sábado, 21 de março de 2009

Common Market: The Winter's End

Depois de um álbum espetacular em 2008, RA Scion e Sabzi voltam a dar vida ao Common Market, com o lançamento do EP The Winter's End. O novo trabalho conta com cinco faixas - sendo uma delas instrumental - e é uma espécie de presente para os fãs antes que o grupo saia em turnê pelos Estados Unidos. Aparentemente, o EP não é uma prévia de algum novo álbum, como foi Black Patch War no ano passado.

De forma geral, o tema do disco é a sensação de depressão e tristeza supostamente passada pelo inverno. Ainda assim, é o suicídio o tema mais recorrente nos versos de Scion. - talvez uma referência ao 'final' presente no título do EP. A primeira faixa, "Noveau Depart", é uma composição livre das caixas do rap, guiada basicamente por uma espécie de banda funeral, entremeada por metais tristes. Não à toa, o vídeo da música, ainda não lançado, foi filmado em cemitério nova-iorquino. Na faixa seguinte, "Escaping Arkham", com um som bastante reminiscente do último trabalho da dupla, Scion entra na mente de um suicida no seu caminho para a morte e ainda acha tempo para cantar o refrão.

"Brasso" é talvez o ponto fraco do EP, com o beat mais "alegre" do trabalho, uma espécie de contraponto ao clima sombrio das outras faixas. Ainda assim, Scion exibe um flow certeiro e mostra por que é um dos grandes nomes do rap atualmente. Quando "Slow Down Moses", a última faixa com vocais do trabalho, começa, o emcee só confirma sua condição. Mais uma vez cantando o refrão, de forma bastante envolvente, por sinal, ele imerge nos metais e pianos pontuais da faixa para contar uma conversa com um psicólogo acerca do suicídio do próprio pai.

Por fim, "The Picture of My DeLorean Gray", a faixa instrumental, explica a qualquer ouvinte desafinado a razão do Common Market ser um dos grupos mais aclamados. Além de um excelente emcee, há também um produtor virtuosíssimo, dominando tanto a técnica do sampling quanto a instrumentação. O clima emocionante da última faixa é construído de forma magistral, graças às caixas pesadas, arrastadas, e as intervenções de Sabzi ao longo da música. E, por falar em samples e instrumentos, uma nota relevante: os beats de The Winter's End foram todos construídos sem uso de samples, apenas com os dotes musicais de Sabzi.

Ao contrário do normal, este EP é mais uma espécie de fim de festa, capturando a mente da dupla num momento pós-Tobacco Road, mas já experimentando coisas novas, como a instrumentação e o canto de Scion. Ainda assim, continua no caldeirão dos caras a tendência para fazer trabalhos conceituais de forma bastante profunda. Resta saber, agora, como virá o próximo disco deles, e o que eles aproveitarão desta experiência.

Common Market - The Winter's End
1. Nouveau Depart
2. Escaping Arkham
3. Brasso
4. Slow Down Moses
5. The Picture Of My DeLorean Gray (feat Sabzi)

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quarta-feira, 18 de março de 2009

Finale: A Pipe Dream and a Promise

E Detroit lançou seu primeiro ataque de 2009. Depois de lançamentos estelares no ano passado - Invincible, Elzhi, Black Milk, Buff1, etc -, é a vez do emcee Finale, amigo de todos os artistas citados, lançar seu aguardado álbum de estréia. A Pipe Dream and a Promise conta com participações da nata do rap da cidade dos Pistons, tanto no microfone quanto na produção. Os beats do álbum, por sinal, são quase um dream team de produtores do underground americano: Kev Brown, Black Milk, Khrysis, Nottz, Ta'raach, Oddissee, Flying Lotus, M-Phazes e Waajeed.

E logo fica claro que a boa vontade é substituída rapidamente pela admiração. Finale é um emcee da linha de Elzhi, cheio de malabarismos líricos, mas com um flow ainda mais variado, cheio de nuances, além de uma voz mais grave. Talvez falte um pouco distinção e carisma ao novato, algo que sobra em alguns de seus parceiros, mas a verdade é que ele é um emcee talentosíssimo. Seus versos tratam de temas comuns a qualquer pessoa, como relacionamentos, família e amigos. Na última categoria, destaca-se a bela homenagem ao falecido J-Dilla em "Paid Homage", com o talentoso Flying Lotus emulando o estilo de Dilla na construção do beat.

