quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ogi: A Vaga

Há pouco menos de um ano, o Boom Bap realizava um concurso para escolher um beatmaker cuja batida escolhida seria usada pelo Ogi no seu disco solo, "Crônicas da Cidade Cinza". Modéstia à parte, o certame foi um sucesso, com vários candidatos, beats de grande qualidade, participações de além-mar e, claro, muita polêmica. Antes mesmo dos jurados anunciarem seus votos e a votação popular chegar ao fim, o Ogi já tinha me confidenciado ter gostado muito do instrumental que viria a ganhar a peleja. No fim, o paulista DJ Zala venceu o concurso e Ogi continuou a trabalhar no disco. Fast-forward para 2010 e aqui está o resultado final daquela ideia: "A Vaga".

Além de ratificar as intenções do concurso e selar com chave de ouro a iniciativa, o segundo single que Ogi lança confirma também a direção do seu álbum. Como o nome - "Crônicas da Cidade Cinza" - sugere, a ideia é pintar um retrato da metrópole São Paulo através de histórias de personagens comuns e, por isso mesmo, fantásticos - afinal, são como nós, passam pelas mesmas coisas que nós, têm os mesmos medos e sonhos. Acima de tudo, as histórias que Ogi conta são extremamente humanas. Se em "Premonição", o primeiro single, o protagonista oscila num convite entre ir para uma noite de pichação, em "A Vaga" o tema de escolhas volta, com um enfoque diferente.

Aqui, o protagonista está arrasado, desempregado, sem dinheiro, sem perspectivas - e quem nunca esteve assim? - e, num dia pela cidade, passa por diversos "testes" de caráter, incluindo um convite nada inocente de um "amigo" para uma ação criminosa. A estrada da vida do cara então se divide claramente: manter o sonho e a esperança ou se entregar à angústia e ao caminho mais fácil? De qualquer forma, a vaga - na prisão ou num bom emprego - estará lá o esperando. Toda a história, desenrolada em dois minutos e meio, é contada impecavelmente por um Ogi que a cada dia domina ainda mais suas técnicas de rima e de flow. Aqui, a tendência para uma levada mais melódica, que flerta com o canto em alguns momentos, está ainda mais evidente. E, claro, a afinidade que o emcee teve com o beat de Zala há um ano revela-se por completo. A batida minimalista serve perfeitamente aos propósitos do rapper. Este é apenas o segundo single de "Crônicas da Cidade Cinza", e o nível continua alto. Se todas as faixas mantiverem a pegada, o que parece ser provável, o disco é forte candidato a entrar para o hall da fama de clássicos do rap nacional. A vaga está lá, esperando.

Como feito com "Premonição", o Boom Bap foi atrás dos responsáveis por "A Vaga" para saber mais sobre a feitura do single. Confira os depoimentos.

Ogi: Eu recebi umas 60 faixas do concurso, e a que mais se encaixou foi a do Zala. Senti o beat, fui bolando a levada e pronto, veio a frase do Mano Brown na minha cabeça. Ao mesmo tempo, eu passava por problemas pessoais, me questionava sobre tudo o que tava acontecendo. E a frase continuava ali: "A vaga tá lá, esperando você". Eu tava sem trampo, sem dinheiro e quase sem ter onde morar e me perguntava, 'será que tô no caminho certo?'. Procurava emprego e não achava nada, só porta na cara.

Comecei a letra baseado no que eu fazia quase todo dia; eu indo atrás de emprego, logo cedo, e dentro do ônibus eu imaginava: "Caraca, trampar o mês todo para ganhar R$ 500 é foda". Vários pensamentos negativos vinham à minha cabeça, e a frase do Brown continuava lá. Se eu cometesse um crime, poderia ir preso, e então teria uma vaga na cadeia; se eu descolasse um emprego, eu também teria uma vaga. Alguma vaga estava à minha espera, daí desenvolvi [ a faixa] conforme o que eu vivia: a angústia da busca por um emprego e a angústia do lado mais fácil, mas não menos obscuro.

Dizem para mim que eu deveria parar com a música e arrumar uma profissão de verdade. Mas a música é a minha profissão. Eu sou um rimador, um poeta, essa é a minha profissão. Então resolvi segui-la. Exercer de verdade, sem brincadeira, só sei fazer isso, só sou bom nisso. Se eu fosse trabalhar em um banco, iria desempenhar a função como o patrão me mandasse, mas não seria bom, seria um robô.

A gravação foi como sempre, me isolei, estava me sentindo bem. Foi num dia de um show no Espaço +Soma, em fevereiro. Abri o Nuendo e gravei. Levei as pistas no mesmo dia para o DJ Caíque, que está mixando e masterizando o disco, e ele pirou.

DJ Zala: Selecionei essa batida pelo nome do disco e pela história do Ogi. Acho o Ogi um emcee diferenciado, faz parte de um grupo de poucos. Contar, escrever uma história e fazer um rap não é para qualquer um, poucos têm esse dom. Ele descreve nessa faixa situações que com certeza todo mundo já vive ou viveu, e, para mim, música boa é isso: verdade.

DJ Caíque: Ainda não estou com todas as faixas do disco, mas tá ficando muito foda. As histórias vão se interligando, são bem detalhadas. "A Vaga" eu acho foda demais, é uma história bem contada, com riqueza de detalhes. Coisas que o Ogi faz sempre; ele consegue contar uma história e fazer você se sentir dentro dela. Isso é mágica (risos).

MutantJ (autor da arte do single): Conheci o Ogi por intermédio do DJ Caíque, que me convidou para um artwork, e acabei sendo adotado pela 360 Graus. Eu era muito afim de fazer algo para o Ogi e, sendo da mesma crew, a gente só se falou e rolou a oportunidade, foi naturalmente.

É meio difícil fazer um trampo com um cara que descreve tão bem as coisas como o Ogi, por isso escutei diversas vezes a faixa para pegar bem a vibração que ela passava. Comecei pela cidade, e tentei recriar uma imagem que lembrasse de São Paulo e do que a música passa, que é a trajetória que o Ogi desenvolve. Senti que a música tratava de escolhas que a gente toma no dia a dia, entre fazer o certo e o errado. Peguei uma foto de um caminho de túnel de SP, retratando a diferença de pontos da cidade, como objetivo, e dois caminhos levando, como escolhas. A partir disso fui montando o cenário, com uma parte mais urbana e outra mais suburbana. Tendo como temática o tema do álbum, "Crônicas da Cidade Cinza", deixei a cidade bem acinzentada.

Download de "A Vaga"

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Tradução: Gang Starr - ALONGWAYTOGO

Aqui vai minha singela homenagem à memória de Keith Elam, o Guru, que faleceu na última segunda-feira, aos 47 anos, vítima de câncer. A morte de Guru representa também o fim de um sonho cada vez mais improvável e, ironicamente ainda mais acalentado, dos fãs de verem uma reunião do Gang Starr, um dos grupos mais importantes da História do rap. Você pode ter informações completas sobre o falecimento do Guru no Central Hip-Hop.

"ALONGWAYTOGO" - assim, em maiúsculas mesmo -, é a primeira faixa de "Hard to Earn", o quarto disco do Gang Starr, não está exatamente na lista dos clássicos proporcionados por Guru e Premier, mas não deve em nada a nenhuma outra música do catálogo da dupla. A batida é pulsante, minimalista e as colagens com a famosa "Check The Rhime", do A Tribe Called Quest, encaixaram perfeitamente no tema abordado por Guru, um misto de crítica a rappers "vendidos" ou "perdidos" e filosofia de rua. Destaque para o uso sutil de termos relacionados à estrada do título que Guru utiliza para encorpar o conceito da faixa.

ALONGWAYTOGO - Uma longa estrada para ir

[ Sample : Phife Dawg, A Tribe Called Quest - Check The Rhime ]
Agora aqui está uma introdução funky

[ Refrão 1: Guru ]
É uma longa estrada para ir, quando você não sabe para onde está indo
você não sabe para onde está indo quando você está perdido

[ Verso I: Guru ]
O que você precisa é de mais direção, e conseguir alguma proteção para si mesmo
eu pensei que agora você já tinha aprendido a lição
estou enfatizando pontos e destruindo tudo aquilo que você chama de verdadeiro
correto, você sabe a forma falsa como você sente isso
baby, eu ainda não acho que você entenda
você perde o jogo, nós temos mais reconhecimento que Dan... Rather*
e não importa, porque, quando você reage, você é fraco
então eu vou chegar apenas para falar sobre os falsos, o tipo de pessoas ilegítimas
aquelas de celofane, aquelas que você pode ver através delas
é justiça poética porque eu estou louco com um pacto
tão preciso que meu pensamento vai pegar voo pela noite
e pelo dia, porque eu não venho com rimas bregas
eu sou muito devoto do conceito de conseguir o que é meu
então aqui está o acordo, como Shaquille O'Neal
se você não sabe o que está fazendo, como diabos você pode ser real?

[ Refrão 2: Q-Tip, A Tribe Called Quest - Check The Rhime ]
O quão longe você precisa ir para ganhar respeito?

[ Verso II : Guru ]
Agora em 1993, realisticamente você deveria estar bem consciente de todos os demônios lá fora
é tipo uma selva às vezes, pegou a mensagem?
você precisa lutar às vezes, está ficando complicado
emoções correm profundas, enquanto o tempo se esgota
soluções...é hora de encontrar algumas
então, de acordo comigo, otários são barrados
por obstruírem minha discussão porque eu rimo pesado demais
você toma um trago aqui, como uma brisa de ar fresco
eu vim para pegar o que é meu neste ano
então ande pela passarela, no corredor ou uma trilha
mexa conosco, criança, e você irá pagar
eu ataco...e, aí, ainda estou na estrada
eu mando meu ensaio, então você sabe que nós não brincamos
então ajoelhe-se e reze, G
porque é a melhor maneira, sim, a melhor maneira, porque...

[Refrão 1 ]

[ Refrão 2 ]

[ Verso III: Guru ]
Existe uma grande quantidade de crews fracas, para elas tenho más notícias
hora de pagar suas dívidas, seus otários
eu sou tipo correio expresso, com o script que atinge
como o terceiro trilho do trem**, quando eu eletrizo o local, é quente
dos raios do sol
o original, o profeta enviado para se tornar um fornecedor de leis, porque você treme quando te questiono
tudo sobre as verdadeiras necessidades da vida
tudo sobre o jogo e tudo sobre o nome
G para o A para o N para o G Starr
nós sabemos quem nós somos, mas você sabe quem você é?

[ Sample : Richard Pryor ]
Você vai até lá procurando por justiça, é isso que você encontra, apenas nós

[ Refrão 1 ]

[ Refrão 2 ]

* Dan Rather é um famoso jornalista e apresentador de telejornal norte-americano.

