quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Elo da Corrente: Sonho Dourado da Família

O Natal é daqui a dois dias, mas um dos meus presentes de fim de ano foi lançado ainda no Indie Hip-Hop deste ano. O Elo da Corrente, considerado por este escriba o melhor grupo de rap no Brasil, lançou um EP, intitulado "O Sonho Dourado da Família", contendo sete faixas, corroborando a posição dos caras como pertencentes à elite de letristas em terras tupiniquins - não só no rap, mas em qualquer gênero.

De fato, o lançamento do EP não poderia ter sido em melhor hora, particularmente. Cabe aqui uma história pessoal deste humilde blogueiro para explicar a euforia. No fim do ano passado, passei as férias num paraíso fluminense chamado Angra dos Reis. Entretanto, nos primeiros dias de viagem, para honrar o meu azar, me deparei com chuva e frio. Lá pelo quarto dia, o sol finalmente deu as caras. E este vacilão, como se nunca tivesse visto na praia na vida, passou o dia inteiro no sol, sem protetor solar. Resultado: queimaduras de primeiro grau em quase toda a parte superior do corpo e fim de diversão. A casa onde fiquei era alta, e, da varanda, dava para ver o mar. Enquanto o resto do pessoal estava lá embaixo se divertindo, passei os dias naquela varanda, olhando a praia e ouvindo, adivinhem, "Após Algumas Estações", do Elo.

Posso dizer com segurança que, apesar de já ter ouvido incontáveis vezes o álbum, só naquele momento eu pude compreender todo o trabalho e me fez admirar ainda mais o trio formado por Caio, Pitzan e PG. A poesia inigualável dos emcees, diferente de tudo que vemos no Brasil, e as batidas bem cuidadas foram grandes companheiras naquele momento. Agora, em 2009, retornarei a Angra com o novo EP no MP3. Só espero não ficar todo queimado de novo para ouvir o trabalho.

Depois dessa pequena e triste história pessoal, vamos ao EP. "O Sonho Dourado da Família" é uma continuação do estilo do trio do Elo, com rimas muito além da impressão que temos ao ouvi-las pela primeira vez e um vocabulário riquíssimo. Tudo isso sem descuidar da parte musical: as levadas são pontuais e as batidas, inversamente proporcionais à exuberância dos versos. Excetuando a faixa título, com timbres tão ensolarados quanto este final de ano, a produção segue o caminho do submundo, com excertos sujos, batidas graves, numa mistura entre os pancadões Wu-Tang e a sujeira de um Madlib da vida.

Quanto aos versos, é até difícil falar sobre o trabalho, porque, assim como aconteceu comigo com "Após Algumas Estações", pode ser necessário um bom número de audições para chegarmos à plenitude da mensagem. Um exemplo disso é "Um Filme", um storytelling super detalhado no qual Pitzan e Caio interpretam dois personagens: o último precisa levar uma sacola para o primeiro, que irá se encontrar com o consumidor. O conteúdo não é revelado, embora o tom de urgência e sigilo sugira algo que não deva chamar muita atenção das pessoas. Aí, cabe a cada ouvinte interpretar o som: eu fico com a hipótese de ser uma metáfora ao trabalho de música dos caras; algo meticuloso, que deve ser feito com cuidado e atenção, sem se envolver com as pessoas erradas; talvez também um alerta bem sutil para a situação do artista independente, e toda a produção artesanal, desde a gravação do disco até a venda, que alguém nesta posição precisa enfrentar.

Outros temas não muito comuns são abordados por Caio e Pitzan. Em "A mãe", eles relatam a história de uma escrava vinda para o Brasil e todos os percalços que ela enfrenta em terra brasilis: o trabalho cruel e forçado, o estupro por parte do senhor etc. Até mesmo uma decepção com aqueles que deveriam ajudá-la está no script: depois de fugir para um quilombo, ela percebe que até lá a escravidão está presente, o que a leva ao suicídio. É claro que este é apenas um resumo da história; os emcees a relatam de forma muito mais poética e sutil.

Entretanto, eles mudam de marcha em "Democracia Aonde". Sai o discurso sutil e detalhista para versos que vão direto na jugular. O título já diz bem o teor da faixa, e as rimas correspondem às expectativas numa plétora de frases que logo vão estar na boca dos fãs: "Demoracia é o povo exercendo soberania / Mentira, isso não passa de sonho e fantasia / Olhe a sua volta, os valores trocados / tá tudo escancarado...". Adicione ao assunto sério uma seção de strings sinistras e você tem o tema ideal a ser tocado quando os corruptos forem para seu devido lugar.

Nos quase 20 minutos de audição, o que fica claro é que o Elo continua num caminho único, lapidando cada vez mais seu talento e estilo. Prova disso é "Sonho Dourado da Família", herdeira direta de faixas como "Sementes de Luz" e o "O Amanhecer", tanto na temática quanto nos instrumentais belíssimos. Com dois emcees extremamente competentes e capazes de gerar reflexões mesmo no verso mais simples, o Elo continua na linha de frente do rap brasileiro, com um feito difícil para qualquer artista: equilibrar música e mensagem sem perder qualidade em nenhum dos dois fronts.

Elo da Corrente - O Sonho Dourado da Família
01. O Sonho Dourado da Família
02. Se Faz Necessário Voar
03. Um Filme
04. A Mãe
05. Democracia Aonde?
06. Madrugada
07. Fim

Vídeo de "Se Faz Necessário Voar" ao vivo:


PS: O Boom Bap aproveita para sair de férias e voltar - de preferência sem queimaduras de primeiro grau - a partir de 4 de Janeiro. Desejo a todos um bom Natal e um 2010 de sucesso.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Kamau: 21|12 + Só(remix) + Resistência(remix)



É sempre assim. Quando o ano está acabando e nós já começamos a revisitar tudo o que aconteceu no rap durante o ano, os trabalhos começaram a aparecer no Brasil. No caso de Kamau, a data tem um porquê: o cara completa 21 anos de skate e 12 de rap. Portanto, nada mais justo que celebrar o marco no dia 21/12 com o que ele sabe fazer de melhor: música. É assim que chegam a nossas lentes e ouvidos o vídeo do remix de "Só", música do álbum "Non Ducor Duco", e os singles "21|12" e "Resistência", esta última outro remix, desta vez com a preciosa participação da emcee, revolucionária, ativista e top 10 do Boom Bap Invincible.

Comecemos pelo vídeo. Dirigida por Fred Ouro Preto, responsável também pelo audiovisual de "Triunfo", do Emicida, a película traz um Kamau só - como sugere o nome da faixa - pelas ruas e noites de São Paulo destilando uma letra reflexiva, que funciona quase como um lembrete para o artista que tá na correria tentando vencer nessa coisa chamada rap, mas podem se aplicar a qualquer outra vertente de nossas vidas. Entretanto, vindos de um cara que já tem no currículo uma grande gama de experiências dentro do gênero, os versos resumem uma cartilha para os iniciantes nos trabalhos: foco, convicção e nada de esperar pelos outros. Em tempo: o beat, autoria do curitibano Nave, é espetacular. O sample todo picotado induz a cabeça a movimentos regulares, e aquela variação no refrão é a cereja no bolo.

Chegamos aos singles. "21|12" é a faixa inédita, feita especialmente para esta data. E, considerando o significado dos números para Kamau, é de se esperar uma carta aberta expondo os sentimentos do emcee para os fãs. A batida, cortesia de Renan Samam, já dá o tom para o clima confessional que nos aguarda. No primeiro verso, ficamos sabendo como começou a paixão pelo skate; no segundo, é o amor pelo rap que toma forma e faz Kamau precisar decidir entre os dois: a escolha pelo microfone com certeza agradou a muita gente nesse Brasil inteiro. Mas o mais legal é a introspecção que o cara atinge na letra. É como se ele estivesse conversando contigo ali do lado, contando a história dele. Também não se pode deixar de mencionar os scratches brincando com o título da faixa.

Para fechar, o remix de "Resistência" traz um verso inédito da americana Invincible. Enquanto Kamau expande o tema de resistência para diversas áreas, tendo o rap como ponto de partida, a emcee sente-se à vontade para abrir sua caixa de ferramentas revolucionária para atacar os falsos revolucionários, que "falam sobre trabalhadores como se todo dia fosse 1º de maio".

Bom, dá até para dizer que é Papai Noel que traz para os fãs de rap que se comportaram direitinho um final de ano movimentado. Se pensarmos assim, o single de Kamau é, sim, um ótimo presente para todos nós. E amanhã, para fechar a temporada 2009 do Boom Bap, um texto sobre o novo EP do Elo da Corrente, o outro presente de Natal do rap brasileiro.

Ouça "21|12"
Ouça "Resistência (remix)"

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Bekay: Hunger Pains


Ano: 2009
Gravadora: Coalmine Records
Produtores: The Returners (faixa 1), The Alchemist (2 e 15), Marco Polo (3), Shuko (4, 5 e 10), Alkota & Unknown (6), Illmind (7), DJ Babu (8), Contagious (11), BeanOne (12), Street Orchestra (13) e Jonathan Rotem (14).
Participações: DJ Revolution (2), R.A. The Rugged Man (3), Heltah Skeltah (7), Masta Ace (8), Wordsworth (10), Saigon (13), Inspectah Deck (13) e Dilated Peoples (15).

Com saudade daquele som pesado e agressivo típico da Nova Iorque dos anos 90? Pois o underground norte-americano continua tentando suprir esta demanda. A nova tentativa é "Hunger Pains", o álbum de estreia de Bekay, um nativo do Brooklyn que cresceu em meio a toda aquela efervescência que caracterizou o início da década passada como a época dourada do rap. Agora um homenzinho, é a vez de Bekay tentar resgatar a velha essência e trazer NY de volta ao topo do jogo, local onde esteve por tanto tempo.

Tudo bem, o parágrafo acima é bem clichê, mas quando você começar a ouvir "Hunger Pains", vai perceber que é um clichê no bom sentido. Carregando a honra de ter sido o último cara a gravar com o lendário Ol' Dirty Bastard, exatamente uma semana antes da morte do membro do Wu, o jovem Bekay tem uma levada bastante agressiva, rima como se estivesse com raiva do mundo e não pudesse perder um segundo sequer do precioso tempo com bullshits alheias. E é justamente esta determinação, esta postura "estou-numa-missão-e-nada-vai-me-parar" que traz brilho ao disco e transforma BK numa das boas revelações deste 2009 tão prolífico.

A carta de intenções de Bekay surge logo após a obrigatória introdução, na forma de "I Am". Sobre o piano jazzy de Alchemist, o nova-iorquino compartilha conosco sua visão do Hip-Hop, ao mesmo tempo em que relembra características antigas e se auto-intitula a própria cultura, comparando-se com diversos nomes consagrados do gênero e outros elementos típicos do movimento. Quando ele garante, com sua voz estrategicamente elevada, que é "duas turntables e um microfone", qualquer purista hip-hopper se rende ao moleque.