Não bastasse a qualidade técnica do emcee, a produção do álbum também é impecável. Apesar de vários beatmakers terem contribuído para a obra, a coesão do trabalho não é prejudicada em momento algum, com cada faixa combinando perfeitamente para o clima geral: um boom bap atualizado, com recheios dos mais variados - sintetizadores, breakbeats e guitarras funky, samples de séries de TV, etc. O que chama atenção é que, apesar da faceta minimalista dos beats, ainda assim eles guardam uma riqueza sonora que satisfaz qualquer ouvinte.

"Arrival and Departure", a primeira faixa do álbum, é um bom exemplo dessa deliciosa contradição: dois beats em uma só música, um uptempo, eletrônico, urgente, e o outro preguiçoso, guiado por sample vocal e uma linha de baixo deslizando lentamente pelo estéreo. "Pay Attention" traz de volta o funk setentista, com direito até a breaks - outrora sampleados para músicas de rap. "The Waiting Game", com participação da infalível Invincible e tratando da indústria musical, segue a cartilha Black Milk de beatmaking, embora provida por Khrysis: caixas pesadas, andamento acelerado e uma orquestra de samples se acotovelando para fazer companhia ao loop principal.

Falando no melhor produtor de 2008, o primeiro single do disco é produzido pelo próprio "leite negro" em pessoa: "Motor Music" é, musicalmente, a continuação da linha de raciocínio desenvolvida em Tronic, com influências eletrônicas e linha de baixo esguia, o que garantiria presença radiofônica à faixa se as rádios não tivessem tantos compromissos políticos e financeiros. Outros bons destaques são "The Senator", que sampleia uma fala clássica de The Wire, e "Issues", talvez a faixa mais calma do disco, com uma bateria lenta - mas ainda pesada -, sintetizadores tristes e um excerto vocal discreto, tudo para dar o fundo necessário a uma letra bastante pessoal de Finale.

Em um ano ainda devagar para o rap, A Pipe Dream and a Promise emerge oficialmente como o primeiro grande disco do ano, graças a uma produção impecável, coesa e bastante segura, e um emcee tecnicamente bastante capaz. Com este lançamento, Detroit ratifica sua posição como vanguarda da cena atual do rap, fonte dos artistas mais prolíficos do jogo, principalmente pela quantidade que é oriunda da cidade. Obviamente, vários lugares têm grandes emcees e produtores, mas poucos dispõem de tanta quantidade, e, é claro, qualidade.

Finale - A Pipe Dream and a Promise
01 Arrival & Departure (Produced By V-Tech & Apollo Brown) ft. Awesome Dre
02 Style (Produced By Kev Brown)
03 Pay Attention (Produced By Slimkat) Interlude - Beat The Drums (Produced By Shamus O'Flannigan)
04 The Waiting Game (Produced By Khrysis) ft. Invincible Interlude ft. Prince Whippa Whip (Cold Crush)
05 One Man Show (Produced By Black Milk) (Scratches By DJ Presyce)
06 Jumper Cables (Produced By Nottz)
07 A Reason (Produced By Ta'raach)
08 Motor Music (Produced By Black Milk)
09 Heat (Produced By J Dilla) (Scratches By DJ Sicari)
10 Issues (Produced By Dimlite) Interlude ft. Prince Whippa Whip (Cold Crush)
11 Brother's Keeper (Produced By Nottz)
12 The Senator (Produced By Waajeed)
13 What You Mean To Me (Produced By MPhazes)
14 A Pipe Dream And A Promise (Produced By Oddisee) ft. Monica Blaire & Allan Barnes (The Blackbrds)
15 Paid Homage (R.I.P. J Dilla) (Bonus Track) (Produced By Flying Lotus)

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sábado, 14 de março de 2009

DOOM: Born Like This

Acabou de vazar o novo álbum do (ex-MF) Doom, chamado Born Like This, um dos lançamentos mais esperados deste começo de ano. Depois de quatro anos sem lançar material novo sob a antiga alcunha de Metal Face, o emcee mascarado contará com participações de Ghostface Killah e Raekwon, além de beats de J-Dilla, Jake One e Madlib. Apesar disso, a maioria dos instrumentais são produzidos pelo próprio Doom.

