quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Raekwon: Only Built 4 Cuban Linx...Pt II

Ano: 2009
Gravadora: EMI / Icewater Records
Produtores: BT (faixas 1 e 9), J Dilla (2, 14 e 16), Pete Rock (3), Marley Marl (4), ATL (5), RZA (6 e 8), Necro (7), The Alchemist (11), Scram Jones (12 e 22), Icewater (13, 15 e 17), Dr. Dre (18 e 20), Allah Justice (19), Allah Mathematics (21).
Participações: Popa Wu (faixa 1), Inspectah Deck (2, 6, 21 e 22), Ghostface Killah (2, 5, 7, 8, 9, 16 e 21), Method Man (2 e 8), GZA (2 e 19), Suga Bang Bang (5 e 21), RZA (6), Tash Mahogany (6), Jadakiss (12), Styles P (12), Beanie Sigel (15), Blue Raspberry (15), Cappadonna (16), Lyfe Jennings (18), Slick Rick (19), Masta Killa (19 e 21), Busta Rhymes (20).

Depois de cinco anos, brigas internas, adiamentos, questionamentos, desistências, reformulações e todo o tipo de obstáculo possível, eis que o tão aguardado "Only Built 4 Cuban Linx...Pt II" chega aos ouvidos do mundo. Sequência do clássico de mesmo nome lançado nos tempos áureos do Wu-Tang, o disco é concebido já com a monstruosa responsabilidade de fazer jus ao nome e a toda ansiedade que gerou nos fãs de rap. De 1995 até 2009, milhares de coisas mudaram, principalmente neste tão controverso e dinâmico gênero. Como essa mudança influenciou Raekwon e seus parceiros durante a gravação do álbum?

Infelizmente, não é exagero dizer que o Wu não mantém sua tradição de grandes álbuns há uns dez anos. Os desentendimentos acerca de "8 Diagrams" deterioraram ainda mais a imagem do grupo perante os fãs. O próprio Raekwon já parecia desacreditado depois de tantas promessas sobre OB4CL2, que já havia caído no limbo daqueles discos místicos prometidos há séculos, junto com "Detox", por exemplo. E, neste cenário tão pessimista, tão desencorajador, eis que Rae faz algo maior do que talvez ele mesmo imaginava: além de ressurgir com um trabalho excelente, recoloca o Wu numa rota razoável e prova que, sim, é possível manter-se fiel a seus fãs e não soar datado.

Conceitualmente, existem algumas diferenças entre a obra prima original e este sucessor. Em 96, Rae era um cara faminto, ávido por mostrar seu valor como artista solo e na metade do caminho rumo a três décadas de vida. Como consequência, seu flow é agressivo, urgente, como se não quisesse perder tempo. Além disso, ele estruturou todo o álbum com base numa espécie de roteiro, no qual ele era o protagonista. Pois alguns fatores mudaram na versão 2009: Rae sonha mais cerebral, mais contemplativo; frequentemente, muda o foco da sua câmera lírica para os personagens da sua quebrada. Afinal, agora ele é um emcee consagrado, com 39 anos - não faria sentido ainda ser o mafioso das suas letras.

Mas se há alguma coisa que ainda continua intacta, é a capacidade de Rae contar boas histórias, de preferência relacionada ao submundo do crime e das drogas. Encare as letras do membro mais obeso do Wu como um bom filme policial, e sério candidato ao Oscar de melhor roteiro. Em alguns momentos, as rimas são tão visuais que é facílimo imaginar a cena. E não é só o conteúdo que é impecável. A forma como Rae estrutura seus versos é elogiável: esqueça o básico modus operandi de rimar as últimas palavras de cada verso; nas histórias construídas apenas para os Cuban Linx, as rimas são internas, surgem três linhas depois, dialogam entre si numa só linha etc. E este tipo de quebra com o padrão, esta forma "móvel" de escrita casa perfeitamente com o storytelling exposto em cada faixa.