Mas a conquista definitiva vem na faixa seguinte, que conta com a participação de ninguém mais ninguém menos que R.A. The Rugged Man, também conhecido como ofuscar qualquer artista que o convida para rimar. "Pipe Dreams" é uma faixa conceitual, na qual Bekay é um jovem artista tentando ser contratado pela gravadora do diretor interpretado por R.A. Desnecessário dizer que é um grande dedo do meio oferecido às labels, mas de uma forma extremamente criativa. R.A., velho de guerra no que diz respeito a ter divergência com gravadoras, naturalmente rouba a cena, oferecendo mundos e fundos ao jovem aspirante a rappers, enfatizando de que vai usar o fato de Bekay ser branco para projetá-lo como o novo Eminem e já vislumbrando a produção do disco. "Eu vou te arrumar cinco beats do Kanye West, outras duas do Lil'Jon, para o mercado do Sul". A resposta do nova-iorquino é certeira. "Primeiro de tudo, eu não vou lançar lixo, cara / (...) e se você quer me comparar ao Eminem, foda-se você e foda-se ele também / e quem disse que quero agradar o mercado do Sul? É só eu que acho, ou todas as batidas do Lil'Jon soam a mesma coisa?".

A partir daí, o álbum engrena numa sequência de batidas fortes e rimas mais agressivas ainda. A produção é claramente influenciada pela era de ouro do rap, com muitos scratches, colagens daquela época e toneladas de samples utilizados. Apesar de Bekay contar com pesos-pesados nos beats, como Marco Polo, Illmind e DJ Babu, é Shuko o responsável pela maioria das faixas e pelos momentos mais marcantes. "Bloodsport" e "Young" são duas produções do beatmaker que mostram um estilo Premier nos cortes dos samples e, obviamente, casam perfeitamente com a abordagem de Bekay. O único momento em que a pancadaria sonora dá um tempo é em "Brooklyn Bridge", de Babu, uma homenagem ao Brooklyn, com participação do veterano Masta Ace. Até mesmo Bekay abaixa alguns decibéis do seu flow para encaixar no clima da faixa.

Apesar de a força de Bekay ser enfatizada aqui, fica claro que ele não é apenas um emcee com rimas de batalha sobrando no caderno de rimas. Ele é capaz de diversificar seus temas para não tornar o álbum repetitivo. "Rapstar" segue o exemplo de "Pipe Dreams" e utiliza outro ângulo para falar das agruras de um jovem tentando vencer no mundo do rap sem fazer concessões a gravadoras. "Pops" é outro momento mais introspectivo: uma carta tensa de Bekay a seu próprio pai, capaz de fazer com que muitos se identifiquem com algumas partes da letra. Mas é realmente nos bate-cabeças que o jovem nova-iorquino se encaixa, especialmente quando ele troca versos com nomes consagrados. Em "Crazy", ele compartilha o microfone com a dupla Heltah Skeltah e não faz feio; já "The Raw" recebe Saigon e Inspectah Deck no maior batidão do disco.

No fim das contas, "Hunger Pains" é verdadeiramente uma homenagem à velha escola, mas vai além disso. Mostra um emcee promissor, com um estilo próprio e marcante, com total capacidade de não ficar restrito apenas ao circuito das mixtapes e participações especiais. Bekay tem talento, respeito pela época dourada - o disco é recheado de referências desta natureza - e sabe o que quer. Olho no moleque.

Bekay - Hunger Pains
01. Intro
02. I Am
03. Pipe Dreams
04. Bloodsport
05. Young
06. Rapstar [Hunger Pains]
07. Crazy
08. Brooklyn Bridge
09. That’s Brooklyn
10. Skemers
11. Realest That Run It
12. Pops
13. The Raw
14. Visions
15. I Am [Remix]

Vídeo de "Bloodsport":


Vídeo de "I Am" e "Brooklyn Bridge":

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Damu The Fudgemunk: Kilawatt V1 EP

Ano: 2009
Gravadora: Kilawatt Music
Produtor: Damu The Fudgemunk
Participação: Raw Poetic

O melhor produtor da nova geração ataca novamente. E agora não só com instrumentais. O talentosíssimo Damu The Fudgemunk, que o pessoal que acompanha o blog sabe que é um dos mais admirados na arte de beatmaking por este escriba, lançou seu último trabalho de 2009. Trata-se de um EP curtinho, intitulado "Kilawatt V1", com duas faixas rimadas pelo Raw Poetic, do Panacea, e seus respectivos beats, além de mais um instrumental, porque ninguém é de ferro. Para quem é fã do cara, também saiu um disco com as batidas do "Travel At Your Own Pace", que ele fez junto com o emcee Insight sob a alcunha de Y Society.

Pois bem, voltemos ao EP. Na verdade, o "Kilawatt" é um projeto da gravadora britânica de mesmo nome, que consiste em chamar um produtor por volume. O escolhido para dar o pontapé inicial foi o Damu. Outra curiosidade que eu gostaria de chamar a atenção foi a busca incessante empreendida para achar o disco pela internet. O trabalho só está disponível em vinil ou no iTunes e, com o crescente cerco aos blogs de música, foi quase impossível achar a parada. Tive de recorrer a um programinha que já fez a alegria de muita gente na era pré-blogs: o Soulseek. E mesmo assim foi difícil achar.

Finalmente apto para ouvir as músicas, fui recompensado pela qualidade. Damu mais uma vez deu mostras de que é o herdeiro legítimo de monstros sagrados da Golden Age norte-americana, com uma produção cada vez mais detalhista e cada vez menos sensível ao mercado. Não há concessões nos beats de Damu, apenas samples picotados e organizados imaculadamente, scratches e colagens certeiros e caixas tão pesadas quanto sujas. É bem legal ver como o cara consegue empilhar vários samples diferentes numa só batida e agir como se fosse um maestro, dando espaço para cada excerto e planejando diversas variações.

"Day By Day" abre o EP com Damu homenageando os DJs Grandmaster Roc Raida e Mr. Magic. Logo depois, o batidão e a voz de Raw Poetic entram em cena. E dá para notar o modus operandi de Damu: vários samples se intercalando ao longo do verso, uma colagem no refrão junto com um sax separado especialmente para a tarefa; no segundo verso, outro sample para reintroduzir Poetic no mix; e assim vai. O interessante é notar como o DopeGraffHead consegue administrar bem todos os samples disponíveis. "Prosper", a outra faixa, segue mais humilde, com um loop principal e pequenas variações, mas com o mesmo clima old-school, enfatizado pelo fato de Raw Poetic ter uma voz parecidíssima com um jovem Common. O resultado é quase um leftover de "Resurrection".

Depois de "Kilawatt V1", a esperança é que 2010 comece para Damu assim como terminou 2009: trabalhos na rua, produções para outros artistas e ainda mais reconhecimento. O cara tem um potencial enorme, e um trabalho com um emcee de maior porte com certeza ajudaria este beatmaker a evoluir ainda mais. Já foi ventilado um disco em parceria com o O.C., mas aparentemente foi para a gaveta. Entretanto, este parece ser um bom caminho: nada contra Insight e Raw Poetic, mas, quando Damu entrar no laboratório com um peso pesado, uma nova era dourada pode se principiar.

Damu The Fudgemunk - Kilawatt V1 EP
01. Day By Day
02. Prosper
03. Wonka Beat 1
04. Day By Day (instrumental)
05. Prosper (instrumental)

Vídeo da performance de "Prosper" ao vivo:

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Flora Matos: Flora Matos vs Stereodubs

Ano: 2009
Gravadora: independente
Produtor: Stereodubs (todas as faixas)
Participação: nenhuma

A menina saiu de Brasília para São Paulo graças ao rap, já trabalhou com alguns dos nomes mais respeitados do gênero no país, já viajou para a Europa levando sua música e tem só 21 anos. Para coroar este começo de carreira avassalador, Flora Matos lançou uma mixtape em parceria com a dupla de produtores LX e Léo Grijó, conhecidos como Stereodubs, intitulado sugestivamente de "Flora Matos vs Stereodubs".

O sugestivamente do parágrafo acima tem explicação. O versus do título do trabalho indica bastante o que acontece no decorrer das nove faixas da mix. Os Stereodubs têm como influências marcantes o ragga e o dancehall jamaicanos, enquanto Flora é uma emcee na mais completa acepção da palavra. O resultado deste encontro é um confrontamento de estilos, no bom sentido, que obriga os artistas a expandirem seus horizontes para se adaptar ao que está sendo proposto. Um desafio entre duas frentes de formações diferentes, que só poderia dar certo e ajudar no crescimento de todos os envolvidos. Melhor ainda se este processo de estudo e amadurecimento resulta em música boa. E este é definitivamente o caso deste "duelo".

E quem já pega o holofote nos primeiros segundos da mix e não larga de jeito nenhum é Flora. A tal versatilidade tão necessária para se sair bem na proposta do trabalho é algo com o qual a emcee lida sem maiores problemas. A seleção de temas exemplifica bem isso: a menina trata de relacionamentos em duas vias completamente distintas - vai da bem-humorada e sensual "Pretin" até a contundente "Pai de Família", que discute a formação de casais jovens e os posteriores motivos para uma separação ou para o "felizes para sempre" tão raro nos dias de hoje. Ainda há tempo para Flora mostrar sua carta de intenções em faixas como "Viver", onde o sample do Maestro do Canão Sabotage resume tudo, e "Esperar o Sol", esta última praticamente um manifesto de estilo de vida.

Mas a doçura vista nas faixas supracitadas não reina absoluta na mixtape. Há momentos em que a agressividade natural dentro de cada emcee brota e dita a levada frenética e implacável de Flora. "Sem Mão na Cara" é o maior exemplo disso: numa base eletrônica e igualmente agitada, a menina responde a críticos, ataca invejosos e reafirma sua missão. O refrão é emblemático, e mostra uma outra faceta da artista, a promissora capacidade de aliar rimas e melodias: "Sei muito bem quem são / correm noutra direção / vão ter que ter a pureza para interpretar meu som / Se sou preta ou não / entenda minha visão / dos branco eu herdei a cor, dos preto eu herdei esse dom".

Aliás, a prova máxima desta versão "cantora" de Flora é a faixa que fecha o projeto, "Minha Voz", que traz a garota usando sua voz da forma mais doce possível e assegurando uma despedida suave para o ouvinte, tudo sobre um instrumental igualmente tranquilo, com guitarras marcantes e uma pitadinha de dub. A melhor performance da mix, entretanto, é o single "Pai de Família", que combina o que de mais relevante resultou do confronto entre Flora e os Stereodubs. Numa levada absolutamente perfeita, que demanda daqueles que ouvem mas não prestam atenção uma mudança de comportamento para entender o que está sendo dito. O refrão é igualmente imaculado, mostra mais uma vez o talento melódico da menina e vai ficar grudado no seu ouvido durante dias. Mas é o batidão dancehall que será capaz de fazer brotar quantidades inimagináveis de suor do seu corpo.

Aliás, neste confrontamento entre emcee e produtor, são LX e Léo Grijó os responsáveis por ditas as regras. É como se eles testassem os limites de Flora. Primeiro, é o belíssimo beat de "Esperar o Sol", num clima que faz jus ao imperativo do título, que força Flora a adaptar sua levada a algo mais relax. Na já citada "Pai de Família", eles entram no território que dominam, e aí é a vez da menina acelerar. "Pretin" é um ponto convergente, que força tanto a dupla de produtores a prover um hit, quanto Flora a adicionar ainda mais malemolência ao flow. "Sem Mão Na Cara" mantém o lado eletrônico e frenético, e por aí vai.