** Third Rail, ou terceiro trilho, segundo a Wikipedia, é onde fica o condutor elétrico de alta voltagem. Pisar ali resulta geralmente em eletrocução. Devido a isso, o termo também é usado como uma metáfora na política. Tópicos considerados tabu ou delicados demais são chamados de "third rail", porque, se um político tocar no assunto, pode ter sua carreira "eletrocutada", acabada.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Diabolic: Liar & a Thief

Ano: 2010
Gravadora: Viper Records
Produtor: Engineer (todas as faixas)
Participações: Immortal Technique (faixa 2), Deadly Hunta (3 e 14), John Otto (3), Ill Bill (6), Vinnie Paz (10), Nate Augustus (12), Canibus (13), Smooth da Hustla (18), Kool G Rap (18) e Graph (18).

Diabolic é um emcee nova-iorquino que começou a carreira no circuito de batalhas de freestyle da cidade, onde ficou bastante conhecido. Esse reconhecimento o levou a participar do projeto de estreia de Immortal Technique, "Revolutionary Volume 1", no qual ele contribuiu com um verso escondido após a clássica faixa "Dance with the Devil". Depois disso, o cara começou a correr atrás de sua carreira solo e ainda voltaria a aparecer junto com Tech na famosa "Peruvian Cocaine" - do segundo álbum do rapper peruano, "Revolutionary Volume 2" -, na qual ele interpretava o governante de um país do Terceiro Mundo. Anos depois, 'Bolic lança seu álbum de estreia, "Liar & a Thief", com participações de nomes como Ill Bill, Canibus, Vinnie Paz e, claro, seu antigo parceiro Immortal Technique.

Os dois últimos nomes citados, aliás, dizem bastante a respeito do conteúdo de "Liar & a Thief". Os fãs dos trabalhos do gordinho do Jedi Mind Tricks e do homem de frente da Viper Records certamente estarão familiarizados com o estilo de Diabolic. O cara tem características em comum com ambos os rappers. Vejamos: rimas tendencialmente violentas, um flerte bem discreto com o horrorcore e toda uma atitude meio white trash, todas perceptíveis em qualquer disco do JMT, estão presentes no trabalho de 'Bolic, assim como um forte cunho político e uma veia para teorias de conspiração tão presentes nas rimas de Immortal Technique.

Mesmo a produção tem sua influência clara. O canadense Engineer é o responsável por todos os beats do álbum, e provavelmente ouviu muito o trabalho de Stoupe antes de juntar seus primeiros bumbos e caixas. Como resultado, vemos um estilo de batidas bastante reminiscente do Jedi Mind Tricks - ouça a faixa bônus "Cursed" caso tenha alguma dúvida -, embora mais cru, diferente da exuberância de samples presente em Stoupe. Outra diferença marcante é a maior variedade de fontes onde Engineer busca as peças para confeccionar seu quebra-cabeças musical. "Riot" é uma faixa que exemplifica bem o leque de opções do cara: uma guitarra roqueira pontua o beat e um refrão ragga sintetiza as rimas políticas de Diabolic. No final das contas, é inegável que o trabalho do jovem canadense encaixou perfeitamente com o estilo do rapper.

Apesar da boa performance de Engineer, o ponto álbum do disco são as rimas certeiras de Diabolic. Absolutamente faminto, o cara não tem um único verso ruim durante o álbum inteiro. Para começo de conversa, ele é um emcee extremamente técnico, daqueles capazes de construir cadeias gigantescas de rimas multissilábicas como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Não bastasse a atenção nas estruturas, Diabolic tem punchlines para dar e vender. É impressionante a facilidade dele em fazer jogos de palavras e a capacidade de atrair a atenção do ouvinte. Para completar o pacote de emcee completo, o nova-iorquino transita tanto pelos tradicionais raps de batalha, com uma tranquilidade típica de quem passou anos se dedicando à arte, quanto por faixas mais conceituais ou com temas políticos. Não podemos esquecer também de uma forte dose de passagens introspectivas. Enfim, Diabolic tem tudo o que você precisa em termos de mensagem.

Em meio a tanta variedade, algumas faixas se destacam. A já citada "Riot" combina bem os elementos violência e política do arsenal de Diabolic com rimas como: "Eu tenho um sonho, e nele policiais sujos são baleados e jogados na prisão / e há uma bala na cabeça de cada político corrupto / (...) porque as pessoas não deveriam temer o governo, este é o problema / o governo que deveria temer o direito do povo de portar pistolas". Não satisfeito? Então conheça "Truth Pt. 2", na qual teorias de conspiração tomam conta dos versos do emcee, atacando desde o já desgastado George Bush até a maçonaria, passando pela CIA, pela FEMA até faculdades tradicionais norte-americanas, como Yale e Harvard. Ou então limite-se a balançar a cabeça enquanto 'Bolic e Vinnie Paz trocam versos carregados de braggadocio e rimas de batalha sobre a batida épica de "Not Again".

O fator pessoal nas rimas de Diabolic pode ser encontrado em faixas como a sugestivamente intitulada "Reasons", na qual o emcee rima sobre suas, adivinhem, razões para estar rimando ao mesmo tempo em que critica a indústria musical. "I Don't Wanna Rhyme" é outra canção que investe no lado mais introspectivo do rapper. Por fim, "12 Shots", que até apareceu no último Boom Bap Jams, representa a parte conceitual do disco. Na faixa, uma das melhores do disco, Diabolic narra em primeira pessoa a história de um homem que vai para o bar e começa a se embebedar, para, no final, se matar com um tiro. A abordagem de Diabolic é muito interessante, com momentos em que ele parece estar falando dele mesmo misturados a rimas muito detalhadas, descrevendo perfeitamente o estado mental do personagem. A batida de Engineer complementa perfeitamente o tema, como sempre, com um violão picotado guiando a batida, enquanto refrão cantado é bem emocionante.

Entretanto, nem tudo é digno de elogios. Às vezes, Diabolic exagera na dose de agressividade que tenta passar para o ouvinte. "Order & Chaos", por exemplo, começa com Ill Bill contando a história de um conhecido de infância super inteligente, requisitado pela Nasa, e que acaba recrutado pela CIA, só para dizer que armou para que Diabolic o matasse, sem motivo aparente. Os policiais também acabam sendo assunto excedente nas rimas de 'Bolic, talvez até mais que num disco do N.W.A. Por fim, soou muito forçada a conclusão do disco, em que o emcee diz para ninguém comprar o álbum - sério mesmo, cara? - e, se alguém adquirir, é melhor "matar a família com ele ou quebrá-lo e cortar os pulsos com ele". Se fosse realmente assim, por

Sobressaltos e exageros à parte, depois de pouco mais de uma hora de rimas complexas, flow agressivo e batidas no ponto, "Liar & a Thief" entra para o acervo de 2010 como um trabalho muito bem executado por um emcee extremamente talentoso e versátil. Diabolic provavelmente nunca sairá do underground, mas tem tudo o que é preciso para se tornar um fenômeno da cena, assim como seus parceiros Vinnie Paz e Immortal Technique. Até agora, a primeira aventura solo do rapper é o que de melhor o ano nos oferece em termos líricos.

Diabolic - Liar & a Thief
01 Stand By
02 Frontlines
03 Riot
04 Reasons

05 Soldier's Logic

06 Order & Chaos
07 I Don't Wanna Rhyme

08 Truth Part 2
09 Nikolas Ros to the Goul (Interlude)
10 Not Again
11 Loose Cannon

12 12 Shots
13 
In Common
14 Modern Day Future
15 Behind Bars

16 Right Here
17 Self Destruction (Outro)
18 Cursed

Vídeo de "I Don't Wanna Rhyme":


Vídeo de "Frontlines":

terça-feira, 13 de abril de 2010

Tradução: Ol' Dirty Bastard - Wastin Time

Depois da aparição no Boom Bap Jams IV, aqui vai a tradução de "Wastin' Time", uma das faixas mais emocionantes que já ouvi e que só ressalta o potencial enorme que o Ol'Dirty Bastard possuía e infelizmente não pôde desenvolver.

Ol'Dirty Bastard
Wastin' Time (No More) - Desperdiçando o tempo (não mais)

[ Verso I ]
Por favor, tire os cabos se as drogas estiverem vencendo
porque o vício vai continuar mantendo seu mundo girando
tempo desperdiçado, pensei sobre o vício com a família
é verdade que o dinheiro estava lá, a maconha estava lá
e eu pensei que o Wu estaria lá para sempre
tempo desperdiçado com putas, vaginas e roupas
eu sou o Don do dinheiro, é a vida que escolhi
as mães de nossos filhos são as piores, vadias nem mesmo funcionam
mas ainda assim a bolsa combina com seu chapéu e sua saia
então eu fugi sem motivos, desapareci por uns tempos
a sala pode estar cheia, mas, merda, é mais fácil
garotas bonitas me provocam, elas veem o vulgar em mim
mas eu vou continuar Dirty, exceto pela cobra
não vou mais gastar meu tempo com cocaína, não vou mais correr da polícia
não vou mais cometer erros, não vou mais desperdiçar meu tempo

[ Refrão ]
Você não vai mais cuspir na minha bebida, voce não vai mais me envenenar
vou subir bem alto, me sentir livre com o bandido dentro de mim
não vou mais correr e me esconder, desperdiçando o tempo
não vou mais provar de drogas, não vou mais me esquivar das balas
eu vou subir bem alto, me sentir livre com o bandido dentro de mim
não vou mais correr e me esconder, não vou mais correr e me esconder
não vou mais desperdiçar o tempo

[ Verso II ]
Eu ando numa trilha suja de dinheiro e drogas
Red Rose, você fica chapado quando eu exalo
saí de fiança porque o juiz prometeu que colocaria meu traseiro na prisão
a Costa Oeste não podia me esconder, o mundo é uma audiência
passaram os efeitos da droga, como com Martin Lawrence
me colocaram numa sala do lado da de Sarah Connor
mas o meu problema é muito maior do que qualquer Exterminador do Futuro
nenhuma visita da família, apenas cartas dos fãs
dizendo: "Dirt, mantenha sua cabeça erguida e não deixe-os te esfaquear"
The Roc me disse para assinar na linha pontilhada
"Bem vindo ao lar, Russell Jones, você estava desperdiçando seu tempo"
Badalei um pouco, um pouco de bling bling
agora toda barata nos buracos quer pular dentro do Acura
cada cara na frente precisa andar no banco de trás
você fica louco com um Ford, eu ando num Cadillac
você fica louco com um Ford, eu ando num Cadillac
por fim...

[ Refrão ]

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Boom Bap Jams IV

Acharam que tinha acabado, né? Pois depois de alguns meses sumido, o Boom Bap Jams volta com mais alguns sons que não saíram do MP3 Player avariado deste escriba.

Army of the Pharaohs - Bust'em In
Como o nosso amigo Campagnoli disse na resenha do disco, o AOTP não veio para brincadeiras no terceiro álbum do coletivo. A volta de Apathy e performances impecáveis de Celph Titled elevaram bastante a qualidade de "The Unholy Terror". E "Bust'em In" é o maior exemplo disso. A melhor faixa do disco é produzida por Celph e é arrebatadora, utilizando elementos de música clássica para trazer o terror. Junte isso aos malabarismos líricos de Reef the Lost Cauze, Ap - "Você quer samplear isto? Você precisa ler sânscrito / e viajar para o topo do Monte Sinai para transmitir / correndo pelo Mar Vermelho como um escravo fugitivo / segurando as paredes de água com minhas ondas sonoras" - e Celph e a um refrão que vai ficar na sua cabeça por muito tempo e você tem mais um clássico de 2010.

