registro, é necessário dar crédito a três referências: o guitarrista branquelo e cabeludo, o crooner emotivo e o conspiracionista. Pode soar confuso, mas depois de uma audição completa do registor, dá para perceber melhor esses elementos, e são eles que dão sustentação a todo o conceito do trabalho - e ainda geram spin-offs como o O.G. malandro - e mostrar um mundo de violência, drogas e desesperança.

O guitarrista cabeludo e branquelo é identificável nos primeiros segundos do álbum e é companheiro inseparável de DJ Lethal, responsável pela maior parte dos beats do disco. A influência roqueira é inegável desde os primeiros acordes metaleiros de "Bloody Sunday", embora os emcees só estejam se aquecendo em suas líricas - exceção para Slaine e seu arsenal de aliterações. Outras faixas como a psicótica "Get You By" e "The Stain" também evocam a imagem do guitarrista abusando de sua guitarra como numa masturbação, tudo para Ill Bill e sua turma rimarem confortavelmente.

E é "The Stain" que nos mostra o segundo elemento, o crooner. No disco, ele é personificado por Everlast, caprichando numa cantoria envolvente e dando um clima mais emotivo a certos refrões. Como local de encontro de duas grandes influências do álbum, "The Stain" é a melhor faixa do disco, com versos emocionantes, particularmente o de Slaine, dedicado para sua filha. Os hooks de Everlast permeiam ainda todo o registro, ora mais tristes, ora mais suingados, mas sempre dando um contraponto interessante à agressividade dos flows.

Por fim, o conspiracionista é na verdade um monstro criado a partir de pequenos pedaços de cada emcee e resume bem a lírica deles. Com muitas referências às drogas e à guerra, os caras pintam imagens sombrias, crônicas políticas e críticas sociais dignas daqueles às voltas com teorias da conspiração. A simples aparição de Immortal Technique na sugestiva "Nuclear Medicinemen" só corrobora a hipótese. Espere ainda críticas ao modo de vida americano em "I'm American", analogias à guerra em "Choose Your Side" - Ill Bill rouba a cena aqui - gangsterismo em "Bang Bang", com o tal O.G. malandro chamado Snoop Dogg, e puro bragadoccio em "Fuck Tony Montana" e na ótima "That's Coke", uma simples troca de versos entre todos os emcees pontuada por um naipe de metal suingados que parece estar deslocado no disco, mas na verdade soa muitíssimo bem.

Da reunião de seis rappers brancos, "A Brand You Can Trust" surge como uma ótima alternativa para estes dias sem grandes novidades no rap americano. Produção acima da média, letras consistentes, levadas matadoras e afirmações de talentos - como eu nunca prestei atenção em Slaine antes? - fazem do disco audição obrigatória para quem quer um pouco de adrenalina na vida ou tá naqueles dias de raiva. Parafraseando e traduzindo cretinamente o título do álbum, quando se precisa de agressividade, La Coka Nostra é uma marca em que se pode confiar.

La Coka Nostra - A Brand You Can Trust
01. Bloody Sunday (feat. Big Left And Sen Dog)
02. Get You By
03. Bang Bang (feat. Snoop Dogg)
04. The Stain
05. I’m An American (feat. B-Real)
06. Brujeria (feat. Sick Jacken)
07. Once Upon A Time
08. Cousin Of Death
09. Choose Your Side (feat. Bun B )
10. Hardcore Chemical
11. Soldier’s Story (feat. Sick Jacken)
12. Gun In Your Mouth
13. Nuclear Medicinemen (feat. Q-Unique And Immortal Technique)
14. That’s Coke
15. Fuck Tony Montana (feat. Q-Unique And B-Real)

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Vídeo da faixa "I'm American":

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Single: Pizzol - 16 anos

Pizzol é a nova aposta da 360 Graus Records, gravadora do DJ Caíque. O moleque tem 16 anos, mas rima com técnica e habilidade de gente grande. O disco de estreia dele, intitulado sugestivamente de "16 anos" e todo produzido por Caíque, já está pronto e deve ser lançado no próximo mês, com participações de caras como Doncesão, Nocivo Shomon, Dr. Caligari, Ogi, Jeffe e Roko. Por ora, saiu o primeiro single do registro, com três faixas que estarão no álbum, além do clipe de uma delas.

O mais interessante em Pizzol é que ele não parece ter a idade que tem. Sua segurança no microfone é perceptível e suas letras não são infantis. A positividade da ótima "Vivo a Voar", com grande refrão de Jeffe, sintetiza bem as qualidades do menino: ele mostra personalidade ao dividir o mic com Doncesão e uma levada impecável sobre o beat acelerado de Caíque. A faixa com clipe, "Paraíso Incomum", mantém o clima positivo, ajudada pelo instrumental sutil.