No fim, tanto os Stereodubs dão um show de versatilidade, agregando MPB, jazz e rap ao seu repertório, quanto Flora prova que vai de pancadões dançantes a jams relaxantes com o mesmo talento e a mesma facilidade, talvez herança de sua criação cercada de diferentes influências musicais. A verdade é que a menina tem tudo para ser não só um grande nome do rap brasileiro, como tem totais condições de cruzar a fronteira e atingir audiências maiores e mais diversificadas. Pena que os bons artistas não sejam aqueles que tocam na rádio. Flora seria certamente presença garantida nas FMs da vida. E, nossa, ela tem a minha idade, amigos!

Flora Matos: Flora Matos vs Stereodubs
01. Viver
02. Esperar o Sol
03. Pai de Família
04. Interlúdio (Paixão)
05. Pretin
06. Sem Mão Na Cara
07. Até o Infinito
08. Meu Caminho
09. Minha Voz

Download

Performance ao vivo de "Pai de Família" na França:

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Diego Bernal: For Corners

Ano: 2009
Gravadora: Exponential Records
Produtor: Diego Bernal
Participações: nenhuma

Junte um advogado de ascendência latina da Costa Oeste norte-americana e uma paixão pelo rap e o que você terá? Uma beat tape gratuita, repleta de samples empoeirados de discos latinos e um daqueles trabalhos que surgem do nada e acabam se tornando um dos mais legais do ano. Diego Bernal é o beatmaker responsável pelo projeto, intitulado "For Corners", e tem uma história bem diferente. Ele é filho de ativistas e intelectuais - um ex-fazendeiro e uma professora aposentada - e passou sua infância em duas escolas bem distintas do Hip-Hop: o sulista Texas e a westside Bay Area. Isso para não citar novamente a profissão do cara. Desnecessário dizer que uma história tão original resulta num disco bem diferente, certo?

Pois bem. Por ser um álbum instrumental, os beats parecem ser construídos de forma diferente; a impressão é que possuem vida própria, independem de ter um emcee rimando sobre eles. Para alcançar esse feito, Bernal recorre ao que há de mais característico nos vinis de música latina que ele usou como fonte para confeccionar suas batidas: metais suingadíssimos, violões discretos e ainda mais suíngue nas baterias. Há de se ressaltar outro detalhe: provavelmente influenciado por seus samples, Diego constrói uma beat tape com faixas bem leves, cheias de groove; definitivamente aquele clima relaxado e tranquilo não dá as cartas em "For Corners".

Afinal de contas, como o nome diz, as batidas são feitas para as esquinas. E nada melhor do que se ter caixas batendo pesado. Esta é outra faceta do trabalho de Bernal. Apesar dos samples serem sempre diferentes e, por isso mesmo, protagonizarem o espectro dos instrumentais, são as caixas, os hi-hats e os bumbos os responsáveis por dar movimento a tudo e fazer sua cabeça balançar em concordância com as habilidades do beatmaker. Trocando em miúdos, é a bateria que faz o trabalho sujo - literalmente - para Bernal ir experimentando samples, trocando pequenos excertos a seu bel prazer durante as faixas, construindo o tecido musical do disco.

E dá-lhe loops irresistíveis, capazes de chamar a atenção até do seu pai - digo por experiência própria. Embora o disco comece com algo não tão original - o tributo a Dilla "Diego's Donut" -, conforme vai se desenrolando, as pérolas começam a surgir. As caixas arrebatadoras de "Armor All'd Out" são um bom exemplo do que tentei explicar nos outros parágrafos; são o suporte perfeito para a percussão latina e as cordas que vão mutando conforme o tempo passa. Outros truques na manga de Bernal aparecem aos poucos: pequenos trechos de falas pontuam alguns beats e introduzem outros e samples vocais que ora complementam, ora protagonizam os beats são os mais comuns. "Damn You", uma das menos frenéticas do álbum, é um bom exemplo do primeiro truque, enquanto "Momma's Boy", embora um pouco exagerado, representa o segundo.

Embora seja realmente um trabalho para se colocar no MP3 Player e ouvir do começo ao fim - até porque não há grandes oscilações, nem batidas muito melhores ou muito piores -, alguns outros destaques podem ser pinçados: "Dusty Sanchez" com seu carregamento infinito de samples é quase um resumo da proposta do disco, com vocais latinos, violão e muita sujeira, como o próprio nome sugere. "MC Rakim Cool Kane and the Furious Boyz Crew" traz de volta um clima old school, com um loop cativante; "The Way It Was" fecha o projeto em um clima bem diferente do restante, com metais tristonhos e bateria calma, numa construção quase cinematográfica.

No fim das contas e dos 43 minutos de instrumentais sujos, "For Corners" emerge como uma beat tape sólida, que traz uma sonoridade bem diferente e muito bem vinda para o rap norte-americano. Diego Bernal, embora já tenha dito em entrevistas que produz beats apenas por diversão e não tem qualquer ambição dentro do Hip-Hop, revela-se um excelente produtor, com estilo próprio e bastante versatilidade, seja picotando, seja loopando ou mesmo combinando as duas técnicas. O legal é que suas batidas não são repetitivas, sempre há variações, algumas até bruscas, algo que talvez seja mais necessário por ser um disco instrumental. De qualquer forma, baixe o disco, coloque no seu iPod/MP3 e seja feliz. O bagulho ainda é de graça, amigos.

Diego Bernal - For Corners
01. Diego's Donut (RIP J. DIlla)
02. Armor All'd Out
03. Bring It On Home
04. Damn You
05. Dusty Sanchez
06. Father's Son
07. Fat Sal
08. Go Diego Go
09. I Have a Long... Resume (Interlude)
10. May Day
11. Momma's Boy
12. Money Cash Woes (Interlude)
13. MC Rakim Cool Kane and the DJ Furious Boyz Crew (1986)
14. On4
15. My Friend Wants to Know (Interlude)
16. The Pause Tape Trainer
17. Velcro Flow
18. Summer's Over (Interlude)
19. The Way It Was

Download
Download da arte do disco

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Boom Bap Jams Volume II

Duas semanas depois, estamos aqui com a segunda versão do Boom Bap Jams. Gostei das dicas do pessoal do primeiro post, espero mais coisas boas desta vez, ok? Pois bem, aqui vai a minha lista de mais tocadas para este fim de semana acima de 40 graus no Rio de Janeiro. Coloque-as no seu MP4/iPod e corra para a praia.

* 4th Disciple & ShoGun Assason - Tha Fall
Joia rara, encontrada numa compilação obscura de um dos principais produtores do mundo Wu. O 4th Disciple inclusive já contribuiu com beats para alguns dos principais trabalhos do Wu. Nesta faixa, que é de uma coletânea dele, chamada "The Best of 740", com leftovers da carreira, a marca wu-tangclaniana é evidente: batidão pesado, caixas matadoras e um sample sensacional do Star Wars. O Shogun é mais um entre os milhares de emcees afiliados ao Wu, mas não faz feio; a letra é um misto de referências a filosofia 5 Percenter, islamismo, revolução, battle rap e guerra.

* Public Enemy - He Got Game
Depois de assistir ao filme homônimo, do Spike Lee, com Ray Allen e Denzel Washington, imediatamente a faixa título entrou no MP3. Embora tenha sido lançado bem depois dos áureos tempos do PE, Chuck D e companhia continuam contundentes. A batida, que sampleia de forma simples o rock "For What It's Worth", da banda Buffalo Springfield, em nada lembra a anarquia de samples dos primeiros álbuns, mas ainda assim funciona perfeitamente para as rimas sempre cheias de força de mister Chuck. O primeiro verso, então, é espetacular. "Minha caminhada fez o meu traseiro se perguntar / onde está Cristo em meio a esta crise / odiando Satã, nunca soube o quão isso é legal".

* Royce da 5'9'' - Hood Love feat. Bun B & Joell Ortiz
Ainda não ouvi o disco novo do Royce com a devida atenção, mas esta faixa não passou despercebida por mim. "Hood Love" é mais uma para o catálogo de contribuições entre o emcee de Detroit e o lendário DJ Premier. Já dá para saber que o beat é imaculado, né? Pois bem, aqueles samples picotados de forma bem visível e a bateria pulsante continuam lá, só faltou o refrão com scratches. Parece que o Primo está investindo mais em strings, e, assim como o "Ain't Nuttin Changed", do Blaq Poet, o sample principal aqui também está nas cordas. Tudo para Royce e seus parceiros rimarem sobre seus hobbies quando estão na comunidade. Royce entra em modo introspectivo, Bun B fala sobre as particularidades do bairro dele e o Ortiz segue pelo mesmo caminho, mas faz jus a seus quilos a mais e gasta umas boas linhas falando sobre churrasco e outras comidas.

* Wale - Mama Told Me
Mais um álbum que ainda não ouvi direito, e mais uma faixa que, mesmo assim, já capturei. A batida é do promissor Best Kept Secret e é o ponto alto da canção, embora meio que me lembre os beats que saem quando acionam a fórmula de imitar o 9th Wonder - leia-se samples soul e caixas marcantes. Confesso que nem prestei muita atenção no Wale, o instrumental é realmente bom.

* CunninLynguists - Love Ain't feat. Tonedeff
Depois de resenhar o disco novo, acabei revisitando os trabalhos antigos, e achei esta pérola, do disco "Southernunderground". O Tonedeff é um dos caras mais completos do rap, e pouca gente reconhece ele, quase não se fala nele. Aqui, ele ataca novamente com a levada mais rápida do mundo; mas não é só isso: a escrita do cara é sensacional, tanto em termos de mensagem quanto tecnicamente. Ouça e fique doido pensando que ele está repetindo as palavras, quando na verdade é uma montanha de rimas multissilábicas entregues em alta velocidade. O beat do Kno segue aquele estilo dele. O efeito de deixar o Tone rimando a capela para só depois vir a pancada é sensacional.

* Tonedeff - Disappointed
Falando em Tonedeff, chegamos ao primeiro single do último disco do cara, "Archetype". Mais uma vez, as habilidades do cara estão no auge: batida de autoria própria que casa perfeitamente com o tema, que é basicamente o desapontamento do Tone depois que ele consegue sair com a garota dos sonhos e descobre que ela não é tudo aquilo que ele imaginava. A levada é mais lenta, mas o tom de ironia e a capacidade de rimar como se fosse a coisa mais fácil do mundo contam pontos a favor. "Eu usualmente só saio com pilotos femininas, porque elas tem os melhores cockpits"; sendo cock = gíria para pênis; pit = buraco. Pegaram? Hã, hã? Mas a melhor punchline é essa: "Os caras, revoltados, a chamam de puta, eu peço a Deus para que seja verdade / porque uma puta dá para todo mundo, já a vadia dá para todo mundo, menos para você".