Murs & 9th Wonder - Asian Girl
A dupla se juntou novamente para lançar "Fornever" e não desapontou. Em "Asian Girl", aquela faixa que promete fazer bastante barulho e virar até hino, Murs faz o que sabe melhor , rimando as desventuras com o sexo oposto - no caso, as asiáticas do sexo oposto, as homenageadas da canção. E o emcee ainda ganha uma companhia: 9thmatic, a versão rapper de 9th Wonder, que praticamente ignora o assunto da faixa no seu verso. A batida é simples, usa sugestivamente um sample oriental para ilustrar o tema, e a bateria mantém a estética boom-bap de 9th.

Reflection Eternal - In This World
Talib Kweli e Hi-Tek estão prestes a retornar como Reflection Eternal ao jogo depois de quase uma década do lançamento do primeiro álbum. "In This World" é um dos singles de "Revolutions per Minute", que deve sair em maio, já conta com um vídeo e é basicamente a constatação de Talib de tudo o que os caras alcançaram nestes últimos anos. Para ilustrar o ponto da faixa, Hi-Tek sampleia a famosa frase de Jay-Z - "Se habilidade vendesse, verdade seja dita / eu seria provavelmente um Talib Kweli, liricamente" - e Talib, demonstrando o entrosamento que sempre marcou a dupla, arremata: "Eu sou respeitado pelos melhores emcees / a receita para o meu sucesso? / uma parte de dor e sofrimento, duas partes de cérebro e correria / tudo misturado com a produção do Hi-Tek". E pode acreditar: só os samples vocais e os graves do beat de Hi-Tek são suficientes para abrilhantar ainda mais a faixa.

Gang Starr - Royalty
Nem só de lançamentos vive o escriba de um blog sobre rap. Os problemas de saúde de Guru me fizeram revisitar toda a discografia do grupo e perceber novamente como eles eram bons. Continuo achando que, apesar de ter boas letras, Guru deixava a desejar um pouco com seu flow nos primeiros álbuns. Mas, em "Moment of Truth", tudo se encaixou perfeitamente. E "Royalty", o single de maior sucesso do disco, é emblemática. Já imaginou os cantores K-Ci e JoJo sobre uma batida de Premier? Pois é, eles cantam o refrão baba da faixa, Primo faz sua parte com um beat esplendoroso, mas é Guru quem brilha com rimas sensacionais, discorrendo numa só música sobre dinheiro, filosofia Five Percenter, mulheres interesseiras e ainda mandando um salve para alguns DJs: "O dinheiro, entretanto, faz as pessoas agirem engraçadas / assim que ganham alguma luz, parecem uns estúpidos / (...) Onde você estiver, Baby Pah, perceba que sua essência é divina / e deixe-a brilhar / enquanto nós refinamos / (...) As meninas aí fora parecem amáveis / mas não tem controle de suas vidas, por dentro são feias".

Diabolic - 12 Shots
Eu conheci o Diabolic via Immortal Technique, na famosa faixa "Peruvian Cocaine", na qual D interpretava o governante de um país de Terceiro Mundo. Confesso que não me impressionei muito por ele e o perdi de vista. Eis que neste ano o cara lança seu álbum de estreia, "Liar and a Thief" e prova que tinha alguma coisa errada com o meu ouvido. Ele é aquele emcee super técnico, capaz de soltar milhões de punchlines e rimas multissilábicas e fazer tudo parecer fácil. Em "12 Shots", porém, a gente pode ver outra faceta do estilo de Diabolic. Nesta faixa conceitual, o rapper fala sobre alcoolismo, narrando em primeira pessoa uma noite num bar, onde ele começa a beber, até ficar completamente bêbado, melancólico e se matar. O conceito é meio parecido com uma faixa do MV Bill, "Loira Gelada", mas Diabolic investe mais no psicológico do personagem, relatando bem o começo sóbrio e triste, o estágio mediano mais "alegre" e o final sem esperança: "Pensamentos como 'eu me odeio hoje em dia' estavam correndo / estou realmente falido e minha filha está a quilômetros daqui / (...) Eu sou um meio otário, um pai pela metade, um rapper pela metade / e metade do tempo sou apenas um bêbado bastardo".

Ol' Dirty Bastard - Wastin' Time (No More)
É impressionante como a morte de certos artistas pode te impactar como se fosse o falecimento de um parente próximo. No caso de alguns deles, você é tão envolvido com a música deles que eles já se transformaram em amigos íntimos. Quando ODB morreu eu ainda não conhecia muita coisa sobre rap, portanto não mensurei na época o tamanho do baque. Mas, hoje em dia, como fã ardoroso do Wu e do Dirt Dog, descobrir uma faixa como "Wastin' Time" é um choque imenso. Na faixa, provavelmente uma das últimas a serem gravadas por ODB, o cara faz um mea-culpa, promete a si mesmo - e a quem ouve a música - que não vai sucumbir às drogas nem desperdiçar seu tempo. É, sem dúvidas, uma das canções mais emocionantes que já ouvi, porque traz o próprio rapper falando sobre isso, quando por toda sua carreira o comum era outras pessoas falarem sobre este problema. Para adicionar mais dramaticidade, ele morre pouco tempo depois. "Wastin' Time", portanto, é a versão de ODB para sua própria vida, a prova de que, sim, ele queria se recuperar, mas era tarde demais.

Animalistc - Animalistic
O duo holandês Animalistic lançou neste ano o álbum gratuito "Fauna", que consiste num dos melhores trabalhos do ano. O disco é repleto de batidas à la anos 90, com batidas retas e samples de jazz. "Animalistic" é uma das faixas que exemplifica a abordagem dos caras. Com uma bateria simples, sem muita frescura, um baixo potente e um loop de piano discreto, está pronto o background perfeito para os caras rimarem num inglês cheio de sotaque que dificulta bastante o entendimento das rimas. Mas não importa, o refrão é contagiante e só o instrumental é suficiente para fazer qualquer um balançar a cabeça.

Mekolicious - The Youth
Pete Rock sempre teve uma queda por produzir nomes obscuros da cena underground de Nova Iorque. Depois de Deda e dos caras do InI, ele se juntou a Mekolicious, que chegou inclusive a ter destaque em publicações norte-americana, mas também sumiu. Os trabalhos do Soul Brother #1 com Mekolicious foram lançados apenas em vinil e são raríssimos, mas é possível achar pela internet versões ripadas do rádio. "The Youth" é uma deles e, apesar da qualidade ruim do áudio, é possível apreciar a produção sempre elegante de Pete Rock, com elementos de jazz e bateria sempre vigorosa.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Damu The Fudgemunk: How It Should Sound Promo EP

Ano: 2010
Gravadora: Redefinition Records
Produtor: Damu The Fudgemunk

Este ano promete ser muito bom para o beatmaker de Washington Damu The Fudgemunk - e para seus fãs também, claro. O cara, depois de passar 2009 soltando faixas esporádicas de qualidade assombrosa e finalizar com um EP igualmente monstruoso, o "Kilawatt V1", anunciou no seu blog uma série de lançamentos que devem ver a luz do dia por todo 2010. A lista vai desde dois discos do Y Society - formado por Damu e o emcee Insight - até projetos instrumentais. O primeiro "filho" é o álbum duplo "How It Should Sound", que também será todo instrumental. Para esquentar as coisas até o lançamento, Damu disponibilizou, de graça, um EP promocional.

Com seis faixas, o "Promo EP" serve realmente como um teaser e até uma forma diferente de publicidade para o projeto maior que está por vir ainda em abril. O primeiro instrumental, "New LP", aliás, é bastante direto, com Damu cortando e colando frases como "novo LP" e "pegue o álbum", esta última num sentido muito mais "compre" do que "baixe", obviamente. Ainda somos agraciados com Damu em pessoa introduzindo a ideia do projeto, explicando que as batidas são novas para nós, mas velhas para ele, e, claro, encorajando o fã a comprar o disco. Embora rappers e produtores façam isso o tempo inteiro, não lembro de uma abordagem tão entranhada na música desde os versos de Phife Dawg, do A Tribe Called Quest, na clássica "Jazz (We've Got)": "Então corra para a loja e compre o LP / pela Jive/RCA, fitas cassetes e CDs". Fica aí uma sugestão para um eventual segundo EP promocional - seria uma bela colagem, hein?

Deixando de lado o lado promocional e focando na música, as batidas de Damu continuam impecáveis. Todo texto que escrevo sobre ele eu falo a mesma coisa, mas não posso me furtar: o cara é, na minha humilde opinião, o melhor produtor desta nova geração. Seus beats carregam aquela aura da golden age irresistível a qualquer fã de rap, mas não soam datados, e sim atuais. Na verdade, é melhor esquecer esta história de old school, o ponto não é esse. A questão é que o trabalho de Damu é claramente sincero e apaixonado, como eram, coincidentemente, vejam só, as boas coisas dos anos 90.

Entretanto, não podemos negar que as influências de Damu residem na Nova Iorque soturna daqueles tempos. Pete Rock, por exemplo, vai se orgulhar ao ouvir os metais sampleados por Damu em faixas como "Judgement Day" e "You Know Who!". Esta última, aliás, é velha conhecida por quem segue o trabalho do Fudgemunk, já que encorpou um remix feito pelo cara da faixa "Who Run It?", do O.C. - aliás, fica a dica para correr atrás, porque a faixa é espetacular. Aqui, solitário, sem quaisquer rimas, o instrumental continua impecável. O andamento acelerado da batida, o baixo proeminente e os samples cortados estão meticulosamente programados, trabalhando em conjunto tão perfeitamente quanto o próprio corpo humano. Ora ficamos apenas com o baixo, ora entram os metais, depois os samples, e então todos juntos. Sensacional.

Damu mostra também outros estilos de produção. Em "Fabrega's Discotecas", ele deixa de lado as batidas retas nova-iorquinas para apostar em mais suíngue, abusando de elementos de percussão e brincando com os samples cortados, numa faixa em que é difícil imaginar um emcee rimando sobre ela. Já "Wonka Beat 3" mostra o beatmaker enveredando ainda mais para o lado instrumental, criando batidas que se sustentem sem qualquer voz. O modus operandi é simples: ele solta a batida e começa os trabalhos na pick-up, enquanto os samples já programados vão e vem.

Depois destas seis faixas, é justo dizer que Damu continua em grande fase, e que a expectativa para "How It Should Sound" continua alta. O cara simplesmente não lança um beat fraco, o que nos permite supor que esta consistência também estará presente no álbum duplo. Entretanto, se o EP promocional é realmente um indicativo do que está por vir, penso que aspirantes a emcees podem não se empolgar muito: em vez de batidas espetaculares para eles rimarem em cima, teremos mais instrumentais independentes. No mínimo, terão que se esforçar mais. Já eu, que sou apenas um fã do trabalho de Damu, continuarei satisfeito - já estou imaginando formas de evitar ficar balançando a cabeça no metrô lotado sem parecer um maluco.