Pizzol - 16 anos (single)
01 - Pizzol - Paraiso Incomum [Prod. DjCaique]
02 - Pizzol - Vivo A Voar [Part. Doncesão & Jeffe] [Prod. DjCaique]
03 - Pizzol - 16 Anos [Part. DJ Edy] [Prod. DjCaique]


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Vídeo da faixa "Paraíso Incomum":

sábado, 18 de julho de 2009

U-Flow: Indústria Falida (single)

U-Flow é um grupo do Rio de Janeiro, formado inicialmente pelos emcees Johnny P.A. e Ribah, pelo produtor 2F e pelo DJ Kako - o beatmaker Nobru e os emcees Saulo e Beleza entraram ano passado -, na luta há seis anos. Os caras estão preparando o primeiro álbum deles, que deve sair em agosto deste ano, e vão lançando aos poucos alguns singles para todo mundo conhecer o som deles. Mês passado eles lançaram "Sem Apego" e, agora em julho, é a vez de "Indústria Falida" vir ao conhecimento do público.

E o título da faixa é bastante sugestivo. Johnny P.A. e Beleza conseguem sintetizar em pouco mais de três minutos a opinião de muitos artistas em relação à queda do mercado tradicional da música. É quase como uma celebração à indigência das gravadoras e à liberdade artística proporcionada por isso. O beat, de 2F e Saulo, recorre a cortes de violão para criar um clima meio cínico de despedida - encaixaria perfeitamente como a música final de algum filme em que haja um adeus no fim. Afinal de contas, é disso que trata "Indústria Falida", certo?

Download do single

Myspace da U-Flow

terça-feira, 14 de julho de 2009

Letra Traduzida: Mos Def - History

Demorou, mas aos poucos as letras de "The Ecstatic" começam a aparecer pela internet. Uma delas é "History", a faixa que reúne Mos Def e Talib Kweli para delírio dos fãs do Black Star, com um adicional: beat de J Dilla. Enquanto Mos soa um pouco filosófico e abstrato demais, Talib nos abençoa com algumas linhas dignas de frase de MSN e "quem sou eu" do Orkut, para no final se gabar do impacto que o Black Star teve no rap. O mais legal, porém, é a teoria que Mos explica na introdução: algumas pessoas agem como a estação em que nasceram. Alguém já tinha pensado nisso? Até que soa interessante...

Artista: Mos Def feat. Talib Kweli
Álbum: The Ecstatic
Música: History - História

[ Mos Def ]
Kweli diz, "todo mundo age de acordo com a estação em que eles nasceram"
alguns são a noite, alguns são a manhã, outros a madrugada
outros no inverno, alguns em junho
é o nosso código, é o natural
a ciência é uma piada
para mim e os meus, os seus e você
vamos nos mover, vou te dizer um pouco sobre o meu, aí

Eu nasci em uma época em que o mundo estava quieto e frio
celebrações estavam acontecendo
alguns estavam felizes, outros, tristes
alguns se sentiam mal por estarem bem
alguns se sentiam bem por estarem mal, sentimentos passam e mudam, mas eles nunca vão embora, eles estão aqui para ficar
feriado, feriado, feliz aniversário
amor adolescente, o primeiro corte, corrida profunda
alma na carne, estas são as ruas do Brooklyn
ano do boi, sete e três
M.D., a História (vamos lá)
toda alma tem seus questionamentos, D (sim)
isso é onde você esteve e onde você está
e sem entendimento você não pode prosseguir
completar o início e o fim
então tudo começa de novo...de novo

[ Talib Kweli e Mos Def ]
De novo e de novo, bem novo
de novo e de novo, tão fresco
de novo e de novo, novidade

[ Talib Kweli ]
Eu nasci na década da decadência, onde eles idolatram o que eles têm
Ford foi o presidente, faça as contas
a guerra estava finalizada quando os vietnamistas atacaram a cidade de Saigon
nós estávamos tipo "adeus", nós estávamos indo embora, deixar as bigornas serem bigornas
eu tô fora, espalho amor, é a maneira do Brooklyn
onde eles te abraçam com o braço que seguram a arma de fogo
como roupas da nova escola, oficial Black Star
um estouro quando nós fazemos um show, é fato, não mistério
eu tô junto com a turma como Mussolini na Itália
eu ando com os The Roots como a árvore oferecida
poderoso, eu superei a intolerância, eu e meu povo temos história
e estes rappers a "burrificam" consideravelmente
nós "fazemos estourar" como um refrão famoso
o flow é histórico, eles não podem escapar de nós
você nos escolheu, e nós criamos as leis como Levítico
há dez anos atrás nós fizemos história, então eles estão sentindo nossa falta

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Royce Da 5'9'': The Revival EP

Há tempos Royce Da 5'9'' vem engolindo emcees em participações, com versos sensacionais em sequência. Foi assim com Elzhi, Black Milk e seus companheiros de Slaughterhouse ultimamente. E desde que surgiu para o rap com o clássico "Boom" que o emcee de Detroit não está tão em alta no gênero. 2009 verá dois lançamentos de Nickel Nine: além de seu solo, "Street Hop", está previsto o álbum de estreia do supergrupo com Joell Ortiz, Joe Budden e Crooked I. Porém, antes disso, uma pequena prévia do que está por vir surge com o EP "The Revival".

