terça-feira, 9 de março de 2010

Kidz In The Hall: Land of Make Believe

Ano: 2010
Gravadora: Duckdown Records
Produtores: Double-O (todas as faixas) e Just Blaze (co-produziu a faixa 9).
Participações: The Kid Daytona (faixa 4), Russoul (5 e 15), MC Lyte (6), Marsha Ambrosius (8), Just Blaze (9), Colin Munroe (9), Chip Tha Ripper (10), Donnis (10), Amanda Diva (11) e Tim William (12).

A dupla de Chicago Kidz in The Hall surgiu na cena há alguns anos como uma das boas revelações do underground americano com o ótimo "School Was My Hustle". Pouco depois, deu mostras de que não queria ficar presa apenas aos confins do rap e tentou se equilibrar na linha tênue entre mainstream e subsolo com "The In Crowd", obtendo relativo sucesso. A transição do emcee Naledge e do produtor Double-O de desconhecidos de uma cidade cuja cena é essencialmente alternativa para raros representantes de um mainstream de qualidade encontra mais um capítulo no novo álbum do duo, "Land of Make Believe".

O novo disco funciona como o primeiro checkpoint da dupla, e isso é perceptível nas novidades que tanto Naledge quanto Double-O trazem para a mesa com o trabalho. O rapper, que surgiu muito bem no álbum de estreia, misturando carisma e habilidade, apresenta-se em "Land of Make Believe" muito mais contemplativo e introspectivo do que antes, dando sequência a um estilo que ele experimentou com sucesso em "Inner Me", uma das faixas mais elogiadas de "The In Crowd". E não demora muito para sabermos disso. A primeira frase que Naledge pronuncia no novo disco é sugestiva: "Você já se sentiu sozinho numa sala cheia de gente? Às vezes eu me sinto como se meus pensamentos fossem ilegais".

Mas não pense que o repertório do emcee de Chicago foi reduzido a lamentações existenciais e reflexões sobre seu estilo de vida. Pelo contrário. O bom humor que caracterizou Naledge aparece em faixas como "Jukebox", o segundo single, com o jovem rapper usando suas rimas para destilar sua lábia com as mulheres. Os prazeres do chamado sexo frágil e do mundo da noite também não são esquecidos, como podem atestar "Bougie Girls" e "L.O.V.E." - coincidentemente algumas das músicas mais fracas do álbum.

Mas, justiça seja feita, é quando Naledge resolve abraçar uma abordagem mais low-key que o disco ganha frescor e diz realmente a que veio. É assim que o rapper comunica com os ouvintes e passa o caráter de reflexão proposto pelo álbum. O momento de Naledge é de parar, olhar para os primeiros dias da carreira, analisá-los e começar a planejar o futuro. O que ele pode aproveitar? O que ele precisa mudar? Imagine o emcee sentado numa montanha depois de subi-la, pronto para descê-la, e você se conectará automaticamente a faixas como "Take Over The World" e "Do It All Again". Visualize o cara pensando na vida pré-rap e "Simple Life" completará sua imagem. Depois de tudo, use "Land of Make Believe" como uma metáfora para a vida comum e você se surpreenderá com as semelhanças. Todos nós temos este momento de guinada, certo?

Mas a guinada não é só de Naledge. As tais novas cartas postas na mesa também são cortesia de Double-O. Para o novo disco, ele deixou a técnica de sampling de lado para concentrar-se numa abordagem totalmente orgânica. O resultado pode ser percebido mais facilmente em todos os breaks do álbum; as viradas, as "texturas" - na falta de uma palavra melhor -, o peso, enfim, tudo dá a dica de que a transição de Double-O foi bem sucedida. E embora as batidas mais bem cuidadas sejam o esqueleto principal da sonoridade do álbum, dá para ver outras ramificações do trabalho de Double-O: o flerte com as rádios está presente no discreto Autotune de "Flickin" e o lado uptempo tem seus representantes em "Jukebox" e "Running".

Mas é quando os experimentos de Double-O se encontram com as performances mais inspiradas de Naledge que tudo fica melhor. Aliás, o emcee soa mais inspirado porque os beats casam melhor ou os beats soam melhores porque Naledge está mais inspirado? Não importa a resposta, e sim que a introspecção do rapper acha seu tom certo graças às construções do beatmaker. "I Am" é o melhor exemplo; o instrumental ultrapassa o limite do rap, passando um bom tempo apoiando-se apenas num piano melancólico para só depois entrarem os bumbos e caixas numa explosão de energia digna do exercício lírico sem refrão de Naledge, que culmina em samples vocais, sintetizadores e guitarras. Destaque também para a ótima saideira "Rise & Shine" e "Take Over The World", na qual Double-O tem a ajuda luxuosa de Just Blaze.

Por outro lado, a faceta mais minimalista também funciona, e isso serve para a dupla. Em "Out To Lunch", Naledge limita-se a trocar versos despretensiosos e cheios de referências old school - perceberam uma linha de "Jazz (We've Got) do A Tribe Called Quest? - com The Kid Daytona, tudo sobre uma batida igualmente eficiente, com bateria acelerada e seca. Aliás, alguns dos escorregões de "Land Of Make Believe" são exatamente o contrário; faixas muito enfeitadas, com cantorias exageradas e um mix bagunçado.

Enfim, "Land Of Make Believe" é interessante por retratar bem o momento de reflexão de Naledge e Double-O. Eles encontram-se num ponto onde querem buscar coisas novas e o novo álbum exemplifica bem isso, embora falte um single com a força de "Drivin Down The Block". Não há nada de revolucionário considerando o rap como um todo, mas existem coisas bem diferentes do que estamos acostumados a ver do Kidz In The Hall. Desde um Double-O que sampleava qualquer coisa em "School Was My Hustle" aderindo à instrumentação até um Naledge versão intimista. Entretanto, não se pode deixar de perceber que esta terapia da dupla tem a ver também com o próprio rap. Desde que entraram na indústria até agora, eles já pudem desmistificar alguns fatos, e "Land of Make Believe", ou "Terra das Ilusões", numa tradução bem livre, é um título mais do que apropriado.

Kidz In The Hall - Land of Make Believe
1. Intro
2. Traffic
3. Flickin
4. Out To Lunch
5. Bougie Girls
6. Jukebox
7. L_O_V_E
8. Will II Win
9. Take Over The World
10. Fresh Academy
11. Simple Life
12. Running
13. Do It All Again (I Am)
14. I Am (Reprise)
15. Rise & Shine

Vídeo de "Jukebox":

3 comentários:

Gusta disse...

Também gostei do álbum, mas me impressionou o quanto o flow do Naledge se aproxima com o do Kanye West em alguns momentos. Ou será que é viagem da minha cabeça? Haha

P.S.: Ainda to no aguardo da resenha do Strong Arm Steady =D

jackson disse...

Também gostei desse disco, ambos são muito criativos, sempre trazem algo novo a cada álbum lançado!

Um que vazou e que merece uma resenha: Army Of The Pharaohs - The Unholy Terror (2010)
http://www.mediafire.com/?fd53mddjhgg

Paz!

João Paulo disse...

Isso sim, que é música para meus ouvidos!