Damu The Fudgemunk - How It Should Sound Promo EP
01. New LP (EP Intro)
02. Judgement Day
03. Fabrega's Discotecas
04. You Know Who!
05. Bills Be Gone
06. Wonka Beats 3

Download

Vídeo promocional de "How It Should Sound":


Segundo vídeo promocional de "How It Should Sound":

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Method Man: Tical

Ano: 1994
Gravadora: Def Jam
Produtores: RZA (todas as faixas), 4th Disciple (7), Method Man (9).
Participaçoes: Booster (faixa 3), Streetlife (4 e 11), Raekwon (6), Blue Raspberry (8, 11 e 12), Carlton Fisk (9 e 11).

Ok, o "Wu-Massacre" vazou antes do especial terminar, mas não é por isso que vamos abandoná-lo, certo? Pois bem. Depois de "Supreme Clientele", o clássico de Ghostface Killah, chegou a vez do Boom Bap apresentar "Tical", o álbum de estreia e melhor item do catálogo solo do Method Man. O disco foi o primeiro a sair na leva de projetos solos que os membros do Wu-Tang Clan lançaram logo após o sucesso do álbum do grupo. E não foi por acaso que o ataque começou com o Mr. Meth. É que, desde "Enter the Wu-Tang" e a faixa solo "Method Man", o cara já era preparado como a estrela da turma, aquele com o maior potencial de atingir audiências do mainstream - o que ficou comprovado anos depois, com filmes, sitcoms e álbuns de qualidade duvidosa proporcionadas pelo Iron Lungs.

Voltando a "Tical", o disco, apesar de ser o melhor da carreira solo de Meth, é provavelmente o mais "humilde", comparado a obras-primas como os projetos lançados pelos parceiros GZA e Raekwon. Por outro lado, apesar do potencial crossover do rapper, o que podemos perceber é que o álbum contém os beats mais minimalistas e sujos oferecidos por RZA. Algumas curiosidades sobre a feitura de "Tical": uma enchente no estúdio do grupo acabou com todos os beats já feitos para o álbum, o que obrigou RZA e Meth, pressionados pela gravadora para cumprirem o prazo de lançamento e não perder o buzz do grupo, a refazerem todo o disco em tempo recorde; desesperados com o clima soturno do projeto, os executivos da Def Jam viram em "All I Need" a chance de um single para o rádio, e ofereceram a Meth um carro em troca da participação de Mary J Blige em um remix produzido por Puff Daddy. Depois de muito relutar, Method Man capitulou, com uma condição: haveria também o remix de RZA. Fim da história: foi o Razor Sharp remix que explodiu e garantiu certificado de platina e um Grammy para Meth.

Aliás, "Tical" é cheio de pequenas histórias curiosas que ajudam inclusive a entender o modus operandi do Wu no começo da carreira. Uma das faixas mais memoráveis do disco, "Meth vs Chef", reeditada recentemente em "Wu-Massacre", é nada mais nada menos do que uma disputa entre Method Man e Raekwon pelo beat que mais tarde aparecia no disco de Rae como "Guillotine [Swordz]". O expediente era usado constantemente pelo então ditador RZA para decidir quais membros ficariam com quais batidas.

Depois de todo este background histórico, foco no álbum. A atitude "não estou nem aí, faço o que eu quiser" que consagrou o Wu fica muito evidente também com Method Man. Mesmo estando numa grande gravadora como a Def Jam, o cara não se rendeu a fórmulas para vender. Os beats são incrivelmente soturnos e pesados, com Meth rimando igualmente sem concessões, com um battle rap afiadíssimo, concentrado em pintar imagens violentas e homenagear a sua tão amada cannabis. Mas o ápice desta postura é "Release Yo'Delf". Quem mais além de Meth e RZA para parodiar no refrão o hino disco e posteriormente gay "I Will Survive" e fazer disso ameaçador? Quem mais além deles para pegar o tal refrão e transformá-lo em um misto de autoexaltação e ameaças à indústria musical, tão bem representada pela Def Jam? Quem mais poderia colocar caixas tão pesadas e ainda assim fazer da faixa um potencial hit? Ninguém, amigos, ninguém. Vejam o refrão:

"Quando eu apareci na cena, os caras ficaram petrificados
voltaram correndo para o estúdio como se estivessem sendo procurados por homicídio
minha levada faz contigo o mesmo que a Tical, e nunca te guiará errado
e todos vocês, vacilões da indústria, suas carreiras não vão durar muito"

Os outros dois singles também têm em comum esta independência criativa. "Bring The Pain" surge com o flow característico de Meth enquanto o mesmo exercita suas habilidades líricas sobre um beat com uma espécie de murmúrio no fundo e um refrão ragga, este último responsável pelo único fator radiofônico da faixa; "All I Need", a versão original, tem as mesmas letras, mas nenhuma cantora no refrão e uma batida ainda mais rasteira.

E, se os singles resumem bem a proposta de "Tical", é necessário mergulhar nas outras faixas para completar o quebra-cabeça. A exataltação à maconha, já implícita no título do álbum, fica ainda mais evidente na faixa homônima, que abre o CD. À parte o refrão pedindo "passe [ o baseado] para cá", repare no flow mais lento e na autoconfiança das rimas de Meth - "Eu não procuro por problemas, eu já sou o problema" - como referências mais sutis à musa inspiradora. Outra característica de Method é evidente no disco. Apesar de vir de um grupo com temáticas violentas, Meth sempre primou por saber misturar estas referências a sacadas carismáticas e engraçadas. E há linhas que comprovam isso por todo o álbum, como em "Biscuits": "Você está pronto para encarar as consequências e sofrer? / Eu digo até para a sua mãe que você não é nada".

Como em todo grande disco, "Tical" também esconde algumas joias por trás dos sucessos. "Mr. Sandman" é uma delas, sendo a única posse cut do álbum. Com uma participação primorosa de Blue Raspberry no refrão e nos adlibs, Meth se junta a RZA, Inspectah Deck e aos protegidos Streelife e Carlton Fisk, se arrisca na cantoria e torca versos de altíssimo nível sobre uma batida que representa bem o tal som característico do Wu. Engraçado notar que, ao contrário da cartilha rezada na época pelos membros do grupo, "Tical" não conta com a participação de todos os generais, talvez como uma estratégia para catapultar Method Man ainda mais para o estrelato. "Sub Crazy" é outra faixa digna de nota, pois é nela que RZA põe em prática seus experimentos, sampleando trilhas sonoras dos filmes de kung fu e abdicando de caixas para criar um som turvo, quase cinematográfico.

Mas a grande estrela é mesmo Method Man. O cara reeditou em sua primeira aventura solo todas as qualidades que mostrara na estreia do Wu, com uma levada impressionante que marcaria sua carreira, e um carisma que mais tarde o transformaria numa estrela além-rap. Em "Tical", ainda como o membro mais carismático do Wu, ele criou um disco que, apesar de ter ficado conhecido pelos singles, tem ainda mais substância nos seus confins, o que não deixa de ser uma metáfora moderna para o próprio estado do rap.

Method Man - Tical
01 : Tical
02 : Biscuits
03 : Bring The Pain
04 : All I Need
05 : What The Blood Clot
06 : Meth Vs. Chef
07 : Sub Crazy
08 : Release Yo' Delf
09 : P.L.O. Style
10 : I Get My Thang In Action
11 : Mr. Sandman
12 : Stimulation
13 : Method Man Remix

Vídeo de "Bring The Pain":


Vídeo de "Release Yo' Delf":


Vídeo de "You're All I Need To Get By":

terça-feira, 30 de março de 2010

Army of the Pharaohs: The Unholy Terror

* Por Eduardo Campagnoli
Ano:
2010
Gravadora: Enemy Soil / Babygrande
Produtores: Crown (1, 11), Aktone (2), Celph Titled (3), Undefined Beats (4), Grand Finale (5), Vanderslice (6, 10), DC the Midi Alien (7), MTK (8), JBL the Titan (9), DJ Kwestion (12, 16), Triple Z (13), Hypnotist Beats (14), Apathy (15).

Pela primeira vez no Boom Bap, outro escriba tem licença para publicar seu texto. O "felizardo" é o Eduardo Campagnoli, de Petrópolis, no Rio de Janeiro, fã de Jedi Mind Tricks, La Coka Nostra e Army of the Pharaohs, além de visitante assíduo do blog desde que ele era lido só pela minha namorada e a minha mãe. Portanto, o Campagnoli é habilitadíssimo para falar aqui sobre o novo álbum do AOTP. Deem uma moral para o garoto.

Na Filadélfia, numa noite fria e mais escura do que nunca, os militares faraônicos reúnem-se, depois de Torturarem com Papel e de formarem um Ritual de Batalha.

- Muito bem, antes de qualquer coisa, gostaria de apresentar-me aos senhores aqui presentes: sou o general principal Vinnie Paz. Preciso avisar a quem ainda não me conhece que estou sempre com muita raiva, sou bastante agressivo e sou eu quem dá as regras por aqui, E, meus amigos, este não é um exército comum. Aqui temos um estilo próprio; somos um exército, não de homens normais, mas de faraós, faraós munidos de microfones prontos para matar qualquer um. Bem, também gostaria de avisar que, a partir deste ano que começa, temos a incorporação de mais uma força no que diz respeito ao financiamento de nossos projetos; além da Babygrande, a Enemy Soil Records também está junto conosco. Hoje é uma noite sombria e tensa, um terror nada sagrado, e é por isso que peço que não se assustem, soldados, pois ainda temos muito a apresentar, como os novatos, as produções, o armamento que será utilizado, etc, etc, etc. Por ora, deixo com a palavra o tenente e braço direito, Celph Titled.

- Boa noite, seus imbecis. Como o general Vinnie já disse, o ódio e a hostilidade aqui são presentes e o Fogo de Agonia está prestes a queimar qualquer idiota que não seguir as regras. E ei-las: nada de pederastia, choramingo e fraqueza. Temos que ser fortes, e quando essa força não for suficiente, junte-se a mais faraós, para formarem um verdadeiro Godzilla de rimas destruidoras. Ah, mais uma coisa. Quero deixar-lhes a par do projeto Bust Em In, de produção minha, que contém colaboração dos também tenentes Reef The Lost Cauze e Apathy, no qual o principal objetivo é mostrar quem somos e como podemos estraçalhar cabeças, com punchlines, braggadocios e levadas perfeitas sobre o campo de batalha de uma batida explosiva muito bem produzida por mim, sem modéstia, mesmo. Recado dado, deixo a palavra de novo com o general Vinnie.

- Certo, sentiram como é o clima por aqui. E acho que é hora de ver do que nossos novatos são capazes. Vejamos... cabo Journalist... nada mal. Próximo... cabo Block Mccloud, o que sabe fazer?

Block levanta-se e começa cantarolar:
- This is the night I’m...
- Que porra é essa? Qual é seu problema? Nada de Auto-Tune, por favor. Isso é mais annoying, irritante, do que o oficial Demonz foi em 2007. Como o tenente Celph já avisou, nada de pederastia por aqui. Teremos que lhe queimar vivo, ou te jogar para a besta Jus Allah lhe engolir vivo, pra ver se aprende a lição. Mas continue conosco, você tem potencial.