Com apenas quatro faixas, o trabalho, ao que parece, segue uma lógica de marketing do Slaughterhouse. Rumores dão conta de que cada membro do grupo lançará um EP aos moldes deste de Royce: três faixas solo e uma posse cut. Estratégia interessante e muito mais construtiva e original do que arrumar uma beef sem sentido com algum nome estabelecido da cena, como Joe Budden tentou fazer com Method Man.

Voltando para "The Revival", fica claro que Royce está numa fase áurea. Sua metralhadora de rimas está mais do que carregada, com battle rhymes afiadíssimas e punchlines criativas, cheias de referências populares. Aliás, a metáfora acima com armas é ainda mais definitiva para descrever "Gun Harmonizing", a faixa de abertura, com o Nickel Nine cuspindo onomatopeias de disparos junto a ataques líricos da melhor qualidade, em cima de samples vocais e uma batida que parece estar correndo das balas saídas da boca de Royce.

A faixa seguinte, "Count for Nothing", pega emprestado o clássico sample de Chuck D contando até nove - o mesmo usado por Premier em "Ten Crack Commandments", do Biggie - e segue com o fuzilamento de rimas de Royce. "Warriors" vem em seguida e é a faixa que reúne os Slaughterhouse. Coincidência ou não, é a mais poderosa do EP, uma homenagem ao quarterback Steve McNair, assassinado recentemente, com um sample jazzy transformando em algo sinistro. "Street Hop" fecha o registro com mais uma rodada de referências pop e alto grau de bragadoccio, com Royce num flow mais lento e sobre uma batida mais modesta.

"The Revival" chega ao fim cumprindo seu papel de forma bastante adequada. É um ótimo aquecimento para os próximos projetos de Royce, pois aproveita o momento iluminado do emcee para colocar material de qualidade nas ruas e criar uma expectativa para os discos que estão para sair. Resta saber se os outros membros do Slaughterhouse também vão ajudar no marketing, ou se vão confiar no seu membro mais afiado para fazer o trabalho sujo.

Royce Da 5'9'' - The Revival EP
01. Gun Harmonizing
02. Count For Nothing
03. Warriors (feat. Slaughterhouse)
04. Street Hop 2010

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Tio Scooby: Dois Real (Breve nos seus fones)

Tio Scooby é um emcee/deejay/beatmaker de Porto Alegre, e já está há quase dez anos na cena - fez parte de grupos como Defensores da Rima Ofensiva, além de integrar atualmente o Emepê4 e o Projeto Último Palito. Recentemente, o cara lançou um EP, chamado "Dois Real (Breve nos seus fones), com o apoio do pessoal da 457fm. O trabalho conta com beats de Digestivo, TiagoBeats, Jones Beats, do venezuelano Jonathan Armada, além de produções do próprio Scooby.

Com dez faixas - incluídas aí uma introdução e uma "finalera" -, o registro mostra um emcee apaixonado pelo que faz, cheio de energia e empolgação com o trabalho. Dá para ver em cada sílaba que Scooby solta a entrega dele nas músicas. Tamanho esmero pode ser visto também nos beats do disco, uma produção caprichada, bastante consistente e bem direcionada. Some estes dois fatores e você terá um bom representante do rap do sul do país nos seus fones de ouvido.

Liricamente, Scooby se encontra na curva saindo do discurso social para tratar de temáticas mais positivas. Esta positividade pode ser facilmente percebida em faixas como a viciante "Hora do Show", com refrão cantado e beat potencialmente radiofônico, na qual o emcee fala sobre as dificuldades na caminhada e como ele não se deixa abalar pelas adversidades. "A Nada" recorre a uma batida reminiscente do início carreira de Kanye West, apostando num sample vocal acelerado; nas rimas, Scooby faz uma espécie de manifesto, uma apresentação sua, mostrando suas ideias de forma mais geral.

Como dito acima, a parte instrumental do EP é muito bem cuidada, e não tem sobressaltos durante a audição. Os beats combinam desde elementos mais brasileiros, como o violão sampleado em "Última Questão" até uma forte presença de colagens do rap nacional, o que é bastante elogiável. Destaque também para a belíssima faixa instrumental "Conexões", cheia de sutilezas e com uma bateria rasteira empolgante - um pecado que Scooby não tenha rimado em cima dela.

Como um EP, "Dois Real..." serve como ótima introdução para Tio Scooby, que mostra um bom ouvido para escolher beats e um liricismo que parece estar num momento de transição, com espaço tanto para a rua quanto para mensagens mais positivas. A curiosidade agora é saber como o emcee vai chegar em seu disco de estreia. O convite já foi bem bonito, falta saber se a festa vai manter o nível - e geralmente é isso o que acontece.

Tio Scooby - Dois Real (Breve nos seus fones)
01. Introdução
02. A Nada
03. Diferenças
04. Hora do Show
05. Conexões
06. No Jogo
07. Sem Medo
08. Última Questão
09. Verdades
10. Finalera

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