* GZA - Cold World
Direto de um dos melhores álbuns de todo tempo, o senhor GZA The Genius nos traz um relato sombrio sobre seu bairro com um storytelling impecável. E então chega Inspectah Deck, mais descritivo do que narrativo, mas ainda em alto nível. O refrão é meio enjoativo, mas a batida turva de RZA compensa qualquer coisa, com minimalismo e obscuridade. É do Rebel INS a melhor linha; depois de falar sobre assassinatos e intrigas do crime, ele arrebata: "Você testemunha a saga, as casualidades e o drama / a vida é um roteiro, eu não sou ator, e sim o autor desta ópera dos dias modernos / onde o protagonista é o papel presidencial, o fator dominante".

* Tech N9ne - Red Nose
Dica do Paulo, que já havia me pedido há um tempo um post sobre essa música, mas, como eu sou vacilão, não tinha atendido ainda. Tech N9ne é um dos caras mais singulares do rap, um estilo completamente diferente do que vemos por aí, seja underground ou mainstream. Na verdade, Tecca N9na é um caso raro de underground bem sucedido financeiramente;ele já vendeu mais de um milhão de discos. Em "Red Nose", ele fala sobre tudo isso numa letra bem pessoal: a desconfiança das pessoas por ele ser tão diferente, algo que ocorre desde sua infância. O flow é sensacional, uma mistura entre levada rápida e cantoria, no melhor estilo Bone Thugs, mas bem mais lírico. O sentimento deste emcee singular é resumido ainda no primeiro verso: "Mano, acredite / nada é pior do que você saber que é bonito / mas ser tratado como um pato feio".

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Tradução: Fashawn - Life As A Shorty

Como prometido na primeira edição do Boom Bap Jams, aqui está a tradução do primeiro single do disco "Boy Meets World", do emcee revelação Fashawn. Produzida pelo Exile, a faixa aborda a infância do rapper de uma maneira bem humorada, mas sem deixar de dar uns cutucões aqui e ali. Lembra também bastante o estilo do Blu, mas isso já foi dito na resenha sobre o álbum.

Verso I:
Lembre-se: vivendo num trailer
cozinhando o jantar num forno velho ou então no microondas
básico, televisão com as mesmas sete estações
com doze polegadas, eu tinha de assistir à TV a cabo nos vizinhos
não sabia o quanto éramos falidos até ficar mais velho
nunca soube que tinha um pai, até ele aparecer
do nada, tentando voltar com a minha mãe
meu padastro aparece, e então começa o drama
eu tive um monte deles, para ser honesto
como o William e o Scott, eles sempre me levavam para fazer compras
Ralphie e Mark, eles me levavam ao médico
eu chamo todos eles de papai, mesmo embora eles não tenham me feito
as crianças costumavam fazer piada com as minhas roupas
até um deles ser esmurrado no nariz
é tipo como se eu fosse forçado a ser durão
a vida de uma criança não deveria ser tão difícil, mas aí

Refrão: J. Mitchell
Mesmo embora eu seja jovem e não possa ver
a floresta das árvores, siga-me
e quando eu for crescido, você sabe que eu serei
o H.N.I.C.*, siga-me
Mamãe, eu vou estar bem, só deixe-me fazer minhas coisas
seguindo meus sonhos, este sou eu

Verso II:
Primeira luta, terceira série, eu estava girando nos ombros
daquele menino chamado Darian, ele era três anos mais velho
e uns 60 centímetros mais alto, eu terminei, ele começou
tudo por causa daquela menina chamada Barbara Johnson
"sem sentido" foi o que pensei quando o diretor chegou
aquele lábio carnudo realmente mudou o meu jeito
nunca na minha vida eu havia sentido tanta dor
fui mandado pra casa, mas me segurei por conta própria
dormi direto a cada manhã, foi tipo férias
como eu conseguiria passar de ano na sexta série?
porque eu estava sempre matando aula, andando junto com alguns excluídos
com distúrbio de déficit de atenção, e todos eles fumavam maconha
nunca leram algo de literatura, não eram bons ouvintes
nunca prestaram atenção, então passaram a andar ao meu redor
enquanto meus pais estavam nas ruas
eu construí o meu mundo numa folha limpa, apenas pensando em mim mesmo

Refrão

Verso III:
Veja só, difícil de esquecer todo o tempo que eu ia gastar
com a minha primeira transa, até me fez evitar os meus amigos
coloquei o meu coração numa luva com quinze anos
ela dizia que me amava, mas era tudo fingimento
ela me traiu, então rapidamente aquilo chegou ao fim
ela colocou a culpa em mim, fui enganado, admito isso
andando com meus amigos, nunca liguei para ela de novo
cinco anos depois, soube que ela havia tido um filho, que merda
eu acho que o tempo voa quando você está se divertindo
então aproveite a vida, você só tem uma
eu amei minha infância, apesar dos tiroteios
eu fui bastante feliz crescendo na favela
não foi tão ruim assim, tendo alguns pais
a única coisa que eu não gostei foi não ter dinheiro
o que eu daria por alguns trocados
cara, a vida de criança não deveria ser tão difícil, mas aí

*: H.N.I.C. é uma sigla para Head Nigga In Charge, que significa mais ou menos o cara que está no comando, mas num sentido pejorativo.

Vídeo de "Life As A Shorty":

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Cunninlynguists: Strange Journey Volume Two

Ano: 2009
Gravadora: QN5 Music
Produtores: Kno (todas as faixas, exceto 11 e 13), Blue Sky Blacj Death (faixa 11), J-Zone (faixa 13).
Participações: Freddie Gibbs (faixa 2), Extended Famm (3), Substantial (3), Sean Price (4), Poison Pen (4), Cashmere The Pro (7), Geologic of Blue Scholars (9), Grieves (9), Macklemore (9), Evidence (14), E-40 (14), Witchdoctor (15).

Na luta pelo prêmio de hip-hoppers que mais ocupados estiveram durante o ano, os Cunninlynguists lançaram o segundo volume do híbrido de mixtape/álbum/coletânea dedicado às agruras de se estar na turnê "Strange Journey". Como na primeira edição, que chegou aos nossos ouvidos no começo do ano, o trabalho traz várias participações inusitadas, expandindo o cardápio de rappers para além do catálogo da QN5 - e isso não é uma crítica. Um ponto divergente entre os dois discos, porém, é o alvo dos holofotes. E "Volume Two" soa muito mais como um protótipo de álbum de produtor do talentosíssimo Kno, o beatmaker do grupo. E isso também não é uma crítica.

Das 16 faixas do álbum, 13 são produzidas por Kno - as outras são um remix do coletivo Blue Sky Black Death, um beat de J-Zone e a última, uma versão ao vivo de "Nothing to Give", de "A Piece of Strange". E o que nós percebemos é que o branquelo por trás das caixas e bumbos cada dia mais consolida o seu estilo e expande seu leque de opções, por mais contraditório que isso possa parecer. E o grande trunfo para essa abertura é, suponho, os diferentes estilos de emcees que aparecem para dar um alô e cuspir 16 linhas. Caras criados a base de boom bap nova-iorquino como o inigualável Sean Price, ou malandros veteranos da Califórnia, como o também carismático E-40, meio que forçam Kno a esquecer um pouco aqueles samples vocais vindos das profundezas de um sebo obscuro e os cortes absolutamente elegantes. Mas o moleque não é tão submisso, e também força os rappers a se encaixarem nos seus padrões. No fim das contas, é um meio-termo, um impasse "vai-você-um-pouco-que-eu-vou-também" que faz a festa dos ouvintes.

"Streets", a tal faixa que traz Sean P, é um exemplo. Uma voz masculina sussurrando "streets" por toda a faixa mostra as armas de Kno, mas é razoável imaginar que, ao perceber a levada imaculada de Ruck, o beatmaker se viu obrigado a colocar mais peso em suas caixas. Mas é quando o ciclo se fecha à gravadora QN5 e seu cast que as coisas ficam realmente sérias no disco. Primeiro, a Extended Famm, com Tonedeff e PackFM, aparece no remix de "The W.W.K.Y.A. Tour" e nos provê com a única que segue realmente o tal conceito das turnês. Com rimas hilárias, o pessoal nos conta situações típicas de um grupo de rap na estrada, como os invejosos e, claro, as vadias. O beat é Kno no que ele faz melhor: pilhas de samples organizados com a maior finesse possível, sem perder o lado amigável da parada - e aquele coro falando "pa, parapa" vai ficar na sua cabeça por dias.

Existem outras demonstrações do maior estilo Kno de produzir. "Tear Trax" é uma delas. O protegido Cashmere The Pro é abençoado com o melhor instrumental do projeto, um beat lindíssimo, com vocais épicos, um violão nostálgico e strings emocionantes. Para fazer jus, ele escreve um rap sobre alguma mulher, descrevendo-a de maneira poética e apaixonada, para depois contar a sua estória de esposa que sofre agressão do companheiro mas segue dando chances a ele. E a combinação entre batida e letra é simplesmente perfeita. Seguindo a linha de versos emotivos para bases igualmente emocionantes, chegamos a "Still With Me". O saxofone que guia a faixa é simplesmente lindo e dá o toque ideal para Jermiside e Deacon falarem sobre pessoas conhecidas que já faleceram. Eu nunca tinha ouvido falar do Jermiside, mas ele me surpreendeu, com rimas bem escritas e bem estruturadas e um flow bastante decente.

Como dito acima, o tal conceito de falar sobre assuntos ligadas à época de turnê não é executado neste segundo volume, o que contribui para a impressão de que é mais uma mixtape do que propriamente um álbum. A liberdade dos convidados para falarem sobre o que bem entendem é bem notável. Witchdoctor, por exemplo, fala sobre Deus numa visão bem cristã em "Everywhere". "Running Wild", com os costa-oeste Evidence e E-40 trata dos onipresentes problemas da vida nas ruas com o estilo típico do Oceano Pacífico. A dupla dos Cunninlynguists, Deacon e Natti, só aparece junta, na verdade, em quatro faixas. Dessas, o destaque é para "To be for real", uma análise sobre aquela velha frase do Hip-Hop: ser verdadeiro. E a abordagem dos emcees é bem original.

Chegando ao fim deste "Volume Two", uma certeza: Kno é um produtor espetacular e merece muito mais crédito do que recebe. Caso algum dia tenhamos um projeto solo dele, esta mixtape/coletânea/álbum é um bom indicativo do que podemos esperar. Outra coisa é certa: os Cunninlynguists continuam como um dos grupos underground mais ativos e de maior sucesso nos Estados Unidos. Conseguiram lançar dois trabalhos de grande qualidade num só ano e continuam fazendo música boa. Os caras fecham 2009 com totais perspectivas de maior sucesso nos próximos anos. Sampleando o Emicida: "e foi só com a mixtape, tá?".

