quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Elo da Corrente: Sonho Dourado da Família

O Natal é daqui a dois dias, mas um dos meus presentes de fim de ano foi lançado ainda no Indie Hip-Hop deste ano. O Elo da Corrente, considerado por este escriba o melhor grupo de rap no Brasil, lançou um EP, intitulado "O Sonho Dourado da Família", contendo sete faixas, corroborando a posição dos caras como pertencentes à elite de letristas em terras tupiniquins - não só no rap, mas em qualquer gênero.

De fato, o lançamento do EP não poderia ter sido em melhor hora, particularmente. Cabe aqui uma história pessoal deste humilde blogueiro para explicar a euforia. No fim do ano passado, passei as férias num paraíso fluminense chamado Angra dos Reis. Entretanto, nos primeiros dias de viagem, para honrar o meu azar, me deparei com chuva e frio. Lá pelo quarto dia, o sol finalmente deu as caras. E este vacilão, como se nunca tivesse visto na praia na vida, passou o dia inteiro no sol, sem protetor solar. Resultado: queimaduras de primeiro grau em quase toda a parte superior do corpo e fim de diversão. A casa onde fiquei era alta, e, da varanda, dava para ver o mar. Enquanto o resto do pessoal estava lá embaixo se divertindo, passei os dias naquela varanda, olhando a praia e ouvindo, adivinhem, "Após Algumas Estações", do Elo.

Posso dizer com segurança que, apesar de já ter ouvido incontáveis vezes o álbum, só naquele momento eu pude compreender todo o trabalho e me fez admirar ainda mais o trio formado por Caio, Pitzan e PG. A poesia inigualável dos emcees, diferente de tudo que vemos no Brasil, e as batidas bem cuidadas foram grandes companheiras naquele momento. Agora, em 2009, retornarei a Angra com o novo EP no MP3. Só espero não ficar todo queimado de novo para ouvir o trabalho.

Depois dessa pequena e triste história pessoal, vamos ao EP. "O Sonho Dourado da Família" é uma continuação do estilo do trio do Elo, com rimas muito além da impressão que temos ao ouvi-las pela primeira vez e um vocabulário riquíssimo. Tudo isso sem descuidar da parte musical: as levadas são pontuais e as batidas, inversamente proporcionais à exuberância dos versos. Excetuando a faixa título, com timbres tão ensolarados quanto este final de ano, a produção segue o caminho do submundo, com excertos sujos, batidas graves, numa mistura entre os pancadões Wu-Tang e a sujeira de um Madlib da vida.

Quanto aos versos, é até difícil falar sobre o trabalho, porque, assim como aconteceu comigo com "Após Algumas Estações", pode ser necessário um bom número de audições para chegarmos à plenitude da mensagem. Um exemplo disso é "Um Filme", um storytelling super detalhado no qual Pitzan e Caio interpretam dois personagens: o último precisa levar uma sacola para o primeiro, que irá se encontrar com o consumidor. O conteúdo não é revelado, embora o tom de urgência e sigilo sugira algo que não deva chamar muita atenção das pessoas. Aí, cabe a cada ouvinte interpretar o som: eu fico com a hipótese de ser uma metáfora ao trabalho de música dos caras; algo meticuloso, que deve ser feito com cuidado e atenção, sem se envolver com as pessoas erradas; talvez também um alerta bem sutil para a situação do artista independente, e toda a produção artesanal, desde a gravação do disco até a venda, que alguém nesta posição precisa enfrentar.

Outros temas não muito comuns são abordados por Caio e Pitzan. Em "A mãe", eles relatam a história de uma escrava vinda para o Brasil e todos os percalços que ela enfrenta em terra brasilis: o trabalho cruel e forçado, o estupro por parte do senhor etc. Até mesmo uma decepção com aqueles que deveriam ajudá-la está no script: depois de fugir para um quilombo, ela percebe que até lá a escravidão está presente, o que a leva ao suicídio. É claro que este é apenas um resumo da história; os emcees a relatam de forma muito mais poética e sutil.

Entretanto, eles mudam de marcha em "Democracia Aonde". Sai o discurso sutil e detalhista para versos que vão direto na jugular. O título já diz bem o teor da faixa, e as rimas correspondem às expectativas numa plétora de frases que logo vão estar na boca dos fãs: "Demoracia é o povo exercendo soberania / Mentira, isso não passa de sonho e fantasia / Olhe a sua volta, os valores trocados / tá tudo escancarado...". Adicione ao assunto sério uma seção de strings sinistras e você tem o tema ideal a ser tocado quando os corruptos forem para seu devido lugar.

Nos quase 20 minutos de audição, o que fica claro é que o Elo continua num caminho único, lapidando cada vez mais seu talento e estilo. Prova disso é "Sonho Dourado da Família", herdeira direta de faixas como "Sementes de Luz" e o "O Amanhecer", tanto na temática quanto nos instrumentais belíssimos. Com dois emcees extremamente competentes e capazes de gerar reflexões mesmo no verso mais simples, o Elo continua na linha de frente do rap brasileiro, com um feito difícil para qualquer artista: equilibrar música e mensagem sem perder qualidade em nenhum dos dois fronts.

Elo da Corrente - O Sonho Dourado da Família
01. O Sonho Dourado da Família
02. Se Faz Necessário Voar
03. Um Filme
04. A Mãe
05. Democracia Aonde?
06. Madrugada
07. Fim

Vídeo de "Se Faz Necessário Voar" ao vivo:


PS: O Boom Bap aproveita para sair de férias e voltar - de preferência sem queimaduras de primeiro grau - a partir de 4 de Janeiro. Desejo a todos um bom Natal e um 2010 de sucesso.

9 comentários:

Lucas disse...

concordo com tuddo q falou... diferente de tudo q vemos no brasil...
elo eh o linha de frente.. seguido pelo rapzodo de curitiba..
abraços

CANBECK disse...

falo bem a real, elo representa bem o rap nacional, qualidade incomparavel....

salve salve, o blog ta muito represents.. continue na levada!

rodrigo disse...

bom álbum, grande show, porém qdo esse tipo de rap elitista é considerado o melhor do genero no Brasil, deve ter algo errado por aqui...


bom trampo...

Anônimo disse...

Vixi mano, Vc foi pra Angra dos Reis?!?!?!

Ta vivo ainda ou foi soterrado?

Anônimo disse...

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leonardo_michels disse...

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