quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Entrevista: Pete Rock

Um dos maiores produtores da história do rap está de volta. Nesta entrevista, Pete Rock fala sobre o novo álbum, intitulado NY's Finest, seu processo de criação, respeito da comunidade do Hip Hop por ele, o jogo do rap atualmente, as conseqüências da tecnologia nas produções e seus momentos mais marcantes.

I- O que fez você lançar outro álbum solo?
Eu sinto como se estivesse faltando um equilíbrio no Hip Hop de hoje, no rádio e nos vídeos. Eu quis voltar e ensinar aos jovens sobre quem eu sou e o que eu já fiz no jogo do rap. Tentar guiá-los, ou qualquer um que está procurando entrar no Hip Hop, na direção certa.

II- Em uma de suas rimas, Kanye se auto-intitulou a nova versão de Pete Rock. Você já se incomodou quando as pessoas te mencionam como se você não estivesse mais ativo no Hip Hop? Claro que não. Eu nunca saí e eu sempre vou star no jogo. Isso apenas me mostra que meu trabalho não foi feito em vão e que eu inspirei um monte de caras. Eu não posso interpretar de outra maneira. A única coisa que eu não gosto é falarem de mim como não estivesse mais aqui. Eu estou aqui, fazendo beats. Eu tenho umas coisas no novo álbum da Keyshia Coles, do Styles P, estou trabalhando com o LL Cool J agora, fiz uns trabalhos com 50 Cent. Agora mesmo eu estou me concentrando em lançar boa música. Eu fiquei um tempo meio sumido, mas eu nunca abandonei nada.

III- A tecnologia está tornando mais fácil a cada dia para qualquer um ser um rapper ou um produtor. Como você acha que isso afeta a qualidade da música? Eu acho que é uma coisa boa. O importante não é o que você tem, e sim como você usa. Eu sou um cara do tempo do vinil, mas você não vai querer ficar carregando discos pelos aeroportos, porque eles vão acabar com a tua bagagem, então eu levo o laptop e tá tudo certo. Existe um certo som que vem do vinil, eles não podem simular este som do vinil, nem o sentimento quando se está discotendo numa festa. Só o sentimento de mexer com o vinil é uma das melhores coisas no mundo. Mas todas essas coisas da nova geração são legais. Tudo se resume a como você usa, qual o som que você quer fazer e, mais importante, suas razões para fazer isso.

IV- Qual é o seu processo ao criar música?
Eu vou para a minha sala de música, provavelmente tenho alguma coisinha já em mente, e apenas fico ouvindo as coisas e deixo minha imaginação fluir. Às vezes, eu vou pra lá com uma idéia na cabeça e às vezes vem tudo muito rápido pra mim, mas das duas maneiras, uma vez que eu comecei, simplesmente flui. Eu tenho feito isso por tanto tempo que simplesmente acontece. Eu dominei isso. Seja sampleando, tocando teclado ou qualquer outra coisa, é realmente bem fácil para mim.

V- E as rimas fluem tão fácil quanto os beats, ou é algo diferente?
A parte da rima é diferente. E para ser honesto, eu acho que amo isso um pouco mais do que a música, mas ambas são partes do Hip Hop. Eu amo rimar. Eu não sou um Biggie, que era perfeito com as rimas, mas eu sou bom o suficiente para manter um raciocínio e entreter as pessoas enquanto elas ouvem o que estou dizendo. Por acaso, um cara como o Swizz Beatz, o tipo de música que ele faz, quando você está na boate e vê o que acontece, a reação das pessoas quando toca um beat dele é incrível. Você tem todo um novo respeito por ele.

VI- Quando esteve trabalhando no novo álbum, você escolheu as participações conscientemente ou simplesmente tentou coisas diferentes com pessoas diferentes? Eu só quis trabalhar com pessoas que tinham o mesmo amor pelo tipo de música que eu faço. Eu procuro por estes artistas que gostam do tipo de música que eu faço. Meu interesse em '08 é trabalhar com pessoas que querem trabalhar comigo, e vice-versa. Considerando que o jogo tem mudado, os artistas não trabalham da mesma forma como costumavam antes. Então, é meio estranho quando eu vejo eu mesmo mandando emails com beats para os caras, em vez de sentar com os artistas e discutir a música. Mas eu só lidei com pessoas que têm o mesmo amor que eu por isso.

VII- Ultimamente temos ouvido um monte de pessoas falando sobre as diferenças entre um beatmaker e um produtor. O que você acha do uso de cada título? É tudo a mesma coisa. As pessoas sempre querem criar um novo significado para uma palavra antiga. Pode ser apropriado em algumas situações, mas não sempre. Tipo, eu sou um beatmaker e um produtor, então o que eu sou? Não existe palavra nova, você é um produtor. Mas eu aco que o que os caras estão tentando dizer é: ser versátil com sua música é importante. Não limite a si mesmo a um só gênero. Não tenha medo de tentar coisas diferentes. Se você pode fazer tipos diferentes de beats, Hip Hop, R&B, Pop, Jazz, então você é um produtor acima da média.