Cunninlynguists - Strange Journey Volume Two
1. Departure – Part 2 [Intro]
2. Imperial
3. The WWKYA Tour [Remix]
4. Streets
5. Heart
6. To Be For Real
7. Tear Trax
8. Still With Me [Remix]
9. Close Your Eyes
10. Pit Stop
11. The Park (Fresh Air) [Blue Sky Black Death Remix]
12. Nothing To Give [Live]
13. Cocaine
14. Running Wild
15. Everywhere
16. Arrival [Outro]

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Aceyalone: Aceyalone & The Lonely Ones

Ano: 2009
Gravadora: Deconstruction
Produtor: Bionik (todas as faixas)
Participações: Bionik ( faixas 2, 4, 8 e 9) e Treasure Davis (3 e 7)

Aceyalone é daqueles tesouros escondidos do Hip-Hop. O cara tá na ativa desde o começo da década de 1990 e tem um catálogo de discos invejável. Fez parte também do influente grupo alternativo da Costa Oeste Freestyle Fellowship, um dos primeiros a misturar o jazz e o rap por aquelas bandas. Apesar de tudo isso, nosso amigo Acey raramente é lembrado entre os grandes ícones do rap. Sua levada descontraída, suas letras complexas e o carisma estampado em cada sílaba pronunciada não foram suficientes nesta máquina de Lil'Waynes e The Games que se tornou a indústria do Hip-Hop.

Além de tudo, Aceyalone é inquieto. Seu mais novo projeto consiste em revisitar os gêneros-pais do rap. O primeiro disco da série foi "Lightning Strikes", no qual o emcee californiano fez uma viagem sonora à Jamaica do ragga e dancehall. O segundo volume é um pouco mais tradicional: o R&B dos anos 1960 é o escolhido para esta regressão musical. Para tanto, Acey chamou a banda The Lonely Ones para a empreitada. O resultado é o disco homônimo: "Aceyalone & The Lonely Ones", e já dá para ver que a missão foi incorporada inclusive no título da parada.

O interessante é que, para se adaptar ao conceito do álbum, Aceyalone precisa mudar um pouco seu estilo. As rimas complexas supracitadas, cheias de duplo significado e com malabarismos líricos, ficam para trás, em favor de uma escrita mais simples, mais direta. Podem argumentar que Acey teve de fazer concessões à sua arte, mas a verdade é que, se ele quer revisitar antigos gêneros e emulá-los numa roupagem Hip-Hop, isto é necessário. De alguma maneira, porém, o rapper compensa com o flow característico, que faz a arte de rimar parecer tão fácil e simples, a ponto de qualquer um querer ser um emcee nos dias de hoje. Não, amiguinhos, o que o senhor Aceyalone faz não é tão simples quanto parece; a capacidade de enfatizar a palavra certa na linha, o controle de respiração, o ar blasé de quem sabe que rima muito bem, tudo isso é algo inerente a Acey.

Mas não se pode cravar que não há boas letras no disco. Existem, e são diversas. Podem tratar de uma mulher que, ao tentar consertar o carro quebrado na estrada, encontra com Aceyalone e é cortejada pelo rapper em "The Lonely Ones", ou até mesmo reivindicar o "poder de volta ao povo" em "Power to the People". Na verdade, parece que Acey se empolga um pouco, porque, na verdade, na verdade, o poder nunca esteve com o povo, não é mesmo? Ainda assim, a mensagem da faixa é bem efetiva e representa uma mudança de marchas no disco. E pode funcionar também como o paralelo para clássicas músicas políticas que o soul norte-americano presenciou em fins da década de 60 e início da de 70.

O que se pode cravar, por outro lado, é que este é um projeto voltado quase exclusivamente para o groove. A já decantada habilidade de Aceyalone no microfone transforma a voz do rapper em mais um eficiente instrumento na banda The Lonely Ones. Um verdadeiro caldeirão tradicional de ritmos negros norte-americanos, o grupo mistura jazz, funk e soul com uma facilidade que só um ianque nativo poderia. O resultado são instrumentais deliciosos, cheios de suíngue e capazes de se intrometerem em qualquer festa black de gêneros antigos sem serem "descobertos" como atuais e, imaginem!, rap. Destaque para o saxofone mortal de "On The One", a apresentação, instrumento por instrumento, dos músicos em "Can't Hold Back", numa atmosfera de improviso e show ao vivo bastante bem-vinda. "The Way It Was" não nega o nome e é uma das mais efetivas na proposta de voltar algumas décadas no mosaico musical dos EUA. Ainda temos a talentosa Treasure Davis dando uma canja em "Step Up" como se tivesse saído diretamente de algum rádio do sul norte-americano de 40 anos atrás.

No fim desta regressão, a impressão que se tem é que Aceyalone é um artista completo, e muito, muito injustiçado. O cara tem êxito tanto nos seus discos "normais" como em projetos conceituais como "Aceyalone & The Lonely Ones". É inegável, porém, que ele está bem mais confortável sobre o R&B deste álbum do que no ragga de "Lightning Strikes". Agora, só nos resta aguardar qual vai ser o próximo gênero revisitado por esse ás esquecido da Costa Oeste. O que mais ele terá de fazer para chamar a atenção e ganhar o respeito da comunidade Hip-Hop?

Aceyalone - Aceyalone & The Lonely Ones
1. Firehouse Intro
2. Lonely Ones
3. Can't Hold Back
4. What It Wuz
5. On The 1
6. Step Up
7. To The Top [Remix]
8. Workin' Man's Blues
9. Power To The People
10. Push N' Pull
11. Outro

Vídeo de "Can't Hold Back":

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Fino: Qu4rto Mundo

Ano: 2009
Gravadora: Material Corrosivo
Produtores: DJ F-Zero (todas as faixas, exceto 2 e 4), Diamantee (faixas 2 e 4).
Participações: Diego Luz (faixa 4), Rato (11) e Alan Arcanjo (11).

Como é de praxe, o fim do ano reserva sempre o maior número de lançamentos no rap nacional. O álbum de estreia do emcee paulista Fino, embora já tenha saído há algumas semanas, é um dos representantes desta leva de verão. "Qu4rto Mundo" é um disco em parceria com o produtor F-Zero, também conhecido como assíduo frequentador do Boom Bap. Propaganda besta à parte, o cara é o responsável pela maior parte do disco, com o beatmaker Diamantee respondendo pelas duas únicas batidas que não passaram pelo crivo do F-Zero.

Apresentações feitas, entremos no mundo de Fino. A primeira informação relevante é algo que já foi até tema de um artigo aqui no blog há uns meses: 70% dos samples utilizados nos beats são nacionais. Isso significa uma novidade em termos de produção tupiniquim e já diz algo sobre como o conceito do trabalho foi levado a sério. Em outras palavras, o tal quarto mundo de Fino já tem trilha sonora definida: ritmos brasileiros, de todas as formas.

O curioso, entretanto, é que a forma como os samples são trabalhos é bastante discreta. Não é uma tentativa gratuita de valorizar a música brasileira; na verdade, é bem provável que, caso você não tenha lido o parágrafo acima antes de ouvir o disco, não fique com a impressão da predominância de músicos nacionais. Os excertos são tratados de forma tradicional e não são a figura principal do álbum: o resultado final dos beats é mais importante do que as fontes utilizadas.

O pessoal que visita o blog pode fazer um paralelo imediato com "Rádio do Canibal", álbum do DJ norte-americano BK-One, que foi todo calcado em samples brasileiros. Mesmo eu tendo escrito, no texto sobre aquele disco, que era mais uma apropriação do que uma tentativa de diálogo, é bem mais nítido que o ianque tenta fazer transparecer a influência tupiniquim. Em "Qu4rto Mundo", não é o caso. O uso dos excertos é natural, e não o mote do trabalho. Talvez o único ponto convergente seja o existente entre "Mega", do registro estrangeiro, e "Violência Gratuita", que utilizam o mesmo trecho.

Afinal, o mote do disco é Fino, e sua visão de mundo. O emcee fala sobre tudo. A onipresente rua e suas armadilhas, a paixão pelo rap, as agruras de um homem comum em uma metrópole incomum. É aceitável encarar "Qu4rto Mundo" como o manifesto da filosofia de vida de Fino, e isso pode ser facilmente justificado em faixas como "Um gole de vinho, um pouco de jazz" ou "Tranquilo". Aliás, a última indica com precisão a personalidade do emcee, sublinhada pelo flow irregular, ora mais preocupado com o ritmo, ora adotando um tom mais conversacional, como se o rapper estivesse travando um diálogo com o ouvinte. E esta aproximação com o público é um dos pontos altos do registro.

A filosofia de Fino ainda encontra ecos na atenção aos detalhes e aos pequenos gestos, como explicitado, de maneira até extremamente didática, em "Tá aqui": "Amar ao próximo e a Deus é só o que você precisa / Dizer um obrigado, um por favor / respeitar os mais velhos: sim, senhora; sim, senhor / estes são gestos simples que tem maior valor". "Hino do Vitorioso", por sua vez, não perde o tom didático, mas agora a execução é melhor. Fino incorpora, guardadas as devidas proporções, o sábio Sun-Tzu e mostra sua "Arte da Guerra" para vencer na vida, com conselhos que são resumidos no refrão: "Lute pelo seu, seja um guerreiro / Mas não esqueça o principal, que é ser verdadeiro".

Mas é em momentos mais reflexivos que Fino brilha mais. "Duas" é o maior exemplo disso. Sobre um loop de saxofone cativante, o emcee confronta sua visão de mundo destilada ao longo do disco com exemplos práticos de sua própria vida. Assim, experiências de amigos, problemas cotidianos, inquietações, certezas e sonhos são postos no liquidificador e tornam-se a melhor letra do álbum. Por outro lado, a relaxante e despreocupada "Um gole de vinho, um pouco de jazz" vai pelo caminho contrário. Continua sendo introspectiva, mas é menos analítica, concentra-se em descrições do cotidiano e exala uma atitude mais otimista.

Na verdade, assim é o tal "Qu4rto Mundo" de Fino. Um espaço tipicamente brasileiro, e não são apenas os samples os responsávies por isso, e sim a própria mentalidade do emcee. Podemos considerá-lo um bom representante do brasileiro comum: cheio de dificuldades, mas ainda assim otimista, crente que o mundo melhora no próximo dia. O cara que para para refletir, mas logo depois está sorrindo com os amigos. Um cara tranquilo, que toma um vinho e ouve um jazz para relaxar e fugir dos monstros e da violência gratuita.

Fino - Quarto Mundo
1. Esboço
2. Tá Aqui
3. Esse é o meu rap
4. Um gole de vinho, um pouco de jazz
5. Rua
6. Monstros
7. Skit
8. Violência gratuita
9. Intervalo
10. Hino do Vitorioso
11. Tranquilo
12. Cada um sabe bem o que quer
13. Muro
14. Duas
15. Skit Jorge
16. Qu4rto Mundo

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Boom Bap Jams Volume I

Não, não é uma coletânea de faixas. Esta é uma seção nova do blog que eu espero manter constantemente atualizada, até porque não será algo complexo de se fazer. A proposta de "Boom Bap Jams" é postar aqui as músicas que eu tenho ouvido com mais frequência nos últimos dias. É uma forma de falar de faixas que vazaram na net ou que estão em álbuns que não necessariamente foram resenhados aqui. Enfim, dá maior liberdade do que o formato da resenha tão explorado no site. E, claro, peço a participação de vocês. Postem as faixas que têm ouvido ultimamente e assim podemos criar uma grande rede de dicas, sempre conhecendo coisas novas. Só depende de nós, certo?