E prossegue o general Vinnie.

- Que o que esse cabo acabou de fazer aqui sirva de lição para os outros, ok? As regras são claras. Tudo precisa ser cru, raw, como dizem por aí. Se não se acharem capazes de causar o efeito desejado, juntem-se a alguém ou planejem algum projeto próprio. Celph já falou de seu projeto; digo-lhes aqui outro que produziu algo: Apathy compôs um belo exemplo de como algo fora dos nossos padrões de agressividade pode funcionar; Suicide Girl é calmante para este inferno de guerra em que vivemos. Apathy se sai muito bem. Agora, se não é esse o seu caso, você pode fazer como faz Reef, que cospe coisas relevantíssimas ao jogo, em Cookin Keys, por cima da minuciosa batida de um de nossos produtores, DJ Kwestion. Outros que estão em evidência nas produções são JBL the Titan, em Spaz Out, e Undefined Beats, em Prisoner. Apesar deste útimo usar mesmos elementos de exércitos paralelos ao nosso, faz um belo trabalho.

E, encerrando o discurso, como um Ultimatum, o general Vinnie completa.

- Bem, senhores, temos aqui um grande exército, com pouco espaço para todos brilharem. Mas a cada aparição de um militar faraó, sinto que há uma mesma sintonia e que estamos prontos para desbancar muitos por aí, com toda nossa artilharia pesada. É uma pena não termos nesse ano um de nossos primeiros recrutas, Chief Kamachi, que faz muita falta, mas talvez justifique sua ausência por conta de seu “Clock of Detiny”. Acho que pra fechar a noite, uma metáfora do Celph Titled, em Spaz Out, resume bem como somos: “Quando estou cozinhando algo fresco, vocês todos estão reesquentando pizza”, ou seja, vamos sempre inovar, enquanto os outros estarão buscando jeitos antiquados de fazer batalhas de microfones. Vamos à guerra!

Army Of The Pharaohs - The Unholy Terror
01. Agony Fires
02. Ripped To Shreds
03. Bust Em In
04. Prisoner
05. Godzilla
06. Suplex
07. Contra Mantra
08. Drenched In Blood
09. Spaz Out
10. 44 Magum
11. Dead Shall Rise
12. Cookin Keys
13. Burn You Alive
14. Hollow Points
15. Suicide Girl
16. The Ultimatum

domingo, 28 de março de 2010

Meth, Ghost & Rae: Wu-Massacre

Ano: 2010
Gravadora: Def Jam
Produtores: BT (faixa 1), Allah Mathematics (2, 7 e 10), Ty Fyffe (4), RZA (5), Digem Trax Productions (6), E Meal (8) e Scram Jones (11 e 12).
Participações: Solomon Childs (4), Streetlife (4), Inspectah Deck (6), Sun God (6), Tracy Morgan (9), Trife da God (11), Sheek Louch (11) e Bully (11).

Continuando a sequência de novos trabalhos do Wu-Tang Clan, três dos nove membros originais do grupo resolveram se juntar num projeto colaborativo. A ideia dos caras de lançar algo paralelo ao Wu é reminiscente daquela pequena rebelião orquestrada logo depois do lançamento do último álbum do Wu, "8 Diagrams", cuja produção foi alvo de críticas por parte de Raekwon e Ghostface Killah. Na época, o primeiro anunciara que faria um álbum com o tipo certo de batidas que se chamaria "Shaolin vs Wu-Tang". Pouco mais de dois anos depois, surge "Wu-Massacre", uma colaboração entre os dois revoltados e Method Man. Os emcees, porém, negaram que o disco tenha algo a ver com a proposta de antes.

Entretanto, não espere muita coisa relacionada ao Wu. A presença maciça de outros membros, algo comum nos trabalhos entre eles, não acontece aqui - apenas Inspectah Deck contribui com um verso - e a participação de RZA se resume a apenas um beat. Method Man, Raekwon e Ghostface claramente dominam os holofotes, particularmente o último, corroborando sua posição atual como membro mais expressivo do Wu na indústria. Ghost é o único a ter uma faixa solo e é o que mais aparece durante o disco. "Wu-Massacre", aliás, saiu pela Def Jam, onde Tony Starks e Meth atualmente militam - o que talvez possa explicar a menor assiduidade de Raekwon, presente em apenas quatro faixas e que ainda teve um verso cortado na faixa de abertura, "Criminology 2.5".

Mas, justiça seja feita, Ghostface rouba a cena. Seu storytelling está impecável como sempre, como pode ser visto em "Pimpin' Chipp", um conto entre um cafetão e sua "funcionária" mais eficaz. Os versos de Ghost induzem facilmente a mentalização da cena que ele descreve. O instrumental ainda ajuda o ouvinte a se teletransportar para os acontecimentos, graças a um loop que parece ter saído direto da trilha sonora de algum filme blaxpoitation obscuro. As primeiras linhas de Ghost fazem o resto do trabalho:

"Uma agulha foi deixada pendurada no braço de um cafetão
ele anda com uma cafetina e tem vadias na lista de pagamento
dava doces às crianças e sua família era pobre
(...)Devagar, ele crescia, mantinha os seus batedores com a polícia
Jim Brown era seu amigo, seu irmão era muçulmano, eles tentaram convertê-lo
torná-lo justo, mas as ruas tiraram o que tinha de bom dele"

As habilidades descritivas de Ghost também podem ser conferidas em "Youngtown Heist", narração de uma tentativa de assalto em que ele troca versos com o protegido Trife da God e os parceiros Sheek Louch e Bully.

Embora Ghostface seja um dos maiores destaques de "Wu-Massacre", é injusto não falar das outras duas estrelas. Raekwon aparece pouco, mas é consistente, como sempre, com um lirismo que evolui cada vez mais e, de tão complexo, parece simples e passa despercebido pelo ouvinte mais desatento. Seu verso em "Our Dreams" é um bom exemplo. Rae usa todas as influências principais do Wu - filosofia Five Percenter, xadrez, kung fu e as ruas - para estruturar suas rimas:

"Uma doce Wiz* te dará uma noite doce
e relaxe com os peões que temos, porque a vida é um tabuleiro de xadrez
é melhor você ter sua espada e segurá-la
nunca odeie seus inimigos, porque isso afeta o julgamento
eles só te invejam se souberem que você está ganhando bastante dinheiro"

Já Method Man também mantém a consistência, mas por vezes rouba o show com performances espetaculares. Com uma das levadas mais originais e fáceis de identificar da História do rap, ele brilha ao mesclar espanhol e inglês em "Miranda" e ao contar as idas e vindas de um relacionamento em "Our Dreams", coincidentemente as duas faixas cujo tema gira em torno de mulheres. Mas é na segunda parte da clássica "Meth vs Chef" que ambos os rappers arrancam um sorriso de todo fã do Wu. Na humilde opinião deste escriba, Meth vence a batalha, a exemplo da primeira vez, num pequeno verso que mistura desilusão com a indústria do rap, referência ao falecido Ol'Dirty Bastard e a já conhecida exaltação à cannabis:

"Aí, foda-se você, me pague; se Dirt Dog pudesse me ver agora
ele provavelmente diria: "Foda-se você, me pague"
expulsando nuvens de fumaça, a parada é doida
coloque uma bandana na cabeça, fique estiloso
o rap não tem feito nada por mim ultimamente
tudo está completamente errado, este jogo tentando me enganar
eu aposto que isso nunca acontece com o Jay-Z"

Musicalmente, "Wu-Massacre" tem batidas para todos os gostos. A primeira indicação de que o projeto não tem muito a ver com o tal "Shaolin vs Wu-Tang" de antes é que o primeiro single é a radiofônica "Our Dreams", curiosamente produzida por RZA. Utilizando um sample de "We Almost There", de Michael Jackson, o Abbott cria um instrumental bem baba, no ponto para os três generais rimarem sobre e para mulheres. No extremo oposto, "Meth vs Chef Part II" é minimalista, com metais triunfantes e uma virada de bateria espetacular, cortesia de Mathematics. No meio desta dicotomia, há o remake "Criminology 2.5", a mal sucedida futurista "It's That Wu Shit" e o batidão turvo de "Youngtown Heist", cujo sample vocal é sensacional.

Não dá, porém, para dizer que, pela variedade, o disco não tem uma direção definida. No fim das contas, a produção, embora haja contribuições de diversos beatmakers, é bem amarrada e flui muito bem nos escassos 30 minutos de música de "Wu-Massacre". Se, por um lado, os batidões mais ignorantes que consagraram o Wu não aparecem, é possível identificar uma tentativa de atualizar esta sonoridade. Resumindo, são poucos os percalços nas batidas; "It's That Wu Shit", apesar do nome, é o maior deles, e "Our Dreams", mesmo não sendo o beat de RZA, vai garantir a Meth, Ghost e Rae espaço ostensivo nas rádios.

Outro ponto importante são as participações. Dois dos convidados são emcees relacionados ao Wu, e são eles os responsáveis pelos melhores momentos no microfone. Streetlife rouba a cena em "Smooth Sailing Remix", com um verso que homenageia todos os membros originais do Wu-Tang numa técnica parecida com a utilizada por GZA em "Labels" e "Fame", por exemplo. Já Sun God absolutamente domina a batida de "Gunshowers", com um flow impecável, deixando o pobre beat em pedaços.

Embora não tenha sido um grande álbum como alguns fãs teimosos e iludidos do Wu - eu, por exemplo - imaginavam, "Wu-Massacre" serve muito bem para manter o nome do grupo em evidência. Meth, Ghost e Rae criaram um disco de qualidade e carregaram a tocha da existência do Wu que antes estava nas mãos solitárias de Raekwon com a sequência de "Only Built 4 Cuban Linx". Apesar de ter apenas 30 minutos - um dos principais problemas do projeto -, o álbum traz o trio de veteranos em uma forma consistente e fazendo o que sabem: levadas afiadas, rimas de alto nível e bons beats. Esperemos o próximo movimento das peças deste tabuleiro chamado Wu-Tang Clan.

*Wiz é uma abreviação de Wisdom, ou sabedoria, em português. Na filosofia Five Percenter, a mulher é relacionada à sabedoria.

Meth, Ghost & Rae - Wu-Massacre
1. Criminology 2.5
2. Mef vs. Chef Part II
3. Ya Moms skit
4. Smooth Sailing Remix
5. Our Dreams
6. Gunshowers
7. Dangerous
8. Pimpin’ Chipp
9. How To Pay Rent skit
10. Miranda
11. Youngstown Heist
12. It’s That Wu Shit

Vídeo de "Our Dreams":

quinta-feira, 25 de março de 2010

Marco Polo & Ruste Juxx: The Exxecution

Ano: 2010
Gravadora: Duck Down
Produtor: Marco Polo (todas as faixas)
Participações: DJ Revolution (faixas 1 e 2), Rock (4), Freddie Foxxx (4), Black Moon (6) e Sean Price (1o).

