sábado, 1 de dezembro de 2007

Entrevista: GZA


O álbum recente do Wu-Tang Clan tem sido motivo de muitas controvérsias, com os membros Raekwon e Ghostface Killah reclamando publicamente do álbum. Depois, RZA veio a público explicar a questão e afirmar que todos estavam em paz. Agora, é a vez de GZA falar. Para mim, The Genius é o mais articulado e inteligente membro do grupo. Essa entrevista fala sobre o novo álbum do grupo, os problemas com Raekwon, o polêmico novo álbum de Nas e os novos projetos de GZA, como o álbum Protools e um trabalho em conjunto com RZA.

I - O novo álbum do Wu-Tang está para sair em poucos dias, você está animado?
Ummm, sim, sim, estou bastante animado. Eu nunca me animei muito com lançamentos de álbuns. Mas esse parece bom. Eu estou feliz por voltar para o jogo.

II - Você está feliz com a direção que o álbum tomou?
Eu gostei dele, sim. Está crescendo em mim cada vez mais. Quanto mais eu ouço, mas eu gosto dele.

III - Quando Raekwon desabafou e disse que não estava gostando do álbum, ele estava falando por todos do grupo? Não, ele estava falando por ele próprio. Digo, era o que Rae estava falando. Sempre existe espaço para melhorar. Pessoalmente, eu sinto que eu poderia ter feito melhor no álbum, mas você tem de considerar o tempo que levou para ficar ponto.

IV- Raekwon também mencionou que ele pode ter alguns problemas com dinheiro. Você já passou por isso? Eu nem vou me meter nesse assunto. Raekwon estava falando por ele mesmo. Ele é meu irmão assim como RZA também é meu irmão e eu não vou ficar contra ninguém. Raekwon nos representa como grupo também. Talvez ele tenha maiores preocupações sobre isso do que os outros membros ou então essa sua briga tomou outras proporções.
Mas eu não vou ficar contra ninguém. Eu não fico revelando problemas, quando se trata da minha família. Se eu tenho problemas financeiros, então eu lido com isso. Sempre existem problemas com um grupo ou família, mas isso acontece com todo mundo.

V- Seu álbum de estréia Liquid Swords colocou você como um dos melhores letristas do Wu. Como você se sentia quando estava preparando o álbum? Eu me senti bem porque estava saindo de um momento muito desapontante. Coisas anteriores não foram tão boas. Eu estava na gravadora Cold Chillin e meu álbum não teve promoção adequada, então eu arrumei outra gravadora e isso foi numa hora boa, porque o Wu-Tang estava explodindo na cena. Foi bom. Todo mundo estava indo para o estúdio, todo o clima era excelente. Foi um bom tempo.

VI- Você considera a época em que você surgiu como uma Época Dourada?
Eu nao chamaria de época de ouro. Eu acho que nós estávamos saindo da época de ouro. Eu acho que era isso. Nós, como artistas e letristas, consideramos a época dourada o final dos anos 80. Aquilo era a época dourada. Você sabe, talvez Biggie, Jay-Z, Wu fossem de outra era, a era da platina.

VII- Wu, Nas, Jay, Big, todos surgiram por volta da mesma época. Você vê alguma semelhança entre vocês?
Eu diria que os nossos sons eram diferentes, o que é algo bom. Assim que era na época de ouro. Eu penso que o bom da época dourada era que havia muito material e um diferente do outro. Nas era diferente do Mobb Deep, que era diferente do Wu, que era diferente do Jay. Tudo era diferente, não era como hoje, onde muitos soam iguais. Nós não tínhamos nenhum contato, só podíamos fazer do modo como fizemos. O modo como nós entramos no jogo e ganhamos dinheiro além da música foi muito diferente.

VIII- Como você se sente sobre o hip hop hoje?
Eu não ouço muita coisa. Eu posso ouvir se eu tiver assistindo à televisão ou se estou ouvindo rádio, ou então o que as pessoas estão tocando nas ruas, só assim que eu ouço.

IX- E você gosta de algo?
A maioria não. Tem tempo que não ouço algo realmente cativante.

X- Existem alguns novos emcees que você tem gostado?
Não, não, nada está me chamando a atenção, mas o Hip Hop é assim. Está mudando, ele está sempre mudando. É uma música que surgiu nas ruas, algo que era um hobby e se tornou a música que mais vende hoje em dia. É o único tipo de música gravado em quase toda língua. Não existe outra música como essa.

XI- Você sente que a política tem um grande papel na indústria musical hoje em dia, ainda mais do que no tempo em que você começou? Claro que a política sempre vai estar em tudo. Eles estão envolvidos desde o começo. Eles já estavam ligados no Hip Hop no começo da década de 80. Barbara Walter ficava perguntando, quanto tempo isso vai durar? Eles estavam tentando minar o hip hop, mas a política estava nos dias em que Ice-T lançou "Cop Killer"(Assassino de Policiais). Eles sempre se meteram. Eles se meteram com Snoop e Dolores Tucker. Estão se metendo agora com a palavra que começa com N (nigga). Quanto mais dinheiro estiver envolvido, mais a política vai se envolver.