A periodicidade da coluna é algo imprevisível, mas é certo que não será menos do que semanalmente, até porque não faria sentido. Como eu não sou muito bom com promessas, não vou estabelecer um compromisso, mas espero postar sempre novos volumes. Depende das mudanças no meu MP3 Player também, né?

Pois bem, vamos às músicas mais tocadas no meu humilde mp3 de 1 GB em que o botão de aumentar volume está quebrado e para mudar de faixa é necessário fazer esforço dobrado, porque o skip também está avariado. Só um adendo final: não estão incluídos na lista os dois singles nacionais postados esta semana, porque eu já falei sobre eles. Mas eles estiveram entre os mais tocados!

* Jay Electronica - Exhibit C
Geralmente evito snippets e faixas ripadas do rádio, mas li tantos elogios sobre "Exhibit C" que precisei conferir. E não me arrependo. Sobre um beat imaculado de Just Blaze, Jay simplesmente arregaça no microfone: rimas sensacionais, várias punchlines, uma voz confiante e muito carisma. Sem refrão, sem frescura. São tantas linhas que me chamaram a atenção que fica difícil escolher só uma, então vai um monte: "Comendo rappers fracos vivos e cagando cordões"; "Eu faço o diabo ficar de joelhos e recitar a oração"; "Matar um mano, roubar um mano, bater num mano, explodir / É por isso que quando você fala essa conversa pesada eu não te entendo / você soa muito bem e faz sua parte bem, mas a energia que oferece é tão pouco familiar..."; "Minha mãe me ensinou a nunca jogar a pedra e esconder a mão"; e a melhor: "Eles me chamam de Jay Electronica, foda-se / Chame-me de Jay ElecHannukah, Jay ElectRamadaan Muhammad Asalaamica RasouAllah Supana Watallah através do seu monitor".

* The Notorious B.I.G. - Miss U
Quando falamos em "Life After Death", raramente nos lembramos desta faixa. Na maioria dos álbuns, eu sempre gosto de uma música que ninguém comenta. "Miss U" é assim. As habilidades de storytelling do Biggie estão afiadas aqui: ele conta a história de três pessoas das quais ele sente falta: um amigo de infância, um parceiro de crime e uma garota metade amiga, metade parceira de crime. O instrumental cai como luva: pianos e strings dando aquele clima nostálgico e um refrão ultra-baba do 112. Mas, admitam, quem não gosta de uma baba de vez em quando?

* Buff1 - When The Winter Comes
Eu já tinha ouvido falar de que Damu The Fudgemunk aka meu produtor predileto atualmente tinha produzido um beat para o Buff1. Na última semana, finalmente a pepita foi lançada. E, obviamente, não me desapontou. As caixas continuam pesadas, o andamento continua frenético, os metais do refrão são suingados, o piano dos versos é discreto e eficiente, mas aquele sample vocal que mais parece um fantasma é o melhor de tudo. Ah, as rimas de Buff1 sobre a chegada do inverno e suas consequências físicas/psicológicas até que não são ruins...

* Life As A Shorty - Fashawn
Já tinha comentado sobre a faixa na resenha do disco do Fashawn, e ela não saiu do MP3 ainda. A batidinha quebrada do Exile e as rimas autobiográficas do moleque californiano compõem uma das melhores músicas do ano. E uma tradução está para aparecer aqui no blog.

* Marechal - Espírito Independente
Mais uma vez, algo incomum: um áudio ripado do DVD do Leando Sapucahy, no qual o Marechal faz uma participação sensacional. A versão de "Espírito Independente" numa roupagem menos ortodoxa é sensacional, mas a letra é algo fora do normal, sem contar a energia que o Marechal coloca no palco. Tive a oportunidade de conversar com o cara há algumas semanas, e o maluco é muito gente boa. E lê o nosso humilde Boom Bap, vejam só. "Os verdadeiros sabem de onde vim, reconhecem quando os versos são de coração / Um só caminho, mas que música é uma missão / Não rendo pra gravadora, quer me por sobre pressão / Não sei fazer o som do momento, eu faço do momento um som!".

* Emicida - É como um sonho
Acho que finalmente estão despertando de vez para a força que a mistura entre samba e rap tem. O cavaquinho de "É como um sonho" é muito bem-vindo. A letra do Emicida foi encarada por alguns como arrogância, mas eu vejo como um momento em que ele parou a caminhada frenética em que está metido há algum tempo para analisar a nova posição dele; daí surgiu esta faixa nova. Além do mais, todo rapper é arrogante por natureza. Gabar-se das suas habilidades líricas está presente nos melhores emcees de todos os lugares desde Afrika Bambaataa.

* Onyx - The Worst
Admito: nunca tinha reparado nesta faixa, embora sempre ouvisse falarem dela. Só o sample do Ol Dirty Bastard no refrão avisando os desavisados - "As primeiras coisas primeiro, cara, você está mexendo com o pior" - bastaria para carimbar "clássico" na música, mas foi só Sticky Fingaz e Method Man trocarem versos que o carimbo ganhou bis. O Sticky é bastante underrated: "Eu esbofeteio rappers, transformo-os em cantores / toque em algo meu e você vai ficar com nove dedos".

* Masta Ace & Edo G - Little Young
O primeiro single do projeto colaborativo dos dois veteranos segue aquela linha de rappers experientes tentando ensinar a garotada e reclamando do atual estado do rap. O primeiro verso é do Edo G falando sobre os Lil's que infestaram a cena norte-americana; já Masta Ace fala, adivinhem, sobre os Youngs. Mas, acredite, esta ideia meio tosca funciona muito bem. E a resenha deste disco está para breve.

* Cashmere The Pro - Tear Trax feat. Deacon The Villain
Outra resenha que deve sair nos próximos dias. O segundo volume do Strange Journey, do CunninLynguists, saiu, e deu bem mais espaço aos companheiros de QN5 do que o primeiro. Sorte do Cashmere, que recebeu um beat espetacular, no melhor estilo Kno - leia-se samples elegantes, cortados de forma elegante. A letra não é nada de mais, meio voltada para relacionamentos, mas quem liga com um instrumental desses?

* Fino - Um gole de vinho e um pouco de jazz
Batida do meu amigo Diamantee. Como diz o título, é bastante jazzy, com um pianinho preguiçoso ditando o ritmo do flow conversacional do Fino, que é uma característica muito marcante no estilo do cara. É meio spoken word, meio rimado, e fica bem diferente, original. Eu achei o refrão meio forçado, mas nada que eu possa reclamar. Posso estar me complicando com tanta promessa, mas acho que o texto sobre este álbum sai ainda no fim de semana. Fiquem ligados!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

MC Arnaldo Tifu: Pra Cascá

Mais um single nacional para nossos ouvidos. Diretamente do selo Pau-de-dá-em-doido, o paulista MC Arnaldo Tifu apresenta o primeiro single do seu álbum "A rima não para", que deve estar nas ruas em dezembro deste ano. "Pra Cascá", o nome da faixa, é produzida pelo DJ Nato-Pk, também integrante do PDD.

O refrão do single já estabelece metas ambiciosas para uma só track: "Essa é pro tiozinho curtir, pras minas dançar, sacudir / pra vagabundo pirar e a pivetada pensar / essa é pra cascá". Será possível atingir todos estes objetivos? Equilibrar forma e conteúdo de tal maneira? Bom, com o beat oferecido por Nato o caminho fica bem mais fácil. Calcado num boom bap que faria DJ Premier bastante orgulhoso, o DJ emprega samples exuberantes numa estética também muito parecida com aquela que consagrou Primo. O resultado? A melhor batida que o lendário produtor nova-iorquino não produziu, das melhores do ano em terras tupiniquins, e capaz de agradar tanto as pistas quanto aqueles que preferem apenas balançar a cabeça acompanhando as caixas.

Com um instrumental tão inspirador, a espera é por uma performance condizente de Tifu. E isso ocorre, particularmente pela energia e empolgação que o emcee faz transparecer a cada sílaba que canta. Aliás, é bem provável que estes predicados de Tifu são grandes responsáveis pelo fato de "Pra Cascá" funcionar bem em qualquer ambiente. Liricamente, a meta de tocar em vários assuntos cobra seu preço por ser tão ambiciosa. De fato, Arnaldo fala de vários temas - sua filosofia de vida, mulheres, família, revolução -, mas não se aprofunda em nenhum; obviamente, alguns minutos a mais seriam necessários para tal. No fim, o single cumpre o seu papel: nos apresenta a personalidade de Tifu, os tópicos que ele deve explorar no seu disco e fica grudado nos nossos ouvidos.

Download - MC Arnaldo Tifu: Pra Cascá

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Nel Sentimentum: M.C.E.E.

O emcee e produtor curitibano Nel Sentimentum lançou recentemente um novo single. Aparentemente sem ser um prelúdio para qualquer projeto vindouro "M.C.E.E." é, como o próprio nome sugere, uma faixa dedicada à arte de rimar. Apesar do próprio Nel ser um beatmaker - e dos bons, diga-se de passagem, o beat da faixa fica por conta da dupla Dario e Menor.

O mais notório no single é que Nel vai além de um discurso metalinguístico: mais do que rimas sobre rimar, o ponto tocado é a questão da mensagem, algo bastante presente e sempre cobrado nos versos de um mestre de cerimônia. Não à toa, as primeiras palavras proferidas na faixa abordam justamente isso: "Muito antes dos raps, muito antes dos breaks, tinha gente nos mics, sem pickups e DJs / Martin Luther King foi lá, falou e fez, igual a Zumbi, com o regime português / na base das palavras, em articulação comandava a grande massa pronta pra revolução". Além disso, sobra para os emcees fracos, um dos temas prediletos de 11 entre dez rappers, e também uma análise mais intimista sobre o papel da arte de versar na vida do próprio Nel. Ah, e não esqueça o outro significado do título da faixa, revelado no refrão: "Música, corpo, espírito e elevação".

Com relação ao beat, é mais um com o selo CWBeats de qualidade. Impressionante como os curitibanos assumiram merecidamente o posto de fonte de instrumentais de qualidade nos últimos anos. Em "M.C.E.E.", a cortesia é de Dario e Menor, e o resultado é, adivinhem, sensacional. O clima é intimista, e dá a sensação de que Nel está pensando em voz alta, na maior tranquilidade. Atenção para os detalhes da batida: o piano que entra na hora do refrão dá um toque a mais para a faixa.

Download: Nel Sentimentum - M.C.E.E.

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Atualização: O Per Raps publicou uma resenha que cedi a eles sobre o disco do Nel, "Sentimentumlogia", que foi lançado no final do ano passado. Vale a pena conferir.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Fashawn: Boy Meets World

Ano: 2009
Gravadora: One Records
Produtor: Exile (todas as faixas)
Participações: Aloe Blacc (faixas 3 e 4), DeVoya Mayo (3), J. Mitchell (5), Evidence (7), Blu (9), Co$$ (11), Mistah F.A.B. (11), Exile (12).