Inicialmente casa de toda a Boot Camp Click, a Duck Down Records completa neste ano 15 anos estabelecida como uma das gravadoras mais importantes do cenário independente dos EUA. Além das pratas da casa Buckshot, Sean Price e Rock, entre outros, os caras estenderam seus tentáculos e trouxeram para o time nomes sonantes como KRS-One, a dupla Kidz In The Hall, 9th Wonder e Skyzoo. Mas o selo também não deixou de apostar em novos talentos, na segunda geração de artistas garimpados nas ruas do Brooklyn direto para os estúdios. O emcee Ruste Juxx, protegido de Sean Price, é o maior exemplo, já tendo aparecido em diversos trabalhos lançados por rappers da label.

Mesmo antes de lançar seu primeiro álbum no ano passado sob a benção de Sean Price, Juxx já era conhecido pelos fãs da Duck Down pela energia e as rimas agressivas com que recheava cada participação. Para 2010, ele encontrou o parceiro perfeito para mais um disco: Marco Polo. O produtor canadense já havia lançado em meados de 2009 "Double Barrel", uma parceria com o rapper Torae destinada a trazer de volta aquele rap hardcore das ruas nova-iorquinas. Sendo assim, a união entre o beatmaker provedor de batidas fortes e o jovem emcee faminto por mostrar seu valor foi mais do que oportuna, e resultou em "The Exxecution".

A proposta do álbum é muito parecida com a de "Double Barrel": rap pesado, rimas de batalha e batidas hostis. Como diz o próprio release dos caras, Marco Polo está executando os produtores, enquanto Ruste Juxx faz o mesmo com os emcees. Já dá para termos uma ideia da atmosfera do trabalho, né? Pois bem, similaridades à parte com "Double Barrel", o fato é que Juxx é um rapper com características diferentes das de Torae. Enquanto este apostava em uma abordagem mais técnica, Juxx vai direto na jugular, demonstrando uma presença de microfone impressionante, metaforicamente domando as batidas de Marco Polo na força, na energia.

A verdade é que Ruste é aquele típico rapper no começo da carreira que conseguiu sua primeira chance de brilhar. Obviamente, ele não vai querer desperdiçar o momento e vai aproveitar suas maiores habilidades. Assim, os temas realmente ficam limitados aos battle raps e ao bragadoccio, se diferenciando apenas pelo ângulo que Juxx utiliza para provar seu ponto de vista de que ninguém nas ruas rima tão bem quanto ele e que uma execução em massa está para começar. "Nobody" é um bom exemplo do primeiro tópico, enquanto "Death Penalty" ilustra o segundo. Apenas na saideira "You Can't Stop Me" ele relaxa, com uma letra mais introspectiva, parando para refletir e quase que tentando justificar suas ações com reminiscências da infância e adolescência. De qualquer forma, é a levada agressiva e faminta do jovem rapper que cria todo o clima hostil pensado para o disco. Juxx rima ora como se passasse como um trator de sílabas pelos breaks de Marco Polo, ora como se os bumbos e caixas agissem como seus parceiros de crime.

Para ficar a par de tanta energia, Marco Polo precisou manter sua recente onda de batidas cada vez mais pesadas. A produção em "The Exxecution" segue pelas mesmas linhas de "Double Barrel", com beats acelerados e de caixas marcantes. São as particularidades de cada faixa que fazem elas se destacarem. Em "The Exxecution Intro", por exemplo, é impossível não se render aos metais bem anos 90 que surgem logo no começo do instrumental, guiando a apresentação de Ruste Juxx. "Death Penalty" é o maior batidão do álbum, com um beat frenético, tão acelerado quanto ameaçador. O conceito militar que sempre marcou a Boot Camp Clik também é incorporado por Polo, como nas faixas "Rearview" e "Lets Take a Sec", esta última marcante por contar com a participação de todo o Black Moon - Buckshot, 5ft e DJ Evil Dee.

Falando em participações, as poucas vezes em que forasteiros aparecem em "The Exxecution" são muito bem aproveitadas. Os amigos Rock e Sean Price aparecem em faixas diferentes, mas marcam a presença da Duck Down; o último, mentor de Juxx, dá mais uma aula de carisma e punchlines nas suas aparições. O veterano Freddie Foxxx surge em "Take Money" para dar a credibilidade necessária para quem quer fazer um álbum de hardcore nova-iorquino. Mas é o DJ Revolution o convidado que rouba o show. Ele simplesmente rouba a cena no final de "Death Penalty", com uma sequência de scratches tão espetacular que, a exemplo de Marco Polo e Ruste Juxx com seus competidores, deixará diversos DJs com medo de chegar nas pickups por um bom tempo.

Embora o conceito já tenha sido explorado no ano passado pelo próprio Marco Polo, "The Exxecution" consegue sobreviver às comparações e traçar seu próprio destino. Podemos considerar que, musicalmente, o álbum começa de onde parou "Double Barrel", com o produtor canadense provando sua consistência. Mas, como um todo, o projeto é ainda mais pesado que o anterior, graças à já mencionada "fome" de Ruste Juxx, que mostrou definitivamente que pode sem problemas dividir o microfone com os monstros sagrados de sua gravadora.

Marco Polo & Ruste Juxx - The Exxecution
01 The eXXecution Intro
02 Death Penalty
03 Rearview
04 Take Money
05 I’m On It
06 Let’s Take A Sec
07 Bread On Ya Head
08 Wings On Your Back
09 Nobody
10 Fuckin Wit A Gangster
11 Watch Yo Step
12 You Can’t Stop Me

segunda-feira, 22 de março de 2010

Entrevista: Elo da Corrente

No fim do ano passado, o trio paulistano Elo da Corrente, formado pelos emcees Caio e Pitzan e o DJ PG, lançou o EP "O Sonho Dourado da Família", o primeiro trabalho inédito do grupo desde o disco de estreia "Após Algumas Estações", que saiu em 2007. Favoritos do Boom Bap no rap feito no Brasil, Pitzan e Caio concederam uma entrevista por e-mail ao blog, onde falaram sobre o EP, o disco novo - que comemorará a primeira década de existência do Elo -, a participação na Missão de Pesquisas Folclóricas e mais. Confira a conversa e aproveite para ler a resenha sobre "O Sonho Dourado da Família"!

Boom Bap: Como surgiu a idéia de lançar o EP no fim do ano passado? Qual o objetivo do Elo com "O Sonho Dourado da Família"?
Pitzan: Desde o fim do ano passado a gente vem pensando no nosso álbum de 10 anos. A cara que a gente quer que ele tenha, a sonoridade. O EP surgiu quando a gente se ligou que já tínhamos instrumentais pra muito mais que um álbum, e os que estavam relativamente sobrando tinham uma unidade.

Caio: Juntamos seis beats, sendo dois de cada um de nós e começamos a escrever. No fim de tudo, fizemos juntos o último instrumental, intitulado “Fim”. Não existe um grande objetivo por trás de “O Sonho Dourado da Família”, é apenas necessidade de se fazer algo novo.

BB: Qual o significado de "O Sonho Dourado da Família"?
Pitzan: É a nossa união. Eu e meus irmãos, Caio e PG, mais próximos do som.

Caio: Todos têm sonhos, e o da família Elo da Corrente é continuar nos reinventando, produzindo, fazendo shows. Criando boa música!

BB: No EP, vocês trabalharam com uma diversidade de temas, como escravidão e política. Qual foi o denominador comum, se é que houve, que possibilitou a vocês juntarem faixas com temáticas tão diferentes num único registro?
Caio: O denominador comum talvez seja o timbre de nossas vozes. Os beats são bem diferentes uns dos outros, e na verdade isso aconteceu naturalmente. Um disco com apenas sete faixas falando de coisas parecidas não seria tão interessante.

Pitzan: A gente só queria fazer diferente do que fizemos no “Após Algumas Estações”.

BB: Na resenha que escrevi no Boom Bap sobre o EP, eu deixei minha interpretação sobre a faixa "Um Filme", mas queria saber de vocês. O que de tão precioso vocês carregavam durante a faixa?
Pitzan: Um disco. Eu ainda dou a letra: "...dando as coordenadas pra entrega da lenda/ de 10 polegadas, não há quem não se renda/ às suas batidas pesadas..." . A letra se trata do roubo desse disco de 10 polegadas. No filme, eu e o Caio somos os ladrões, o PG é o cara que contrata a gente pra roubar o disco, que existe, de fato. O grupo se chama Orquestra Afro Brasileira e o álbum, Obaluayê. É o primeiro deles. Meu irmão PG adquiriu essa preciosidade e o som bateu muito forte em nós três. A gente pirou tanto nesse disco que precisávamos falar dele de alguma forma. Os scratchs e a colagem que ele usou vieram desse disco. E ele termina com um "Obaluayêêêêê..."

BB: Deu para perceber no EP uma musicalidade bem próxima dos ritmos brasileiros. Como se deu essa aproximação? Foi algo pensado ou ocorreu naturalmente?
Caio: Há tempos a gente tenta aproximar nosso rap daquilo que ouvimos de música nacional. Acho que isso é natural que aconteça até com outros grupos com o passar do tempo, pois já é hora de fazermos um som em nosso país que, por mais que venha de algo que vimos primeiramente na América do Norte, tenha características brasileiras não só nos temas abordados. Durante muito tempo se fez rap aqui muito parecido com o de lá, mas percebo que de um certo tempo pra cá outros grupos de rap também tem tornado a coisa mais brasileira.

BB: Como foi o processo de gravação e produção do EP? Eu li na comunidade do grupo no Orkut que os beats usados foram material que sobrou da gravação do disco novo...
Pitzan: Foi praticamente isso. Já a gravação de vozes foi feita em único dia.

BB: Falando no disco novo, já há uma previsão de lançamento? Qual será o nome do projeto?
Pitzan: O disco ainda não tem nome e nem previsão de lançamento.

BB: Como está o andamento da "confecção" dele? Já existem participações confirmadas? As produções serão do próprio grupo? O que podemos esperar em termos de assuntos abordados?
Pitzan: Os instrumentais serão todos nossos. As participações ainda não foram definidas, mas teremos algumas e, quanto aos temas, tentaremos fazer diferente de tudo que fizemos até agora.

BB: O grupo participou recentemente da Missão de Pesquisas Folclóricas. Como foi a experiência?
Caio: Foi fantástico! É algo que a gente ainda pretende levar adiante, planejamos lançar um disco da Missão e já estamos gravando, aos poucos, as músicas que compusemos para esse trabalho.

BB: A participação na Missão de Pesquisas Folclóricas influenciou em algo na concepção deste novo disco (ou no próprio EP), tanto musicalmente quanto liricamente? Qual foi a importância dela para o grupo?
Caio: Foi de extrema importância para nós. A imersão nessa atmosfera dos fonogramas captados por Mario de Andrade nos deu a sensação de lidar com a raiz da música que mais temos pesquisado e comprado elepês. É perceptível o lance afro não só na parte rítmica quanto em algumas melodias de voz, isso mexeu demais com a gente pois esses fonogramas tinham muito a ver com aquilo que estávamos pretendendo usar nos nossos próximos instrumentais ou simplesmente coisas que andávamos escutando bastante. Com certeza foi e continuará sendo uma das experiências musicais mais sensacionais das quais participamos.