Depois de algumas críticas por parte dos próprios fãs - ele supostamente estaria mandando outra pessoa, mascarada, para realizar os shows -, Doom ressurge revigorado. Apesar da mudança de nome do rapper, Born Like This é um testamento fiel do estilo do mascarado: beats tortos, com samples improváveis e excertos de desenhos animados, misturados ao flow intricado e complexo, cheio de trava-línguas ao longo dos versos. Falando nos samples, Doom varia tanto de um soul meloso modificado em Angelz até barulhos futuristas e minimalistas em Gazzillion Ear.

O mais interessante é notar como Doom brinca com os limites e a estrutura do rap, buscando sempre desconstruir alguns padrões. Com isso, caixas batem descompassadamente e samples se alternam de forma lisérgica. Sobra tempo até para ironias com a própria cena, como no uso de um autotune em Supervillainz. Há, entretanto, momentos mais sérios, combinando bastante com o caos digno de uma cidade de super-heróis que é o clima do disco. Cellz, que abre com Charles Bukowski declamando um poema, é o grande exemplo disso: "Nascido desta forma, dentro disto / em hospitais que são caros que é mais barato morrer / com advogados que cobram tão caro que é mais barato se declarar culpado".

Entre ironias e versos apocalípticos, Doom consegue surpreender e criar faixas marcantes ao misturar as duas características. Em That's That, um beat carregado por um violino loopado, ele finaliza a música...cantando: "Será que estive longe por tanto tempo? Você sentiu falta destas rimas quando eu fui embora?". Batty Boyz puxa mais para o lado fantástico do emcee, com um beat simples, de bateria quebrada e loop contínuo, abrindo espaço para rimas certeiras. Por fim, há Yessir!, com um Raekwon inspiradíssimo sobre o instrumental bate-cabeça, e Lightworks, cortesia do Donuts de J-Dilla, numa criação feita sob medida para Doom: base caótica, cheia de elementos - sirenes, teclados, caixas tortas, samples filtrados - interagindo e um sample vocal no final manipulado de forma magistral.

Os 40 minutos de Born Like This, depois de o disco ser todo apreciado, parecem muito mais. Talvez pela densidade de cada faixa, fica difícil perceber que a imensa maioria não passa de três minutos. Ainda assim, cada música flui perfeitamente, e oferece uma audição única, cheia de pormenores, uma verdadeira viagem à mente de um dos emcees mais autorais do jogo. Super-heróis, super vilões, caos, batidas e rimas. Foi em volta disto que nasceu DOOM.

Doom - Born Like This
1. Supervillain Intro
2. Gazzillion Ear
3. Ballskin
4. Yessir! feat Raekwon
5. Absolutely
6. Rap Ambush
7. Lightworks
8. Batty Boyz
9. Angelz feat Tony Starks (aka Ghostface)
10. Cellz
11. Still Dope feat Empress Sharhh
12. Microwave Mayo
13. More Rhymin' feat Kurious
14. That's That
15. Supervillainz
16. Bumpy's Message
17. Thank Yah

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Letra Traduzida: Q-Tip - Believe

Primeiramente, peço desculpas pelas atualizações espaçadas, que têm sido causadas pela falta de tempo decorrente do reinício das aulas na faculdade e da falta de material novo saindo, o que deve suscitar uma onda meio revival aqui no blog semana que vem. Enquanto isso, fiquem com a tradução de uma das minhas músicas prediletas do último álbum do Q-Tip.

O mais interessante de Believe é a forma como Tip brinca com as palavras, algo que se perde um pouco na tradução, mas ainda assim é presente em frases como "acredite em acreditar". São jogos de palavras simples, mas eficazes. O tema é bem diversificado e Tip lida bem com isso, indo desde fé até confiança no governo - um discurso meio Public Enemy ao insuflar as massas, como em "acredite um no outro, questione o sistema / eles prometem retornos? Então questione o que você está ganhando" -, além de passar pelos já comuns ataques a emcees menos dotados e questionamentos mais subjetivos.

Entretanto, a mensagem mais marcante que fica da letra é de que devemos acreditar em nós mesmos ao mesmo tempo em que não deixamos de correr atrás. Até porque milagres humanos acontecem, "como crianças do gueto brilhando na Babilônia". Q-Tip é um exemplo delas.