Acho que o blog nunca ficou tanto tempo sem atualizações como nas últimas semanas. Culpem a faculdade, o trabalho e o feriado pelo fenômeno. É que, no auge dos meus 21 anos, um turbilhão de coisas acontece ao mesmo tempo. É uma fase meio que crucial para a transição de um jovem vagabundo para alguém com responsabilidades. É tipo o momento em que o menino encontra o mundo. Sim, eu usei minhas desculpas costumeiras e esfarrapadas para introduzi-los a "Boy Meets World", o disco de estreia do Fashawn, um jovem emcee californiano, de apenas 20 anos. O projeto foi todo produzido pelo Exile, que já virou craque em fornecer beats para moleques da costa oeste criarem clássicos.

Ops, eu disse clássico? Pois é. Mas é preciso fazer uma ressalva: "Boy Meets World" é um clássico contemporâneo, longe dos trabalhos hors-concours da golden age norte-americana. Em suma, é um discaço, mas para os padrões atuais. Não bastasse os instrumentais impecáveis de Exile, Fashawn é um rapper bastante talentoso e dinâmico. A fórmula para o álbum é um pouco parecida com a utilizada por Blu no igualmente clássico pós-era de ouro e igualmente beats-cortesia-de-Exile "Below The Heavens": rimas bastante pessoais, capazes de fazer o jovem comum se identificar facilmente.

Bom, esqueçamos Blu de lado, porque as comparações com John Barnes, embora meio que inevitáveis, já se tornaram repetitivas. Fashawn tem todas as características para fazer seu nome sem estar à sombra de ninguém: carisma, bom flow, letras com temas diversos e ótimo ouvido para beats. E, acima de tudo, sinceridade. É bastante elogiável como ele planejou seu disco todo em torno do conceito do jovem que vira adulto, do moleque que sai dos tempos de escola e precisa trabalhar, a hora da verdade, que separa os homens dos meninos. E "Boy Meets World" é um testamento dessa fase. Mais do que isso: é um manifesto para todos que estão passando atualmente por isso, ou mesmo os que já passaram. É claro, com todas as particularidades inerentes a um jovem vindo da classe baixa.

"Life as a shorty", o primeiro single, reflete bem esta ideia. Embora o título seja uma homenagem à clássica linha de Inspectah Deck em "C.R.E.A.M.", não há o previsível sample do Rebel INS. Em vez disso, um refrão cantado por J. Mitchell e rimas autobiográficas por parte de Fashawn, que mostra sua sinceridade: admite que seu primeiro amor o traía, diz que teve um monte de "pais" durante a infância, revela que seus amigos não se interessavam "por literatura, não eram bons ouvintes e não prestavam atenção, por isso andavam comigo". Mas não é só lamentação. As últimas palavras do moleque mostram outro ponto de vista: "Eu amei minha infância, apesar dos tiros / eu era bastante feliz crescendo na favela / não foi tão ruim, tive alguns pais / a única que eu não gostei foi não ter dinheiro".

Essa capacidade de relatar as desventuras dos garotos encontrando o mundo não fica só nas dificuldades. "Lupita" é uma faixa com toque latino em homenagem à menina que batiza a canção. "Samsonite Man" junta Fashawn a Blu para ambos trocarem impressões sobre suas viagens e discutir como é ficar fora de casa por tanto tempo quando se leva a vida de shows, gravações e encontros de um rapper. "Bo Jackson" traz Exile no microfone, com tanto produtor quanto emcee trocando versos de forma descontraída sobre um beat igualmente leve. "Sunny CA" é o hino à área de Fashawn, junto com os conterrâneos Coss e Mistah Fab.

Mas é quando o jovem emcee toca em aspectos mais sérios que sua estrela brilha mais. E o melhor de tudo é que o conteúdo equilibra-se de forma satisfatória com a forma. "Freedom" é um bom exemplo: não bastasse o sample de Talib Kweli no refrão, Fashawn transborda habilidade lírica nos versos, o primeiro sendo uma aula de como abusar de rimas internas e multissilábicas sem prejudicar a mensagem. "Hey Young World" é a faixa mais jazzy do álbum, quase que um resumo do conceito do álbum. O poder de "Why", seus strings melancólicos e o sample vocal ainda mais doce é resumido em uma das primeiras frases de Fashawn: "É hora de pararmos de sermos baby daddys (nota: uma gíria para pais ausentes) para sermos pais de verdade". E não esqueça a potentíssima "Boy Meets World", uma biografia mais completa do emcee.

Depois de três parágrafos longos falando sobre as proezas de Fashawn, é justo dedicar pelo menos um para o arquiteto do disco. O trabalho de Exile no álbum mostra o beatmaker ainda masi impecáveis no soul-hop tão característico dele, mas já aponta novos horizontes no trabalho do californiano. O violão latino de "Lupita" é uma das pistas que ele deixa, assim como a sombria "When She Calls", que encaixa perfeitamente no clima do storytelling de Fashawn. Aliás, o entrosamento entre emcee e produtor é evidente. Faixas como "Boy Meets World" e "Stars" mostram como Fashawn fica confortável e sabe interagir sobre os beats de Exile.

As coincidências com "Below The Heavens" são muitas: mesmo produtor, estética parecida, emcee jovem rimando sobre sua vida. Mas Fashawn mostra que não é uma cópia de Blu, e sim um artista com todas as condições para estar na linha de frente do Hip-Hop nos próximos anos. O mais interessante é que o moleque não se destaca só pelas letras, ou pelos beats: as canções, como um todo, têm qualidade, o que é bem mais difícil de se conseguir do que apenas rimas complexas ou beats matadores. Talvez o denominador comum entre os dois álbuns esteja numa simples palavra: clássico. Contemporâneo, mas ainda assim um clássico. E fortíssimo candidato a melhor disco do ano.

Fashawn - Boy Meets World
01 Intro
02 Freedom
03 Hey Young World
04 Stars
05 Life As a Shorty
06 The Ecology
07 Our Way
08 Why
09 Samsonite Man
10 Father
11 Sunny CA
12 Bo Jackson
13 Lupita
14 When She Calls
15 Boy Meets World

Vídeo de "Life As A Shorty":

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Sene & Blu: A Day Late & A Dollar Short

Ano: 2009
Gravadora: Shaman Works
Produtor: GODlee Barnes.
Participação: Co$ (faixa 12).

Quando Blu explodiu em 2007 com seu álbum de estreia "Below The Heavens", muitos trataram o moleque como uma das grandes promessas do rap para os anos subsequentes. Poucos imaginavam que o cara iria corresponder tanto às expectativas. Depois da sua estreia, ele esteve presente em outros dois álbuns e manteve a qualidade. Não satisfeito, John Barnes resolveu começar a produzir seus próprios beats. Lançou uma mixtape, duas beat tapes e encontrou no nativo do Brooklyn Sene o companheiro ideal para sua primeira aventura a sério. O resultado disso é "A Day Late & A Dollar Short", primeiro disco de Sene e do produtor GODlee Barnes, a alcunha adotada para a versão beatmaker de Blu.

O projeto, coincidência ou não, lembra bastante a estreia de Blu em vários aspectos. O primeiro é o formato: tal qual os clássicos produzidos nos anos 90, a divisão de tarefas é clara. Um emcee rimando, com eventuais mas raros convidados, e um produtor...produzindo. Simples, rasteiro e eficiente. Longe das tracklists com os beatmakers mais quentes do momento e uma coleção de rappers convidados que fazem discos parecerem um guia "Quem é Quem" para novatos do rap. Afastado desta orgia rapeira, "A Day Late..." dá o espaço ideal para GODlee Barnes pôr seus talentos à prova. A pressão, por outro lado, é grande: será que o moleque que impressionou a todos rimando poderia fazer isso desta vez com MPCs?

A resposta é sim. Blu tem uma estética bem própria e consegue transferir isso para o disco. A timbragem é suja, as caixas têm um feeling old school, embora não sejam necessariamente pesadas. Os samples são oriundos principalmente do jazz, mesmo que o álbum tenha saído bem menos jazzy do que se supunha depois de ouvir os primeiros beats de Blu. Ainda assim, o maior mérito do cara é ter mesclado consistência e variedade de forma satisfatória, de forma a conseguir manter o nível de qualidade durante toda a audição do álbum. No fim das contas, espere pianos à vontade, teclados, vocais femininos passeando ao fundo e um climão tranquilo permeando todo o trabalho.

Sene, por sua vez, responde aos vários outros aspectos que remetem "A Day Late..." a "Below The Heavens". À parte o flow e a voz parecidos, o moleque - outra semelhança com o Blu de dois anos atrás - toca basicamente nos mesmos temas. A aposta, embora não tão confiante e proeminente, é em relatos pessoais capazes de fazer qualquer um entre 18 e 30 anos se identificar. Um exemplo é o single "QuarterWaterSupporter", uma viagem nostálgica até o Brooklyn da infância do emcee, rememorando todas aquelas situações que nós guardamos com carinho da nossa criação.

A performance de Sene, num geral, é satisfatória. Excetuando alguns refrãos irritantes e eventuais "desaparecimentos" perante o microfone, o moleque mostra que é excelente tecnicamente. No leque de temas dos quais ele trata, destacam-se o excelente conceito de "EveryDejaVu", outra vez um golpe certeiro no jovem comum das cidades: as rimas falam das rotinas repetitivas e de como as coisas passam rápido; "WonLover", um jogo de palavras no melhor estilo "I Used to Love H.E.R."; e "Ain't No Justice", cuja argumentação do título se dá através de um storytelling bem executado. Entretanto, nem tudo é sério. O loop de um piano despreocupado em "WhyBother?" dá a sugestão do conteúdo dos versos. Falando em sugestão, "JusASuggestion" fecha o disco de maneira espetacular. Na possivelmente melhor faixa do álbum, tudo funciona à perfeição: a bateria quebrada, os samples vocais ocasionais, a guitarra cortada, o teclado...A mensagem, cheia de motivação, também é ótima.

No geral, "A Day Late & A Dollar Short" é um álbum que atinge o seu limite. Blu faz um bom trabalho como produtor e, se continuar a se desenvolver, pode equiparar seus dotes de beatmaker aos de emcee num já aguardadíssimo disco solo. Sene, por sua vez, faz o que é possível, mas escorrega em altos e baixos naturais para uma estreia. Pesa contra ele a comparação com o seu agora produtor, mas às vezes fica a sensação de que ele mesmo tomou este caminho.

Sene & Blu - A Day Late & A Dollar Short
01. PressPause
02. WonLover
03. QuarterWaterSupporter
04. WhyBother?
05. WonThousandGirls
06. SmokeRosebudsOnAshyAvenue
07. TheWonderers
08. CloudClimbers
09. EyeCry - TheBefore
10. OwlThruGotham
11. EveryDejaVu
12. Ain'tNoJustice
13. EyesDry - TheAfter
14. JusASuggestion

Vídeo de "WonLover":

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Neto Beats: NetoMix Vol. 2

E mais um participante do Concurso Boom Bap de Beats chega com trabalho na área. O Neto tem 15 anos, é de São Paulo e também foi finalista na peleja que escolheu um beat para o Ogi e foi vencida pelo DJ Zala. Esta é a segunda compilação de remixes que o moleque lança e já tá pela internet há pelo menos um mês, mas só agora esse infame blogueiro coloca o trabalho aqui no Boom Bap. Falando em blog, o Neto também tem um site, o OutroMundo, que vocês podem acessar clicando aqui. Lá também tem resenhas, entrevistas com nomes do rap nacional, etc.

