segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Entrevista: AZ

AZ, o lendário emcee de Nova Iorque, antigo parceiro do Nas e dono de uns dos flows mais incríveis fala sobre seu novo álbum, seu reconhecimento no jogo, liricismo, diferença entre grandes gravadoras e independentes e etc.

I- Tudo certo AZ?
Tudo certo mano. Eu estou bem.

II- Isso que importa. Então, existe alguma razão para você ter nomeado este álbum de Undeniable (Inegável) ?
Bom, eu sinto como se eu já tivesse coberto todos os estilos, com todos os meus outros álbuns. Eu senti como se eles pudessem ser negados, enquanto esse eu acho que vai ser inegável para as massas.

III- Entendi. O que as pessoas podem esperar do seu álbum?
Bom, eu entendo que eu sempre estive expandindo meu flow. Em todos os meus sons você ouve um novo e melhorado AZ, então meus fãs podem ficar sabendo que eles vai estar ouvindo AZ à décima potência.

III- Como você se sente sobre a sua carreira agora? Você sente que você tem sido subestimado?
Isso não me incomoda, mas com certeza eu sou subestimado. Mas eu sei que eu estou trabalhando duro, e no final do dia, eu não estou ganhando muito com isso. Porque eu sei de onde eu venho. Alguns dias são apenas menores do que outros, é isso.

IV- Certo. Você acha que existe alguma razão por que você não ganhou muito sucesso comercial?
Bom, quando você está nesse jogo, você tem que saber que é tudo negócios. Existem milhares de razões por que não explodi do jeito que era suposto. Mas é tudo em relação aos poderosos, entende? Certas coisas controlam certas coisas dentro do jogo que impedem certas coisas. E, no fim das contas, certas pessoas que estavam por trás de mim não se esforçaram o bastante. Então, é um monte de coisas, mas enquanto eu conseguir me manter bem no jogo, eu me sinto bem sobre isso.

V- Após todos esses anos, o que te mantém motivado para fazer música?
Isso está no meu sangue, mano. Eu sou do Brooklyn, e eu represento os malucos que nunca voltam para casa, e todas as pessoas que estão perdidas na luta, entã eu continuo por eles. Também para os jovens entenderam as coisas, porque eles estão correndo por aí selvagens e cegos. Então, eu faço isso simplesmente pelo amor ao jogo.

VI- Sua carreira inteira foi baseada no liricismo. Você acha que o liricismo ainda é um fator prioritário no Hip Hop de hoje?
Hoje a moda é fazer toda aquela dança e aquela gritaria. Mas é assim que é, as coisas crescem e mudam, e nada nunca continuará o mesmo. No fim das contas, tudo dá uma volta de 360º, então eu tenho certeza que ele(liricismo) vai voltar. E se você é um verdadeiro letrista ou apenas um maluco verdadeiro, você sabe disso. Porque às vezes as coisas se tornam uma seca, então você tem que ir devagar até tudo voltar ao normal. É assim que é.

VII- Falando nisso, quando você está escrevendo, você não fica preocupado com algumas das metáforas que você usa ou algumas coisas que você escreve, no caso de fazer a cabeça das pessoas?
Eu penso em fazer a cabeça das pessoas, porque eu tento escrever minhas letras e direcioná-las para aqueles que precisam entendê-las. Eu sei do que eu falo, existe um grupo de pessoas e uma base de fãs lá fora que está digerindo o que estou falando. Eu só acho que aqueles que fazem sua cabeça, é realmente o defeito deles. (risos)

VIII- (Risos) Sim, entendo. Toda vez que você lança um álbum, você se sente como se estivesse competindo com a nova geração que está chegando agora?
Não, não há competição. Eu não estou fazendo isso pelos prêmios ou nada do tipo. Como eu disse, eu estou fazendo isso para os malucos verdadeiros nas ruas, e existe uma luta de verdade acontecendo aqui. E as massas estão tentando cegar a juventude e torná-los surdos e burros. Então, estou tentando fazer o que sei fazer, e atingir o máximo de pessoas possíveis, para abrir seus olhos e deixá-los entrar na luta. Porque, na minha opinião, um ensina o outro, de qualquer forma.

XIX- O que você faria diferente se pudesse voltar para 1993-94 e começar sua carreira de novo?
Cada lição é uma benção, então eu não mudaria nada. Mas eu não iria andar com muitas pessoas com as quais andei, você entende(risos). É a energia que você rodeia a si mesmo que te ferra, e ferra um monte de pessoa, entende? Então, a única coisa que eu mudaria seria a porra das minhas companhias.