BB: Desde que surgiu, o Elo demorou um bom tempo para lançar seu primeiro álbum. Já o intervalo que separou este segundo disco foi bem menor. A que vocês creditam isso? Acham que o momento pelo qual o Hip-Hop brasileiro passa facilita a produção ou, agora que vocês já "estrearam", fica mais fácil colocar o trabalho nas ruas?
Caio: A gente sempre vai colocar discos na rua, é algo que nós três gostamos muito, ter o disco físico em nossas mãos. É tornar a música palpável. Nos últimos tempos temos estado bastante produtivos, e esse intervalo menor, acredito que se deva a isso.

BB: Junto com o lançamento do EP, vocês também comercializaram uma camisa relacionada ao trabalho. Como surgiu a ideia? Como foi a recepção do público? Vocês ficaram satisfeitos com o resultado? Pretendem explorar esta ação novamente com o disco?
Pitzan: O público gosta e a gente também. A recepção foi muito boa. Foi algo que já havíamos feito inclusive com o “Após Algumas Estações”, mas dessa vez a qualidade do produto final nos agradou um pouco mais. Ainda não sabemos se faremos outra camiseta quando sair o disco de 10 anos, mas existe a idéia de lançarmos algo junto com o play, alguma espécie de acessório para os ouvintes que se interessam em colecionar nossos lançamentos.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ghostface Killah: Supreme Clientele

Ano: 2000
Gravadora: Razor Sharp
Produtores: Black Moes-Art (faixa 2), Juju (3), Carlos Broady (4 e 12), The Blaquesmiths (5), Hassan (6), RZA (7, 8, 13 e 17), Mathematics (9 e 19), Inspectah Deck (11), Choo the Specializt (15) e Carlos Bess (18).
Participações: RZA (faixas 2, 7 e 11), T.M.F. (3), Lord Superb (4 e 12), Raekwon (6 e 19), Method Man (8), Cappadonna (8 e 19), Redman (8), 60 Second Assassin (11), Chip Banks (12), Hell Razah (12), Solomon Childs (13), U-God (18), Madam Majestic (18), GZA (19) e Masta Killa (19).

O dia 30 de março tá chegando e, com ele, um dos álbuns mais aguardados pelo Boom Bap neste comecinho de ano: o Wu-Massacre. Como forma de aplacar a ansiedade, hoje o blog começa uma série falando sobre o melhor álbum solo da carreira de cada um dos três emcees que se juntaram para o novo projeto: Ghostface Killah, Method Man e Raekwon. Comecemos, pois, com Tony Starks, Ironman, Pretty Toney ou Ghostdeini, também conhecido como o único membro solo do Wu-Tang Clan que conseguiu lançar um segundo álbum melhor do que o primeiro.

E "Supreme Clientele" é o nome deste feito. Logo depois de estourarem, os caras do Wu lançaram clássico atrás de clássico, com "Liquid Swords", "Only Built 4 Cuban Linx", "Return to the 36 Chambers", "Tical" e "Ironman", este último também de Ghost. Depois do álbum duplo "Forever", porém, a segunda rodada de álbuns solo só fez decepcionar. Era o fim do plano de cinco anos do RZA - na primeira metade de década do grupo, ele teve o controle total sobre a produção de cada disco que saiu com a marca Wu -, e os membros do grupo resolveram buscar novos sons. Quebraram a cara, menos Ghostface, que, se não delegou todos os beats do seu segundo álbum a RZA, pelo menos teve o bom senso de deixá-lo ser o diretor executivo do projeto.

Portanto, mesmo com nomes desconhecidos e apenas quatro beats do Abbott, "Supreme Clientele" ainda tem aquele clássico som do Wu, com batidas fortes, direto na jugular, sem muita frescura - até mesmo os samples de kung fu aparecem vez ou outra. Aliás, isso serve como atestado da influência do estilo do Wu nos produtores da época; é só perceber, por exemplo, como os samples vocais acelerados apresentados por RZA já estavam difundidos, mesmo antes de explodirem com Kanye West e companhia. Para além disso, note a influência do próprio Ghostface na escolha dos instrumentais. Conhecido por ter uma queda pelo soul, o Iron Man não deixou passar bases encharcadas daquelas strings típicas do soul da Filadélfia, conhecido como Philly Soul.

E, apesar da fórmula mais ou menos definida, ainda há espaço para algumas experimentações. "Nutmeg", por exemplo, abre o disco totalmente desprovida de caixas mais incisivas; ao contrário, o protagonismo no mix cabe a uma linha de baixo simples, que segura a onda até um loop mais funky assumir o refrão. "Stroke of Death" é talvez a batida mais diferente, como se o DJ estivesse ali ao vivo fazendo a batida voltar para que Ghost, RZA e Solomon Childs pudessem rimar; é talvez uma homenagem aos primórdios do rap, quando os disc-jóqueis se esfolavam para manter um loop de dois segundos. Até mesmo uma pitada de jazz-rap aparece em "Supreme Clientele", com "Malcolm", guiada completamente por um piano, além de um R&B meio tosco em "Cherchez Laghost", em tempos em que o Wu mantinha a agressividade como marca registrada.

Mas, na verdade, ainda são os tais batidões agressivos que elevam o nível do disco. "Buck 50" parece ter sido feito na medida para Ghost; samples de algum disco obscuro de soul, bumbos e caixas batendo incessantemente, estrutura simples e muito espaço para o anfitrião e seus convidados Method Man, Cappadonna e Redman rimarem. Apesar do nome, esta não é a diss para o então novato 50 Cent - naqueles tempos um membro do Wu jamais gastaria uma música inteira para isso, então só tocaram no assunto numa skit. Por outro lado, "Wu Banga 101" parece ter sido feita para GZA, no seu estilo lento mas ainda ameaçador. Não é à toa que o Genius é o primeiro a rimar na faixa. Mas é a brincadeira com os samples picotados no começo de cada verso que torna a faixa clássica.

E então temos "Mighty Healthy". Eu dedico um parágrafo inteiro para esta faixa, pois, pessoalmente, é uma das preferidas de todos os tempos. Produzida por Mathematics, a música é a síntese de "Supreme Clientele". Os samples de kung fu estão lá, o break clássico de "Synthetic Substitution" é o esqueleto da batida, o piano e baixo soturnos dão o tom ameaçador e ainda há aquele samplezinho vocal bem sacana que faz qualquer um se render - e não esqueça dos scratchs!. Em suma, é uma das melhores batidas a saírem da marca Wu e é capaz de fazer você balançar a cabeça por horas e até ficar gesticulando como o Ghostface faz no clipe para as rimas que estão na linha tênue entre completo nonsense e carisma genial que só o maluco do Tony Starks é capaz de oferecer. Linhas como "você está certo, eu transo com as fãs" ou aquela cantoria desafinada no refrão são a cereja no bolo.

Aliás, liricamente falando, Ghost exibe por todo o disco o que podemos perceber em "Mighty Healthy". As rimas na maioria das vezes não fazem sentido para o ouvinte comum - e já vi muitos fãs norte-americanos do Wu admitirem que não entendem o que o cara quer dizer -, mas o flow do cara é irresístivel. Além de tudo, "Supreme Clientele" entra para o rol dos clássicos do rap como uma aula de como a levada pode carregar um disco. O storytelling, o bragadoccio e o battle rap estão todos no álbum, mas muitas vezes você nem entende, e nem liga; o importante são as rimas internas, multissilábicas, as punchlines. A voz fina de Ghost transforma-se verdadeiramente em mais um instrumento colocado no mix. É quase como um disco instrumental, com a voz de Ghost sendo o instrumento principal.

E todo esse nonsense funciona, na verdade, como algo positivo. Ghost seguiu este estilo por toda sua carreira e o transformou em marca registrada. É como se ele se sentasse, pegasse a caneta e o papel e começasse a escrever o que vem na cabeça. Amigos, Ghostface Killah é uma das maiores representações "rapeiras" do dadaísmo. Vejam o trecho de um texto sobre o gênero na Wikipedia: "(...) talvez as formas principais da expressão dadá tenham sido o poema aleatório. (...) o Dadaísmo defende o absurdo, a incoerência, a desordem, o caos. Politicamente , firma-se como um protesto contra uma civilização que não conseguiria evitar a guerra". Tudo a ver, né?

Curioso também notar que o álbum é o primeiro em que Ghostface sai da sombra de Raekwon. Depois de ser o coadjuvante de "Only Built 4 Cuban Linx" e dividir "Iron Man" como o parceiro, Ghost assume os holofotes. O amigo gordinho aparece em apenas duas faixas e, mais importante, Tony Starks monopoliza diversas músicas no disco, num cenário bem diferente do que dos primeiros solos. Ghost até se refere a isso no início de "Might Healthy": "O mundo não pode encostar Ghost, o coadjuvante da Purple Tape (como ficou conhecido 'Only Built...') de Rae".

Na época em que foi lançado, em 2000, "Supreme Clientele" funcionou como um resgate do Wu, que já dava sinais do seu primeiro declínio depois de "Forever", em 1997, com os seguidos solos decepcionantes. Como bônus, iniciou a saga de Ghost como membro proeminente do grupo, já que antes era ofuscado por nomes como RZA, Meth, Raekwon e GZA. A partir deste álbum, Tony Starks tornou-se o mais consistente emcee do Wu e um dos mais carismáticos do rap.

Ghostface Killah - Supreme Clientele
01: Intro
02: Nutmeg
03: One
04: Saturday Nite
05: Ghost Deini
06: Apollo Kids
07: The Grain
08: Buck 50
09: Mighty Healthy
10: Woodrow the Basehead (Skit)
11: Stay True
12: We Made It
13: Stroke of Death
14: Iron's Theme Intermission
15: Malcolm
16: Who Would You Fuck?
17: Child's Play
18: CherChez LaGhost
19: Wu Banga 101
20: Clyde Smith (Skit)
21: Iron's Theme Conclusion (Outro)

Vídeo de "Mighty Healthy":


Vídeo de "Apollo Kids":


Vídeo de "Cherchez Laghost":

segunda-feira, 15 de março de 2010

Mental Abstrato: Pure Essence

Ano: 2010
Gravadora: Goon Trax
Produtores: Calmão e Omig One (todas as faixas).
Participações: Gelleia (faixa 1), Ronaldo Camilo (2 e 9), Logics (3), Newsense (3), Mo'Dyé (5), Ohmega Watts (7), Marcelo Monteiro (9), Minismooth (10), Awon (12) e Piso Inferior (14).

Que a música brasileira é produto de exportação todos nós sabemos. Mas e o rap nacional? Pois bem, mesmo um dos gêneros mais fechados da nossa terra já começa a abrir caminhos mares afora - justo aquele acusado de ser americanizado e não pertencer à cultura popular. Os responsáveis pelo feito são os produtores Calmão e Omig One, conhecidos também sob a alcunha de Mental Abstrato. Juntos, eles confeccionaram "Pure Essence" e chamaram a atenção da gravadora japonesa Goon Trax, que logo colocou o álbum nas ruas orientais.