XII- Como você se sente com o uso da palavra que começa com N pelo Nas para o próximo álbum dele? Ele pode fazer isso. Nas é um poeta, ele é um grande letrista, um poeta, faz músicas excelentes. Eu sempre vou parar para ouvir o que ele tem a dizer. Ele já fez tanto pelo Hip Hop com as músicas que ele gravou. Ele é um dos maiores. Ele sempre faz mas coisas boas do que ruins. Ele poderia chamar o álbum dele do que quiser, porque ele tem um motivo para isso, como quando ele disse que o Hip Hop estava morto. Por um lado, estava morto, e eu estou certo que ele tinha a definição dele. Ele pode se sentir daquele jeito, e se ele chamar seu álbum assim, ele tem direito de fazer isso. Por que esse escândalo todo agora?
A problema com os políticos é que eles vêem os rappers e acham que ganhamos dinheiro demais ou espalhamos ignorância. Richard Pryor tinha um álbum chamado "That Nigga Is Crazy" nos anos 70, um álbum de comédia, não era um negócio grande. Então, por que agora? Por que esperar até os rappers quererem usar essa palavra para poder se meter?
Eu não estou dizendo que esta é uma palavra que deveria estar na boca dos jovens a cada 5 palavras que dizem, ou em toda frase. O engraçado é que estes mesmos políticos usam a palavra. Eu tenho certeza absoluta que Al Sharpton usa essa palavra regularmente. Eu uso outras palavras; Eu não uso palavras muito negativas, coisas profanas. Eu não gosto muito, não faz parte da minha escrita e não uso desde Liquid Swords. Eu apenas escolho outras palavras, existem mais de 100 mil palavras no dicionário.
Porém, é engraçado porque, para mim, essa palavra é usada cotidianamente. Se eu vir um amigo na rua, eu vou falar: "Onde aquele negro vai?", "Aquele negro saiu do carro!". Esse é o significado, para mim. Eu também acho que nós deveríamos usar outras palavras, porque existem pessoas que se ofendem com ela. Ela foi um nome dado aos escravos, mas agora que nós escolhemos aceitá-la, eles quem nos impedir de usá-la, isso é conversa fiada. O que aconteceu com a liberdade de expressão?

XIII- Você acha que o Hip Hop está morto?
Às vezes sim, às vezes não. Às vezes eu acho que ele está num ponto onde precisa de ajuda. Não está morto, porque ele continua aqui, continua em volta de todos nós. Eu não quero me contradizer, porque eu sei de onde eu vim. Como o hip hop poderia estar morto se o Wu-Tang é eterno? Nas falou coisas interessantes. Vários emcees são brilhantes à maneira deles. Eles são espertos, mas os temas que abordam são fracos.
Eu acho que 95% dos rappers não falam o que querem. Fazem o que está na moda. Eles não estão tocando isso no rádio ou na boate, então nós precisamos fazer um hit, ou uma música de rua. Não, música tem que ser feita a partir do que nós vemos.
A música deveria ser uma pintura, onde você só faz o que você vê. Você deveria ser inspirado por algo. Você poderia ser inspirado por uma história. American Gangster poderia inspirar você, mas toda a sua história de vida não precisa casar perfeitamente com a história. É tudo a mesma coisa, "Eu tenho uma arma, eu estou por cima". Tudo isso já foi dito da mesma forma. Você pode falar de forma diferente.

XIV- Você prefere gravadoras grandes ou independentes?
Amas têm pontos fracos e fortes. Tudo depende de como você encara. Eu poderia estar numa gravadora grande e vender 500 mil cópias, e ganhar uns trocados, ou eu poderia ser independente e vender 100 mil e ganhar muito dinheiro. Depende da sua situação, do que trata o seu negócio, se eu vendo 200 e ganho 8 por cópia vendida, eu to ganhando dinheiro. É tudo sobre como seu acordo está estruturado. Numa gravadora grande, nem sempre é assim. Eu já fiz álbuns que nunca viram a luz do dia. Mas depende. Às vezes é bom estar numa grande gravadora. Você consegue uma exposição maior.
Independente é a maneira na moda, o que é bom porque dá a você o poder de produzir um álbum e lançá-lo. Não existe censura, não existe intermediários. Numa independente é tipo assim: o dinheiro está aqui, o que você quer fazer? Você não precisa consultar muitas pessoas.
É bom que ultimamente vários bons artistas estão surgindo de forma independente e tendo sucesso. É um negócio engraçado. É tipo assim: eu poderia vender 1 milhão de cópias numa grande gravadora, depois vender 400 mil e ser dispensado, então eu venderia 200 mil de forma independente, e aí as grandes voltariam a me oferecer contratos.

XV- Você está numa gravadora independente né?
Sim, eu estou fazendo um projeto com a Babygrande. Eu vi uma propagada aqui perto onde estavam promovendo um álbum como um álbum do GZA. Eu provavelmente vou estar na maioria das faixas, mas deve ser uma compilação, são vários artistas no álbum. Está quase terminado, e depois eu vou começar a trabalhar em outro álbum junto com o RZA.

XVI- Quando será lançado?
No ano que vem, não sabemos quando, mas temos algumas opções.

XVII- O que mais podemos esperar ver de você?
Eu estou trabalhando em várias coisas. Estou fazendo uma história em quadrinhos. Trabalhei duro durante todo o verão nisso. Deve sair em breve. Eu tenho algumas idéias para outro romance, estou criando a base da história. Eu to por dentro de roteiros e romances. Eu gosto de filmes, eu quero lançar vários filmes e deixar RZA fazer a parte musical. Eu não paro, você pode aguardar ouvir alguns excelentes projetos vindos de mim num futuro próximo.

Um álbum novo em parceria com RZA? Pode sair amanhã logo!