X- Como você acha que você continuou relevante durante esses anos?
Eu acho que eu faço um trabalho verdadeiro. No fim das contas, a pessoa comum só lança 1-2 álbuns, mesmo os grandes artistas só colocam 1, 2 ou 3 álbuns, e eu tenho 7 álbuns lançados, então eu continuo relevante. Eu não vendo um milhão, mas eu vendo o suficiente, entende? É uma boa coisa, eu não vou ficar com raiva enquanto continuar lançando álbuns. E toda vez que eu lanço algo, fica mais potente, então eu não fico chateado.

XI- Como você disse, você lança um álbum a cada ano ou um ano e meio. Você não se sente queimado por lançar álbuns a essa velocidade?
Não, não, eu sou como o sol, o sol nunca queima mano(risos). O sol está lá há um bilhão de anos. Eu alimento a mim mesmo. Eu sou tipo uma bateria de carro. As únicas pessoas que queimam a si mesmas são as pessoas que lançam merda. Eu já vi muita merda, e a minha linhagem é séria. Isto está na minha alma, eu não brinco com isso, entende?

XII- Na sua música "Life on the Line", você tem uma rima onde você diz: "Nas ficou rico e reagiu / eu não estou rico ainda". Vem à sua cabeça, às vezes, que seus colegas de alguma forma foram mais bem-sucedidos do que você?
Bom, eu estou tão em sintonia comigo mesmo, é como se eu tivesse um muro à minha volta. Esta frase disse: "Nas ficou rico e reagiu / eu não estou rico ainda. Significa isso mesmo, ele está correndo atrás, eu estou correndo atrás. Eu não estou na linha de pobreza, mas eu estou correndo atrás. Eu só estou informando as pessoas, deixando as pessoas saberem de tudo. Porque um monte de gente diz: "Ae, o que houve com você e o Nas?" e no final das contas eu digo: "Não sou eu! Não sou eu!", entende? Eu não quero que as pessoas apontem os dedos para mim. Eu sei o que fãs querem. Eles querem algo comigo e ele juntos, porque eles sabem como nós combinamos. Mas ei, ele ficou rico e está em outro nível, eu não sou rico ainda. Entendeu?
XIII- Sim. Então, qual seu relacionamento com o Nas agora? Você pretende trabalhar com ele no futuro?
Eu não acho que a magia exista mais; é assim que é. Se acontecer, aconteceu. Se não, então não. Isso não vai impedir ninguém de viver, porque todo mundo está correndo atrás de qualquer forma, então...

XIV- Quais são as coisas que você não gosta na indústria da música?
Tem muita inveja no jogo, muita falcatrua acontecendo.Particularmente, eu não me afilio com ninguém na indústria, todo mundo só pensa em si mesmo. Eu sei que é negócios, mas as pessoas colocam "cortar gargantas" na frente do negócio, então se torna um "negócio de cortar gargantas". Todo mundo quer vencer, mas eles estão numa corrida indo a lugar nenhum, e a única maneira de vencer é entender a si mesmo. Eles não estão vendo uma perspectiva maior, eles pensam que é só vender um milhão de discos e ganhar mais dinheiro, mas isso só traz mais problemas. Se você não está preparado para os problemas, você vai se tornar vítima, e é por isso um monte de rappers está enfrentando tantos problemas agora. Quando eles querem o poder, e eles não sabem como usar o poder. Eles usam de forma errada.

XV- No último ano você teve uma música chamada "Royal Salute" onde você fez uma retaliação contra os comentários do 50 Cent ao seu respeito. Um monte de pessoas não respondeu. O que fez você responder?
Eu não quis ir em cima dele, eu só quis falar com ele, mas eu acho que esta era a única maneira em que nós poderíamos nos comunicar, então eu só deixei ele saber. Tipo: "você nunca pode mexer comigo, então nunca pense em mexer comigo". Eu quis dizer na música que dinheiro não pode comprar o seu caminho para o paraíso, e quando você morrer você não vai poder levá-lo contigo.

XVI- É verdade. Quais foram os fatores que levaram você a assinar com a Koch Records?
Na verdade, é Quiet Money/Koch e é um acordo de distribuição, e é bom. Eu não estou contratado pela Koch, eles estão apenas distribuindo a minha música. Como eu disse, eu estive em grandes gravadoras, então agora eu estou no mundo independente para ver aonde eu posso ir com isso.

XVII- Como você disse, você esteve no circuito das grandes gravadoras e agora no circuito independente. Existe algum que você ache melhor? Ou é tudo a mesma coisa?
Agora eu estou tentando entender isso, porque existem problemas em tudo. Nem tudo que brilha é ouro, então eu estou tentando descobrir. Mas eu tenho mais controle criativo desta forma, e mais dinheiro também. A única coisa que ferra é que as grandes gravadoras colocam mais dinheiro no marketing e na promoção, o que torna o trabalho mais abrangente. Então, de um lado você tem mais fama, do outro você tem mais dinheiro, então você decide, entende?