Voltando para a coletânea, este volume foi lançado alguns meses depois da primeira experiência do beatmaker e, como ele mesmo disse no blog, tem um material melhor selecionado, ao contrário do primeiro, que foi simplesmente a coleção de remixes dele. O projeto incluem faixas bem conhecidas, como "It Ain't Hard to Tell", do Nas, e "Dead Wrong", do The Notorious B.I.G. Esperem ainda revisitas a nomes como Ogi, Elo da Corrente, Mobb Deep e Jay-Z, entre outros.

Enquanto o Diego 157, no post anterior, buscou sonoridades mais brasileiras, o Neto enveredou para o caminho do jazz. São vários pianos sampleados e caixas sujas. O mais legal é ver que, ainda adolescente, o menino continua aprendendo e tem tudo para, mantendo o interesse e o desenvolvimento, ser uma das boas fontes de beats do Brasil nos próximos anos. Fiquemos de olho.

Neto Beats: NetoMix Vol. 2
01 - Ralph, Rael & Jordan - Ruge Leão
02 - Jay-Z - Threat
03 - Nas - It Ain't Hard To Tell
04 - Mobb Deep - Hell On Earth
05 - Murs - 3.16
06 - OGI - Por Aí Vou Vagar
07 - Afu-Ra - Defeat
08 - Notorious B.I.G. - Dead Wrong
09 - Elo Da Corrente - Ei
10 - AXL - Uma Lágrima

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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Diego 157: Originais e Remixadas Vol. I

Diego 157 foi outro finalista do Concurso Boom Bap de Beats, mas é bem mais que isso. O cara é um dos bons nomes do rap baiano, tanto como emcee no grupo 157 Nervoso quanto como beatmaker. O novo trabalho de Diego é a mixtape "Originais e Remixadas Vol. I", na qual ele remixa alguns clássicos do rap, além de faixas nacionais. O resultado é um tempero brasileiro em canções como "The Light", do Common, e "Letter 2 My Unborn", do 2Pac. Não bastasse isso, expoentes da nova safra tupiniquim têm seus trabalhos visitados pelo produtor baiano, como Ogi, Emicida e Cabes.

O projeto serve até como uma ferramenta para "educar" novos fãs do rap. É que Diego, antes de apresentar sua versão, solta a original. Outro ponto legal e digno de nota é a quantidade de artistas nacionais remixados, algo que não é muito comum por aqui. Das 12 faixas do trabalho, oito são made in Brazil. Mas, em meio a percussões brasileiras e samples tranquilos, é a voz infantil apresentando a mixtape do pai logo no início a parte mais emblemática da parada. E foi só o início, o prelúdio para a criatividade que transbordaria até o último segundo da audição. Enfim, fiquem com os remixes de Diego 157.

Diego 157 - Originais e Remixadas Vol. I
1.Common – The Light
2.Ogi – Por aí vou vagar
3.2pac – Letter 2 My Unborn
4.Inumanos – Monstros Lapa
5.Inspectah Deck – R.E.C Room
6.AXL – Uma Lágrima
7.Daganja – Vai Buscar
8.Inquilinus – Regras e Critérios
9.Elo da Corrente – Ei
10.Emicida – Triunfo
11.Krs One – Fucked Up
12.Cabes – Diga Sim

Download

Contatos:
http://www.twitter.com/diego_157 (Twitter)
http://www.mauselementos.blogspot.com (BlØg)
http://www.myspace.com/classeabeats (Beats)
http://www.myspace.com/157nervoso (GrupØ)
http://www.myspace.com/diegocbx (SØlØ)

sábado, 17 de outubro de 2009

Entrevista: DJ Zala

O atraso desta vez é de alguns meses, mas tudo bem. O DJ Zala, para quem não se lembra, foi o vencedor do Concurso Boom Bap de Beats, e ganhou o direito de ter seu beat rimado pelo Ogi no disco que o emcee está preparando para 2010, "Crônicas da Cidade Cinza". Como parte do prêmio, o ganhador também seria entrevistado pelo blog. Acontece que esta entrevista não para por aí. Jefferson Lemes do Nascimento, 27 anos, cria do Tucuruvi, é também o organizador da Liga dos Beats, que vai acontecer hoje em São Paulo - mais informações no Per Raps.

Boom Bap: Como você se envolveu com o rap?
DJ Zala: Acho que em 2003 ou 2004, quando, pra fazer oficina de DJ, comecei a frequentar a casa de Hip-Hop de Diadema. Lá, eu aprendi muito, sou eternamente agradecido àquele lugar. Tive oportunidade de a assistir grandes shows e também de ajudar a organizar algumas festas.

Antes você só curtia as músicas, sem produzir nada, certo?
Não, além de ouvir rap eu fui pichador e depois fiz grafitti por uns dois ou três anos, e a trilha sonora desse tempo foi muito rap, principalmente rap nacional, mas eu sempre tive vontade de fazer rap.

Chegou a tentar escrever algumas rimas ou sempre se interessou pela produção?
Eu sempre me interessei por produção. Com uns 15 anos, eu comecei a trabalhar em um jornal, e eu lia três jornais por dia, dois de São Paulo e um do Rio, e era uma época em que escreviam muito sobre lançamento de discos e falavam muito sobre a cultura do sample. Polemizavam sobre a questão de direitos autorais . Lembro do caso da música "Contexto", do Planet Hemp, em que usaram sample da música "Mentira", do Marcos Valle, deu uma polêmica na época, lembro que corri atrás das músicas pra conhecer o tal ''sample''. Foi o primeiro original e sampleado que conheci...Isso acho que 1998. Quando ouvi, eu chapei. Tinha um amigo colecionador de discos que trabalhava lá, ele me mostrou a música "Mentira" e eu mostrei a "Contexto".

Você coleciona vinis? Tem noção de quantos discos tem atualmente?
Coleciono sim, estou menos viciado, mas continuo comprando discos. Acho que tenho uns mil discos. Eu trabalhei durante um tempo no sebo do Messias. Ali era impossível não pegar nada.

Já chegou a produzir algum grupo ou emcee?
Eu comecei mesmo a fazer beat há uns três anos. Eu sempre tentei fazer, primeiro no Sound Forge, depois no Acid e Logic, mas perdi tudo quando meu PC queimou. Depois disso fiquei um tempo parado, porque isso acabou tirando um pouco da minha energia. Tenho a honra de estrear com o Ogi.

Então você nunca teve grupo?
Sim, eu fui DJ do Emicida. Formamos a Na Humilde Crew, que eram eu, Emicida, Rachid, Projota, DJ MrBrown, DJ Nyack, o Enio, Djose, Marcelo. A prefeitura até nos financiou no projeto "Mais Clássicos Hip-Hop"...

E como foi esse projeto?
Foi um projeto que aconteceu em 2008, em que eu tive o maior prazer em produzir. Aconteceu quase todo na Zona Norte, organizamos oficinas de Dj, MC, Produção Musical, Beat Box e também uns 12 shows.

Falando do concurso do Boom Bap que você venceu, de onde surgiu a ideia daquele beat? O que você procurou passar com ele? Quais foram suas inspirações e referências? Primeiro, eu ouvi o sample lá na disco 7, chapei, levei pra casa, acho que durante um churrasco em casa eu mostrei pra uns MCs, que disseram: "Nossa faz que esse vai ser o single''. Fui fazer, tentando manter o groove do sample, tentando manter o peso. Quando mostrei pros caras eles disseram a mesmo coisa: ''Ficou foda, mas esse beat aí é pro KRS-ONE rimar, mano''. Respeitei a opinião dos caras.

Então você já tinha o beat antes mesmo do concurso?
Já tinha...

E o que você achava que tinha no beat que casava com o Ogi?
Estava entre dois beats pra inscrever no concurso, mas o nome do disco me ajudou a escolher esse beat. ''Crônicas da Cidade Cinza''... São Paulo é uma cidade tensa, acho que essa música tem um pouco disso.

Muitos reclamaram, falando que o sample já tinha sido utilizado anteriormente. Como você vê isso? Não vejo problema. Desde que seja feito de forma diferente, tá valendo.

Picote, loop, instrumentação. O que você prefere ou acha que casa melhor contigo? Por quê?
Eu trabalho mais com loop e picote, mas sempre acrescento algum elemento, seja tocando um instrumento ou um filtro.

Como você vê a cena de beatmaking aqui no Brasil? Quais os nomes que você mais gosta?
Acho que esta mais fácil começar a fazer, porque está mais fácil o acesso a um computador, aos softwares e ao conhecimento musical. Isso ajudou a difundir a parada. Acho que tem muita gente talentosa e dedicada. Sem ordem de preferência, admiro o trabalho do Dario, DJ Nato, Munhoz, Nave, DJ Zegon, Ganjaman, Marechal, Apolo, Caíque, Slim, DJ Marlboro, Mano Brown.

O que você acha que falta para que os beatmakers brasileiros possam começar a viver de seus beats? São poucos artistas do hip-hop que vivem bem de sua arte, com o beatmaker não é diferente. Alguns beatmakers conseguem negociar seus trabalhos no exterior, acho que essa é a boa - se conectar e vender para os gringos.

Quais são suas principais referências de produtores? O que você pegou de cada um para formar seu estilo? Eu gosto dos samples de vozes usados por RZA, das linhas de baixo do DJ Premier, Pete Rock, e da bateria de J.Dilla. Da simplicidade do Dr. Dre. Acho que Illmind e 9th Wonder bebem dessas fontes.

Como você aprendeu a produzir?
Eu estou aprendendo, mas o que ajuda muito é a troca de idéias com outros beatmakers, aprender a tocar um instrumento, aprender o inglês, ouvir originais e sampleados e transpiração.

Você disse que coleciona vinis. Qual a importância que você acha que uma boa coleção tem para um produtor? Para você, há uma vantagem entre samplear do vinil e samplear de um MP3? Acho que, independente de sua coleção estar numa estante ou num HD, pesquisa musical tem que ser essencial para o beatmaker. Acho que a grande vantagem do MP3 é o acesso. Vinil é fetiche e as vezes é caro, mas a música que sai do vinil é mais quente, é mais pesada, sem falar na arte da capa e as informações da contracapa. Mas, até ter o dinheiro para comprar, vai escutando o MP3 mesmo - e rezando pra não dar um pau no HD.

Como é o seu processo de produção de um beat?
Primeiro pesquiso os samplers, escuto, entendo, loopo e edito direto no Sound Forge 8. Passo para a MPC 1000, seleciono e experimento os timbres, gravo e finalizo no Nuendo 3.

Você toca algum instrumento?
Faço scratch.

Quais são seus próximos projetos?
Mixtapes. Estou organizando também a Liga dos Beats que será dia 17/10, no Centro Cultural da Juventude e em breve tem o Festival Hip-Hop e Cinema de São Paulo.