Artista: Q-Tip feat. D'Angelo
Album: The Renaissance
Música: Believe - Acredite

[ D´Angelo ]
Eu acredito...isso é amor, isso é amor
Eu acredito...isso é amor

[ Q-Tip ]
Uh, das coisas que nós acreditamos
existe um monte de coisa a trabalhar, deveríamos arregaçar nossas mangas
e precisamos segurar firme quando a visão do destino se desenvolve
por que duvidar de seus palnos? Porque tudo é digno de se acreditar
nós podemos fazer funcionar, acredita nisso?
deixe a falta de confiança na areia e acredite
nós podemos alcançar entendimento ao desligar feedbacks negativos
os detratores podem odiar, nós nos concentramos em trazer a esperança de volta
para nós mesmos, para o mundo, para o jogo do rap
emcees são miseráveis, suas músicas deveriam deixar os mics feridos
cara, veja, nós estamos esperando pela verdade
se estivéssemos sozinhos no Louvre esperaríamos pela prova
cara, volte a acreditar, acredite em acreditar
ver não é crer, este é o sentimento de que precisamos
acredite um no outro, questione o sistema
eles prometem retornos? Então questione o que você está ganhando
nós deveríamos acreditar nas razões pelas quais existimos
hora da Renascença acordar o que está esquecido
acredite, criança, confirme, faça disso o que não é
às vezes eu desejo que tivesse tido fé quando não tive

[ Refrão ]

[ Q-Tip ]
Na terra do fingir acreditar, tempo de transformar o inacreditável em credível
levando a fé para o campo do real
acreditando que esta merda foi alimentada pela mídia
acreditar que é real quando é realmente um acordo puro
nunca desacredite quando você vê um milagre humano
como crianças do gueto brilhando forte na Babilônia
acredite naquilo, não acredite nas estatísticas ao contrário
tome cuidado com as teorias deles, siga em frente
as pessoas encontram crença quando não encontram identidade
acredite em seus amigos, não acredite em seus inimigos
montanhas de dúvidas e descrenças bem na sua frente
tropas do outro lado, o que você vai fazer?

[ D'Angelo ]
Oooh...oooh, oooh, heeey
oooh, isso é amor, isso é amor
oooh...oooh, oooh, heeey
oooh, isso é amor, isso é amor
eu acredito...
eu acredito...
eu acredito...

segunda-feira, 9 de março de 2009

Brother Ali: The Truth Is Here

Brother Ali é uma das figuras mais carismáticas do rap hoje em dia. Embora não tenha tanta exposição, ele vem expandindo de forma consistente sua base de fãs, além de continuar sendo aclamado por críticos. Albino e com uma força descomunal no microfone, ele é um dos poucos a ser quase uma unanimidade do gênero. Aproveitando este status, o cara dá mais um passo na carreira: o lançamento de um DVD com uma performance em um show com ingressos esgotados. Como bônus, um EP com uma capa belíssima e nove faixas, constituído basicamente por b-sides e material inédito, chamado The Truth Is Here.

Como em todos os outros trabalhos de Ali, o projeto é inteiramente produzido por Ant, do Atmosphere. Dessa vez, porém, a palavra de ordem é versatilidade, tanto para o emcee quanto para o produtor. Se o tema varia desde amor, fé, terrorismo, política, a carreira de Ali e até battle raps compartilhados com Slug (a parte vocal do grupo de Ant), os beats também são de grande diversidade: o jazz abre o EP com 'Real As Can Be' - uma faixa lenta dominada pelo sample de sax - e fecha com a sutil 'Begin Here', uma mistura bem sucedida entre bateria seca e piano. No meio do caminho, porém, há espaço para o baixo eletrônico da uptempo 'Philistine David', o piano gospel de 'Good Lord' e o soul de 'Palm Joker', com um sample acelerado que parece ter sido esticado além da conta propositalmente por Ant, mas acaba funcionando bem.