Quem acompanha o Boom Bap já ouviu falar da Goon Trax e da cena de rap no Japão. Conhecidos por um estilo batizado como mellow rap, os japas acharam nas batidas suaves e fortemente inspiradas pelo jazz um nicho que alcançou sucesso de público e de crítica por lá. Imagine então como eles ficaram quando dois beatmakers brasileiros apareceram com um disco calcado no jazz, no samba e na bossa nova. A resposta é clara: piraram! Um rap ao gosto japonês utilizando os elementos da música brasileira que são mais reverenciados lá fora - "Pure Essence" não poderia dar errado jamais.

E, claro, não deu. Calmão e Omig One mostram um gosto refinadíssimo para batidas suaves. E o melhor de tudo: mostram uma pesquisa musical genuinamente brasileira, algo sempre defendido pelo Boom Bap. Assim, eles produziram um disco de jazz-rap baseados principalmente em samples tupiniquins e mostraram, mais uma vez, a riqueza, a mina de ouro que aguarda languidamente os produtores nacionais nos sebos desse Brasil afora. Entretanto, não se restringiram aos samples; chamaram músicos como Ronaldo Camilo e Marcelo Monteiro para ajudar na instrumentação dos beats arquitetados.

O resultado de toda essa preparação especial são 14 faixas de uma mistura deliciosa de melodias relaxantes e batidas ora mais fortes, ora tão discretas que chegam a se incorporar no mix. O clima, porém, é invariavelmente tranquilo, e induz facilmente o ouvinte a esquecer a correria do dia a dia, sentar no sofá e ouvir o disco do começo ao fim. Dívidas? Problemas com a esposa? Chefe mala? Emprego que você não aguenta mais? Você vai esquecer tudo isso ao ouvir a belíssima composição de "Já Era Uma Vez". O Dodô perdeu dois pênaltis logo contra o Flamengo? Você nem vai lembrar disso com as strings delicadas de "A Origem é Essa".

Além dos instrumentais impecáveis - ainda preciso citar a uptempo "Jazzeira" e a soturna "Bons Fluídos" -, Calmão e Omig One ainda contaram com convidados, a maioria deles providenciados pela Goon Trax. Assim, podemos ver os emcees da banda ArtOfficial Newsense e Logics se deliciarem sobre a batida de "Me Desculpe Mas Não Resisti", com rimas tão leves quanto os samples, e o injustiçado, subestimado e escondido Ohmega Watts mal conseguir disfarçar sua euforia por rimar sobre a base samba-jazz de "Quando Ouviu Meu Samba", com direito a sample vocal tupiniquim e tudo - reparem no emcee se aventurando no português e mencionado samba incontáveis vezes. A outra contribuição "rapeira" é do também gringo Awon em "A Primeira Audição É A Que Fica", toda bossa-nova. Para além do rap, o Mental Abstrato ainda conta com duas cantoras: a francesa Mo'Dyé e a norte-americana Minismooth, que emprestam um pouco de doçura aos beats. E, claro, também há de se mencionar a incursão dos produtores nas rimas em "Assim eu Sigo", a única faixa com versos brasileiros.

Aliás, este é o meu único "problema" com "Pure Essence". Fiquei curioso em imaginar como seria o resultado do disco caso emcees brasileiros também rimassem sobre alguns dos beats da dupla de produtores. E, além das questões estéticas, do que resultaria a aproximação de mais artistas nacionais com a Goon Trax? Talvez mais participações, mais parcerias, enfim. É algo a ser pensado pela cena nacional - um diálogo maior com um país que conseguiu construir um movimento forte e rentável sem os dólares norte-americanos.

Divagações do escriba à parte, "Pure Essence" é um dos álbuns mais originais que o rap brasileiro já viu nos últimos tempos. Calmão e Omig One acertaram em cheio ao valorizarem a música brasileira e criaram um disco consistente, sem sobressaltos e de muito valor. Pena precisarem de pessoas fora do país para mostrar sua música. Em parte, o projeto do Mental Abstrato ilustra, assim como o DJ norte-americano BK-One e seu "Rádio do Canibal", como os gringos estão antenados no potencial da mistura entre os ritmos nacionais e o rap. Sorte, desta vez, que Calmão e Omig One chegaram antes deles.

Mental Abstrato - Pure Essence
01. Intro
02. Ja Era Uma Vez
03. Me Desculpe Mas Não Resisti
04. Universo Encantado
05. The End
06. A Origem É Essa
07. Quando Ouviu O Meu Samba
08. Assim Eu Sigo
09. Mundo Cruel
10. Pretérito Perfeito
11. Jazzeira
12. A Primeira Audição É A Que Fica
13. Bons Fluidos
14. Villa Bentrane

Clique para escutar o disco

terça-feira, 9 de março de 2010

Kidz In The Hall: Land of Make Believe

Ano: 2010
Gravadora: Duckdown Records
Produtores: Double-O (todas as faixas) e Just Blaze (co-produziu a faixa 9).
Participações: The Kid Daytona (faixa 4), Russoul (5 e 15), MC Lyte (6), Marsha Ambrosius (8), Just Blaze (9), Colin Munroe (9), Chip Tha Ripper (10), Donnis (10), Amanda Diva (11) e Tim William (12).

A dupla de Chicago Kidz in The Hall surgiu na cena há alguns anos como uma das boas revelações do underground americano com o ótimo "School Was My Hustle". Pouco depois, deu mostras de que não queria ficar presa apenas aos confins do rap e tentou se equilibrar na linha tênue entre mainstream e subsolo com "The In Crowd", obtendo relativo sucesso. A transição do emcee Naledge e do produtor Double-O de desconhecidos de uma cidade cuja cena é essencialmente alternativa para raros representantes de um mainstream de qualidade encontra mais um capítulo no novo álbum do duo, "Land of Make Believe".

O novo disco funciona como o primeiro checkpoint da dupla, e isso é perceptível nas novidades que tanto Naledge quanto Double-O trazem para a mesa com o trabalho. O rapper, que surgiu muito bem no álbum de estreia, misturando carisma e habilidade, apresenta-se em "Land of Make Believe" muito mais contemplativo e introspectivo do que antes, dando sequência a um estilo que ele experimentou com sucesso em "Inner Me", uma das faixas mais elogiadas de "The In Crowd". E não demora muito para sabermos disso. A primeira frase que Naledge pronuncia no novo disco é sugestiva: "Você já se sentiu sozinho numa sala cheia de gente? Às vezes eu me sinto como se meus pensamentos fossem ilegais".

Mas não pense que o repertório do emcee de Chicago foi reduzido a lamentações existenciais e reflexões sobre seu estilo de vida. Pelo contrário. O bom humor que caracterizou Naledge aparece em faixas como "Jukebox", o segundo single, com o jovem rapper usando suas rimas para destilar sua lábia com as mulheres. Os prazeres do chamado sexo frágil e do mundo da noite também não são esquecidos, como podem atestar "Bougie Girls" e "L.O.V.E." - coincidentemente algumas das músicas mais fracas do álbum.

Mas, justiça seja feita, é quando Naledge resolve abraçar uma abordagem mais low-key que o disco ganha frescor e diz realmente a que veio. É assim que o rapper comunica com os ouvintes e passa o caráter de reflexão proposto pelo álbum. O momento de Naledge é de parar, olhar para os primeiros dias da carreira, analisá-los e começar a planejar o futuro. O que ele pode aproveitar? O que ele precisa mudar? Imagine o emcee sentado numa montanha depois de subi-la, pronto para descê-la, e você se conectará automaticamente a faixas como "Take Over The World" e "Do It All Again". Visualize o cara pensando na vida pré-rap e "Simple Life" completará sua imagem. Depois de tudo, use "Land of Make Believe" como uma metáfora para a vida comum e você se surpreenderá com as semelhanças. Todos nós temos este momento de guinada, certo?

Mas a guinada não é só de Naledge. As tais novas cartas postas na mesa também são cortesia de Double-O. Para o novo disco, ele deixou a técnica de sampling de lado para concentrar-se numa abordagem totalmente orgânica. O resultado pode ser percebido mais facilmente em todos os breaks do álbum; as viradas, as "texturas" - na falta de uma palavra melhor -, o peso, enfim, tudo dá a dica de que a transição de Double-O foi bem sucedida. E embora as batidas mais bem cuidadas sejam o esqueleto principal da sonoridade do álbum, dá para ver outras ramificações do trabalho de Double-O: o flerte com as rádios está presente no discreto Autotune de "Flickin" e o lado uptempo tem seus representantes em "Jukebox" e "Running".

Mas é quando os experimentos de Double-O se encontram com as performances mais inspiradas de Naledge que tudo fica melhor. Aliás, o emcee soa mais inspirado porque os beats casam melhor ou os beats soam melhores porque Naledge está mais inspirado? Não importa a resposta, e sim que a introspecção do rapper acha seu tom certo graças às construções do beatmaker. "I Am" é o melhor exemplo; o instrumental ultrapassa o limite do rap, passando um bom tempo apoiando-se apenas num piano melancólico para só depois entrarem os bumbos e caixas numa explosão de energia digna do exercício lírico sem refrão de Naledge, que culmina em samples vocais, sintetizadores e guitarras. Destaque também para a ótima saideira "Rise & Shine" e "Take Over The World", na qual Double-O tem a ajuda luxuosa de Just Blaze.

Por outro lado, a faceta mais minimalista também funciona, e isso serve para a dupla. Em "Out To Lunch", Naledge limita-se a trocar versos despretensiosos e cheios de referências old school - perceberam uma linha de "Jazz (We've Got) do A Tribe Called Quest? - com The Kid Daytona, tudo sobre uma batida igualmente eficiente, com bateria acelerada e seca. Aliás, alguns dos escorregões de "Land Of Make Believe" são exatamente o contrário; faixas muito enfeitadas, com cantorias exageradas e um mix bagunçado.

Enfim, "Land Of Make Believe" é interessante por retratar bem o momento de reflexão de Naledge e Double-O. Eles encontram-se num ponto onde querem buscar coisas novas e o novo álbum exemplifica bem isso, embora falte um single com a força de "Drivin Down The Block". Não há nada de revolucionário considerando o rap como um todo, mas existem coisas bem diferentes do que estamos acostumados a ver do Kidz In The Hall. Desde um Double-O que sampleava qualquer coisa em "School Was My Hustle" aderindo à instrumentação até um Naledge versão intimista. Entretanto, não se pode deixar de perceber que esta terapia da dupla tem a ver também com o próprio rap. Desde que entraram na indústria até agora, eles já pudem desmistificar alguns fatos, e "Land of Make Believe", ou "Terra das Ilusões", numa tradução bem livre, é um título mais do que apropriado.

Kidz In The Hall - Land of Make Believe
1. Intro
2. Traffic
3. Flickin
4. Out To Lunch
5. Bougie Girls
6. Jukebox
7. L_O_V_E
8. Will II Win
9. Take Over The World
10. Fresh Academy
11. Simple Life
12. Running
13. Do It All Again (I Am)
14. I Am (Reprise)
15. Rise & Shine

Vídeo de "Jukebox":