Claro, a temática pode soar unidimensional, e de fato é. Porém, entre tantas histórias de crime, sangue e assassinatos, há espaço para entendermos um pouco quem é de fato Shallah Raekwon. "Ason Jones" é uma homenagem emocionante para o falecido Ol' Dirty Bastard, uma descrição detalhada de ODB sob a ótica de Rae, quase de uma forma reverente e mostrando, nas entrelinhas, as principais lições de Ason: "manter-se real", algo que seu parceiro mais novo aprendeu perfeitamente. Nota-se também que, se há 14 anos atrás, a postura era de um jovem criminoso pronto para tomar seu bairro de assalto, agora a atitude é outra: a reflexão perante as condições do gueto, a preocupação em alertar os mais jovens, algo que fica visível em faixas como "Cold Outside" e "Have Mercy". Indo mais fundo, Rae mostra, talvez inconscientemente, como nada mudou em todos esses anos, apenas os atores.

E se liricamente o trabalho atinge o objetivo de ser uma sequência, musicalmente a tarefa não foi tão fácil. Para começar, a divisão de tarefas: sai o monopólio de RZA e entram J-Dilla, Pete Rock, Dr. Dre e outros beatmakers menos conhecidos. Entretanto, a proposta continua sendo o batidão turvo que consagrou o Wu. Com um número relativamente alto de faixas e produtores, fica meio óbvio que aquela coesão de trilha sonora cinematográfica do OB4CL original não seria reeditada. Saem as strings sinistras e pianos atmosféricos, e entra uma plétora de estilos e samples. Mas não se preocupe, as pancadas continuam lá, só não dialogam tanto umas com as outras.

A linha de baixo militar de "House of Flying Daggers" abre o disco dando uma prévia do clima, que tem seguimento em "Gihad", "New Wu" e "10 Bricks", e encontra seu ápice na minimalista "We Will Rob You", com direito a Slick Rick parodiando a clássica "We Will Rock You", do Queens, e nos violinos triunfantes de "Kiss The Ring". Existem momentos mais reflexivos, como a ótima "Pyrex Vision", com um sample sensacional, e "Ason Jones", uma criação de Dilla que mais remete às faixas soul típicas de Ghostface Killah, com um sample vocal vindo de algum disco soul obscuro e orquestra da mesma origem.

São tantas nuances ao longo do disco que fica difícil falar de tudo. Não se pode esquecer que Rae emprega o mesmo flow e estrutura utilizados em "CREAM" em "Catalina", um beat apenas regular de Dr. Dre. Aliás, Dre contribuiu com duas batidas absolutamente genéricas de seu catálogo, o que é uma pena. As participações também não podem ser esquecidas: se Rae tornou-se mais cerebral, o inseparável Ghostface manteve o tom emotivo de antes, deu ótimo contraste e confirmou que R.A.G.U. continua sendo uma das melhores duplas do rap. Menção honrosa também para Beanie Sigel e seu verso em "Have Mercy", escrito como se ele estivesse dentro de uma cela, refletindo sobre como criar seu filho desta maneira, e para Masta Killa em "We Will Rob You", no melhor estilo "Labels" de GZA, mas usando o nome dos generais do Wu.

Quando o primeiro "Only Built 4 Cuban Linx" saiu, eu tinha apenas sete anos e, claro, não conhecia o rap. Uma frustração que tenho é não ter vivido a época em que tantos clássicos foram lançados. Mas, com esta sequência poderosíssima, Raekwon me dá a oportunidade de me redimir um pouco e tentar imaginar como deve ter sido o dia 1º de agosto de 1995. O que eu sei é que, em 1º de setembro de 2009, eu puder viver um pouco os tempos em que o Wu estava no auge e dominava o rap. E, só por isso, OB4CL 2 já vale a pena. Mesmo que, daqui a alguns meses, revele-se não tão completo quanto seu sucessor.