Quanto ao sem-número de temas, a referência ao título do EP é inevitável. É como se Ali defendesse a tese de que a verdade aparece de diversas maneiras e varia de pessoa para pessoa. Ou seja, cada situação tem uma verdade para oferecer a cada pessoa. No caso das faixas, são as verdades do emcee em cada área de sua vida. Em 'Real As Can Be', ele trata de inúmeros pormenores de sua vida, como sua amizade com Rakim, seu reconhecimento dentro da cena e até o iminente nascimento de sua filha. 'Good Lord', como o próprio nome diz, fala da fé muçulmana de Ali e sua relação no dia-a-dia. 'Talkin' My Shit' e 'The Believers' são as faixas mais soltas, com versos livres, tratando de vários assuntos. Por fim, há o grande destaque lírico do trabalho: 'Philistine David', na qual o pai de Faheem entra na mente de um adolescente palestino prestes a se tornar um homem-bomba, e explica as motivações por trás desta decisão.

O mais animador em The Truth Is Here é que é apenas uma indicação de como 2009 promete ser agradável para os fãs de Ali. Além do EP e do DVD, um disco solo novo está planejado para ser lançado ainda este ano, novamente produzido por Ant. Como este EP prova, o emcee albino mais famoso do mundo está prestes a lançar outro disco forte, assim como foram todos os outros e assim como é este projeto. Em Brother Ali eu confio.

Brother Ali - The Truth Is Here
1. Real As Can Be
2. Philistine David
3. Little Rodney
4. Palm the Joker
5. Good Lord
6. Baby Don’t Go
7. Talkin’ My Shit
8. The Believer
9. Begin Here

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Link consertado

Trailler do DVD The Truth Is Here:

quinta-feira, 5 de março de 2009

Braille & Symbolic One: CloudNineteen

Embora eu não seja daqueles que desprezam o rap e não perdem a chance de dizer o quanto ele está supostamente fraco, tenho de admitir que o começo de 2009 tem sido bem morno para o gênero. E a questão não é só qualidade, mas, principalmente, quantidade. Assim, fica um pouco difícil abastecer o blog com novos lançamentos relevantes. Para o meu alívio, o emcee Braille resolveu se juntar ao produtor Symbolic One, do grupo Strange Fruit Project, para criar um álbum no melhor estilo dupla dinâmica - um rimando e outro produzindo. Desta união, nasceu CloudNineteen.

Para quem não conhece o Braille, ele é um rapper com características bem diferentes: você não o ouvirá rimando sobre armas, mulheres e crimes, nem sobre fome, estupro e polícia. O estilo dele é outro: relatar a vida de um cara comum, com uma vida normal, sonhos e preocupações inerentes a qualquer pessoa. Resumindo, ele fala da vida de gente como a gente. Gente que trabalha, estuda, namora, chega atrasado no trabalho, vive sem dinheiro, anda de condução pública e não caga na casa dos outros. Some isso a uma boa dose de rap cristão e você já sabe o teor dos versos de Braille.

Para complementar estes temas, o convocado foi Symbolic One. Depois de ter lançado um disco de produtor no ano passado, ele volta a ser o responsável pela sonoridade de um álbum. Em Cloudnineteen, especificamente, ele abandona um pouco o seu terreno seguro de batidas soul e invade o campo do boom bap, variando bastante as fontes dos samples. Se há um denominador comum durante o trabalho, são as caixas pesadas e rápidas que pontuam a maioria do disco e servem como contraponto, principalmente nas faixas mais introspectivas., embora encaixem bem tanto com as guitarras da introdutória "Its Nineteen" quanto a emoção de "Broken Heart", na qual Braille fala sobre a morte de seu pai e aproveita para deixar suas impressões sobre vida após a morte.

Embora o álbum tenha tudo a favor para que haja uma consistência, isso não ocorre em geral. Algumas faixas, embora bem produzidas e bem rimadas, acabam não chamando a atenção, embora compartilhem espaço com outras criações bastante significativas. Além da já mencionada "Broken Heart", que além dos bons versos, ainda conta com um refrão interessante e uma produção misturando samples e instrumentação de forma perfeita, há ainda "Fill It In", com caixas arrasadoras, o boom bap frenético, meio 9th Wonder, de "For Life", uma dedicatória ao hip hop sobre pianos intermitentes e vocais acelerados. Por fim, há o destaque absoluto do disco: "Found Her", na qual a bateria reta e grave dialoga com samples discretos para dar espaço aos versos nos quais Braille rima sobre como encontrou sua atual esposa.

