quinta-feira, 4 de março de 2010

re:plus: Everlasting Truth

Ano: 2010
Gravadora: Goon Trax
Produtores: re:plus (todas as faixas)
Participações: Hidroponikz (faixa 1), Anika (1), Nick Smalc (2), Pismo (3), Butta P & Gigi (4), The 49ers (6), Noah King & Leah Hanna King (8), Cise Star (9), Cokiyu (13), I Hate This Place (14) e Hietake Takayama (15).

A cena de Hip-Hop do Japão é, atualmente, uma das mais prolíficas, à parte os EUA, do mundo. Calcados principalmente numa vertente denominada por lá de mellow rap, os japoneses alcançaram sucesso comercial e de crítica, com gravadoras lançando bons trabalhos e um grande número de artistas emergindo. Mas o "setor" do rap que notabilizou os japas é a produção. Apostando sempre numa mistura entre jazz e rap - daí o mellow rap -, os caras já revelaram gente como Nujabes, Cradle Orchestra, Uyama Hiroto e Super Smoky Soul. Agora, é a vez da dupla re:plus - assim, com tudo em minúsculas mesmo - , formada pelo DJ Kohei Sato e o pianista e produtor Hiroaki Watanabe. Eles lançaram neste ano seu álbum de estreia, "Everlasting Truth", depois de aparições em dois volumes da bem sucedida coletânea "In Ya Mellow Tone".

Como é um disco de produtores, o trabalho segue meio que uma fórmula talvez inconscientemente definida pelos japas: uma mistura de faixas instrumentais com participações de emcees convidados, a maioria norte-americanos. E o segredo de "Everlasting Truth" é justamente balancear estas duas vertentes e oferecer variantes: uma das faixas, "Blue Sky", deixa o rap de lado para dar lugar à cantora japonesa Cokiyu, enquanto "4 AM" serve como background para a spoken word de I Hate This Place. No todo, são nove canções com voz em cima e outras seis imaculadas, apenas instrumentais.

Quem conhece um pouco da cena japonesa já deve imaginar como é o som do re:plus. A atmosfera é toda tranquila, com melodias suaves fortemente influenciadas pelo jazz. Em alguns momentos, porém, a dupla de produtores consegue incluir sem sobressaltos a sujeira do rap, criando uma mistura muito bem-vinda. É o caso do single "Time Goes By", de longe a melhor faixa do disco, que conta com instrumentação impecável, de strings a pianos, todos bem nostálgicos, mas lança mão de um break empoeirado que faz o contraponto perfeito no mix.

Falando em instrumentos, a proeminência é de pianos - afinal, a metade da dupla Hiroaki toca - e saxofones, de todos os gostos. "We The People" é o ápice desta outra combinação, com o primeiro sendo o coadjuvante para o segundo. Mas não é só o jazz que tem espaço em "Everlasting Truth". Até a música brasileira dá as caras, como na faixa sugestivamente intitulada "Sol", com violão bem tupiniquim e uma batidinha inconfundível.

Nas faixas instrumentais, a habilidade de Hiroaki e Kohei fica ainda mais visível. Com o estéreo só para eles, os caras criam climas espetaculares, capazes de fazer relaxar até mesmo o mais estressado dos executivos. Em suma, é música para alegrar a alma, para ouvir logo depois de acordar e se preparar para encarar o mundo. E algo engraçado ocorre: como muitos outros beatmakers, os dois criam instrumentais que não precisam de emcees para rimar em cima. A diferença é que estes beats ainda guardam uma estrutura que possibilita que eles possam ser utilizados como base por rappers sem dinheiro para pagar suas batidas. Muitos produtores criam instrumentais tão independentes que mesmo o emcee mais experiente teria dificuldade em invadir o espaço do beat; isso não acontece com as criações mais "democráticas" dos re:plus.

Faixas como "Gettin Close" e "Everlasting Truth" são um bom exemplo destas possibilidades, mas nada se aproxima mais do ideal do que o combo jazz-rap de "White Avenue", uma mistura perfeita entre a sofisticação do primeiro com a agressividade do segundo, com um piano viciante em loop e uma batida forte. Mas o melhor fica guardado para o final, com um break sujíssimo dando o gran finale. Esta faixa é tão boa que poderia ser usada por qualquer emcee, mas ninguém a faria tão espetacular quanto ela é sozinha, sem acompanhantes. Entre as faixas com voz, o destaque é "Time Goes By", com o rapper Hidroponikz e a cantora japonesa Anika. Numa performance extraordinária, o emcee nova-iorquino fala sobre a morte de pessoas partidas, enquanto a japinha revela-se dona de uma voz belíssima. Entretanto, faixas como a já citada "We The People" e "Imagine", com o grupo The 49ers, merecem menção.

No fim das contas, "Everlasting Truth" é mais um trabalho sólido de uma cena que, mesmo apostando maciçamente num só tipo de rap, consegue produzir registros de uma qualidade musical espantosa. Podemos dizer que os japoneses acharam seu nicho, e, enquanto não o saturam, nos brindam com artistas extremamente talentosos e que, se não inovam a nível local, trazem uma nova abordagem em contraponto ao rap dominante, o norte-americano. Que esta tradição de batidas belíssimas, casamento perfeito entre jazz e rap e capas espetaculares torne-se milenar também. Por que não?

re:plus - Everlasting Truth
01. Time Goes By
02. Never Looking Back
03. We the People
04. Overcome
05. Everlasting Truth
06. Imagine
07. Dec 27
08. On and On
09. Sol
10. Getting Close
11. Moonscape
12. White Avenue
13. Blue Sky
14. 4 AM
15. Time Goes By (cover)

Vídeo de "Time Goes By":


Curioso com a cena do Japão? Leia textos sobre o coletivo Cradle Orchestra aqui e aqui. E confira uma resenha sobre o Super Smoky Soul aqui.

5 comentários:

119 disse...

hello~~........................................

rubens disse...

aew mano... voce podia me da uma luz... ou uma indicação daonde você baixo esse disco aew...
pelo jeito é muito foda... e eu procurei pela net e não achei...

e se liga... quando voce resenhasse esses discos mais dificeis... bem que você podia por um link... nem que discretamente, assim.... porque as vezes da uma vontade foda de baxa e tem coisa que é praticamente impossivel de achar...,

no mais... parabéns pelo blog aew, cada vez melhor... parabéns...!

daniel disse...

Discaço mesmo Felipe, boa indicação! Esses mellow rap são maluco, acho que pra escutar rap eu tenho sangue japonês. Aliás, cabei de baixar o Super Smoky que eu também não conhecia, achei foda, valeu a dica.

Mó tempão que a gente não troca ideia, qualquer hora de mando um e-mail se a gente não se encontrar pelo msn. Abs!

Felipe Schmidt disse...

Rubens, eu baixei no Hip Hop Bootleggers, que aliás é a fonte de tudo o que aparece aqui no Boom Bap. Procura lá, acho que o link deve estar ativo ainda.

Essa questão do link é complicada, porque um link só pode pôr a perder um trabalho de mais de dois anos. Não acho que compense, entende?

Abraço, e continue visitando!

Anônimo disse...

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