VIII- Quais as músicas do novo álbum que você acha que as pessoas mais vão gostar? Eu acho que as pessoas vão gostar da música que eu tenho com Jim Jones e Max B. A música do Jim Jones é boa. Eu fiz uma música para boate com o Rell. É legal, uma música relaxante. Já do lado dos porradões, da rua, eu tenho coisas com Papoose, Royal Flush, Redman. Eu tenho uma estilo reggae com o Chip-Fu do Fu-Schnickens e Rene do Zhane'...é o cara mais escuro, para aqueles que não conhecem.

IX- Com as estações de rádio e vídeo send tão específicas sobre o tipo de música que os artistas precisam fazer para tocar, você está preocupado com seu projeto passar despercebido? É assim que é o jogo. É um ponto onde os caras querem aquele som comercial, pop, que faz eles ganharem mais dinheiro. É tudo o que eles de querem. Eles querem escravizar os artistas, no sentindo de fazer um monte daquelas músicas, que fazem eles ganharem um monte de dinheiro. Eu só acredito no que vem de você. Eu não acredito nas pessoas dizendo a você o que pensar, o que dizer ou o como fazer sua música. Você deveria fazer isso do seu jeito e fazer o que você sente. Faça o que sua alma sente, é o que eu tenho feito por todos esses anos.

X- Você é parte de um dos mais influentes grupos de Hip Hop e responsável pela criação de alguns clássicos. Você acha que tem o respeito que merece? Eu sinto como se existisse alguém por trás das cenas ou em algum escritório em algum lugar que não conhece a história deles e não conhece Hip Hop. Se eles conhecessem, eles incluiriam mais caras como eu. Eu estava num show do Hip Hop Honors uma vez, como deejay. Eu não estava no palco, ou algo do tipo. Você só me viu de na esquina, deslocado. E isso é engraçado para mim. Mas eu estava feliz por estar lá e eu sempre fico feliz por fazer parte de coisas como esta. Mas existe alguém por trás que realmentenão conhece a história deles. Eles não conhecem realmente Hip Hop e não amam realmente o Hip Hop. E é sempre uma pessoa assim que acaba arrumando emprego dentro do Hip Hop. Tem um monte de gente vivendo disso que não conhece nossa história, e isso me faz rir.

XI- Sua carreira tem quase duas décadas, quais foram os momentos que tiveram mais significado para você? Meu melhor momento como produtor é sempre quando eu trabalho com pessoas que eu nunca trabalhei antes. Caras como Run-DMC, LL, Biggie, Big L, 'Pac, pessoas assim. Eu estava excitado para trabalhar com estes artistas porque, na época, eu era apenas um consumidor do Hip Hop. Eu estava catando dinheiro da bolsa da minha mãe para ir à loja de discos. Eu amava isso e estava determinado a fazer música. Isso já estava dentro de mim tão cedo porque meu pai estava envolvido nisso. Como um emcee, meus momentos favoritos foram quando os caras vinham aqui em casa. Todo mundo, desde Biz Markie até Redman, Mos Def, Talib Kweli, Common, Large Professor, um monte de caras vinham para a minha casa e a gente ficava fazendo jam sessions aqui. Nós ouvíamos os samples e rimávamos sobre beats que tínhamos feito naquele dia. Este foi um dos sentimentos mais gloriosos. Turnês também eram legais. Só de ver os fãs vibrando contigo, cantando as palavras e tal, é uma sensação muito boa.

XII- Em uma entrevista antiga, Chubb Rock disse que ele gostaria de fazer um álbum de Jam Session similar ao que os artistas de Jazz costumavam fazer. Quem você gostaria de recrutar se você pudesse fazer um projeto parecido? Tem tantas pessoas por aí com as quais eu adoraria trabalhar num projeto como esse. LL Cool J, eu gostaria de trazer de volta meu primo Heavy D, Dr. Dre, Snoop, Jay-Z, OutKast...a lista continua.

XIII- Todo mundo sabe que não existe fundo de garantia no Hip Hop. Sabendo disso, você já pensou em sair da indústria da música para procurar uma maneira mais estável de viver? Eu sempre vou fazer algo na música. Tudo que eu possa fazer profissionalmente na música, eu vou fazer. Uma das coisas que eu realmente quero fazer é criar trilhas sonoras. Eu nunca levei a sério antes, mas eu realmente gostaria de fazer isso de forma séria, desde que eu vi como o RZA capitalizou nesse negócio com Kill Bill e Blade. Eu gostaria de lidar com filmes de ação, de super-herói ou de gangster. Principalmente, gangster e super-herói. Eu sempre gostei dessa coisa de super-herói, desde que era pequeno, logo eu adoraria fazer parte disso. Eu gosto de vários filmes que eles têm feito, e eles têm lançado vários ultimamente, então eu realmente estou bastante afim de fazer algo do tipo.