CloudNineteen fecha seus 55 minutos de duração como uma experiência agradável, mas que não materializa todo o seu potencial. Braille é um bom emcee e tem uma abordagem interessante, enquanto S1 prova que é um produtor versátil e qualificado, mas ainda assim algumas faixas simplesmente não tem valor de replay. Ainda assim, este é um dos bons discos que 2009 já começou a parir, que certamente vai prover seu MP3 player com algumas boas músicas.

Braille & Symbolic One - CloudNineteen
01.Sky Dive Intro
02.I'ts Nineteen
03.For Life
04.Broken Heart
05.Thats My Word
06.Fill It In
07.Skepticold
08.Heart of God
09.Found Her
10.From The Pulpit
11.Megaphone
12.Work That Way
13.Hardrock
14.Stay Together
15.Parachutes and Ladders
16.Frankenstein (Bonus)

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segunda-feira, 2 de março de 2009

Blu: Her Favorite Colo(u)r

Geralmente, eu não posto mixtapes aqui no Boom Bap, porque a maioria das fitas mixadas são apanhados de leftovers, uma ou duas músicas novas e freestyles sobre beats alheios. Obviamente, este não é o caso de Her Favorite Colo(u)r, um presente de Blu para os fãs. Para quem não conhece este emcee da costa oeste, ele é responsável por um dos melhores álbuns de 2007 e outros dois lançamentos consistentes em 2008. Um detalhe a ser valorizado: cada disco foi feito em conjunto com um único produtor, o que certamente influenciou no resultado final. Depois, o jovem John Barnes resolveu se arriscar nas produções e está trabalhando num disco com o nova-iorquino Sene. Nesta mixtape, porém, Blu resolve centralizar tudo nele mesmo: é ele quem produz e quem rima.

Quem acompanha o blog sabe que essa era uma curiosidade desde o post do single do Sene. O estilo de produção de Blu é bem próprio, com timbres de baterias bem lo-fi, programados de forma reta, acompanhados de samples no nível mais superlativo de sujeira possível, preferencialmente pianos e linhas de baixo oriundas do jazz. Porém, se nas produções anteriores o emcee/beatmaker empregava ritmos mais acelerados, esta mixtape vai na direção contrária.

Explica-se: o projeto é todo baseado no conceito de ser abandonado pela mulher amada. Logo, espere beats mais lentos, cheios de samples vocais arrastados e o próprio vocal de Blu mais lento, meio em tom de conversa, meio introspectivo. A dor de cotovelo dita o ritmo do projeto, inclusive nas várias esquetes que permeiam o álbum. Trechos de diálogos de filmes que tenham a ver com o sentimento de Blu ganham um destaque até exagerado.

Entre os destaques, a irresistível "Amnesia" é quase hors-concours, e sintetiza bem o clima da mixtape. O sample de piano cadenciado junto da bateria "preguiçosa" e grave por si só já oferecem um fundo agradável, mas é o sample vocal que leva a faixa para um outro nível. "Silent" é um interlúdio de 35 segundos, mas muito bem feito: cortes à la Premier sobrepostos a um sample vocal extraído de alguma musica que já apareceu em alguma novela do Manoel Carlos - desculpem, esta é a referência pobre que eu tenho. "Vanity" segue a fórmula de samples jazzy, vocais e bateria suja, com a vantagem de a usada aqui ter um pouco mais de suinge, sem contar que o vocal sofre um pequeno picote. Por fim, "Untitled (Loved U)2" é uma carta direta para a tal moça que quebrou o coração do cara.

Para quem queria ouvir Blu rimar sobre seus próprios beats, a mixtape é um prato cheio, e vale muito a pena. Blu já tinha um estilo próprio de rimar, sempre com versos bem pessoais, e parece que transpôs isso para seus beats, que também passam sempre esse clima mais reservado, mais calmo. Her Favorite Colo(u)r, no fim, acaba sendo mais uma mostra de talento de um dos mais promissores artistas do rap dos últimos anos. A pergunta que fica: o álbum solo de Blu será produzido por ele ou por Exile? Ou pelos dois?

Blu - Her Favorite Colo(u)r
01_Love
02_Amnesia
03_Since
04_Morning
05_Melo
06_Wind(terludeOne)
07_When(terludeTwo)
08_Silent
09_Pardon
10_Vanity
11_Beggars’/BlackGold
12_Celln’Ls
13_Untitled(LovedU)2
14_Peace

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