Raekwon - Only Built 4 Cuban Linx... Pt II
01: Return of the Northstar
02: House of Flying Daggers
03: Sonny's Missing
04: Pyrex Vision
05: Cold Outside
06: Black Mozart
07: Gihad
08: New Wu
09: Penitentiary
10: Baggin' Crack
11: Surgical Gloves
12: Broken Safety
13: Canal Street
14: Ason Jones
15: Have Mercy
16: 10 Bricks
17: Fat Lady Sings
18: Catalina
19: We Will Rob You
20: About Me
21: Mean Streets
22: Kiss the Ring

Vídeo de "New Wu":


Vídeo de "House of Flying Daggers":

10 comentários:

Flávio disse...

Grande texto! Excelente crítica.

Quando o 1º album do Rae apareceu eu tinha 14 anos, eu já seguia de perto do hip-hop e o album ficou como um dos meus preferidos da minha vida. Até ao album ao ano 2000 eu fiz questão de ter todos os albuns originais de Wu. Altura em que perdi a fé no grupo e pensei que nunca mais voltariam a ser os Wu dos anos 90. Este ano recuperei a esperança com o ultimo album dos Wu "Chamber Music" e com o "Dopium" de U-God. Com estes 2 albuns fiquei com a sensação de que estão a tentar recuperar o estilo com que nos apaixonaram. Deve ser alguma crise de meia idade dos membros de Wu-Tang, mas nós agradecemos. Esta semana, quando ouvi o album de Rae fiquei felicíssimo porque tirei as dúvidas todas: Os Wu estão aí outra vez.


Grande abraço de Portugal,
Falé

rodrigo disse...

Concordo com seu texto, e com o comentário acima...
este ano o Wu-Tang parece estar com uma qualidade e volume que faz tempo que os fãs não viam...
esse trampo do Raekwon ta foda memo,ele te leva a diferentes estados durante a audição, porém tbm acho q o Dr. Dre poderia ter contribuído de uma melhor forma nos seus beatz, ja que o resto dos produtores arrebentaram...
faloe.

roger disse...

mano este album do rae te faz viajar a um outro lugar quando vc esta ouvindo ovindo,quando eu baxei o album eu o escultei umas tres vezes foi uma emoção muito grande principalmente quando eu ouvi a faixa "ason jones",e este album mostra q o rap pade sair da mesmisse q vem caindo.o wu esta de volta assim nós como fans esperamos e q venha um album coletivo do mesmo nivel deste do rae ou maior nós agradeceremos.

S.A.R.C.I. disse...

*mesmice haha

Porra, essa resenha só ñ tá melhor que o cd, mt bem escrita, o álbum tá foda!

já ouvi o cd há um tempo, só tm uma parada p falar agora: faltou o Inspectah Deck na capa rsrsss

S.A.R.C.I. disse...

ah, e outro detalhe mínimo, que não altera em nada a qualidade musical do cd, é que capa tá estranha, lembra a do 1º cd, mas não tá tão foda hausahasuhasuh

Eduardo Campagnoli disse...

Lógico que superar uma Ice Cream, uma Incarcerated Scarfaces ou uma Criminology seria impossível - falando nisso, achei que a segunda parte dessa terceira estaria no álbum. Afinal, a vida pessoal de qualquer um reflete invarialvelmente na carreira musical. Eles não precisam mais ter aquele sangue nos olhos. Já passaram por isso, e, agora, podem fazer um algo a mais, como o Rae fez em suas rimas, em suas story-tellings e etc. Achei válido e não tinha como ser diferente; agressividade igual a de 95 soaria mais do que forçada. Pra mim as melhores são Gihad - excelente beat do Necro -, New Wu, Ason Jones, We Will Rob You, About Me e Kiss the Ring. Boa resenha, Felipe. Impecável, como sempre.

Paulo a.K.a. Apokalypse disse...

O Inspectah pra mim sempre foi o melhor emcee do Clan, mesmo alguns dizendo que ele foi feito num verso só... Seu flow é monstruoso! Vide a
Hollow Bones.

C.R.E.A.M. disse...

Não tem link pra download?

Thiago disse...

Concordo com o Paulo, o Inspectah tem um Flow animal, até as piores produções do RZA ficam boas no seu Flow.
Mas enfim, Ótimo disco, ótima resenha. Espero que os outros trabalhos do Wu mantenham essa qualidade.

freefun0616 disse...

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